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O DEZESSEIS: por Fabiana Agra

5/07/2016 04:06

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por Fabiana Agra
(…)
XX
Agosto, mês do desgosto – perguntas que não acabam mais

Após aproveitar a deixa junina para resolver alguns pormenores entre a ladeira de Regomoleiro e a estrada de Golandin, peguei dois busão chegar ao Brito. Encontrei Donana e os bichos bem tranquilos, preparando o retorno às terras do frevo e de Freire, mas a calmaria escondia a realidade, porque o foco não deixa nunca de ser o bendito golpe, não tem jeito de fingir normalidade. Indagora mesmo eu li um bilhete de Cruz, daquele mesmo que encontrei no início de tudo, e ele falava do que o mês de agosto pode trazer, se a diva não der um jeito de voltar: o temeroso ficará, por óbvio, mas até quando? Será que os golpistas não estão se preparando para bombardeá-lo no romper do Dezessete e então lançarem as eleições indiretas? E se assim acontecer, será que finalmente o Corcunda-da-Cerra sentará no trono da presidência? Quem saberá, na altura do campeonato, né Cruz?

Mas o que a gente sabe mesmo é que agosto sempre foi o mês do desgosto, não tem jeito. Só pra ficar na política, o pai dos pobres se matou num 24 e o pai de Brasília se foi num 22 desse mês agourento. E neste nosso Dezesseis, o que agosto reservará? Será que ela conseguirá reverter a má sorte de seus antecessores, modificando todo o script da história ou apenas seguirá o caminho destinado aos reconhecidos em futuro distante, sendo impichada e definitivamente posta de lado? Difícil dizer, Donana e bichos. Difícil saber. Só sei que a gente está aqui é pra resistir e lutar, mesmo vendo a nossa terra sendo entregue aos piratas de agora, mesmo vendo os nossos segredos serem devassados pelos que aqui estão em busca do ouro negro, mesmo lendo absurdos impensáveis meses atrás. Mas tem mais, ainda, que Cruz alertou pra uma coisa que eu também vinha matutando: se o impíchim passar mesmo, quem não garante que os golpistas não farão novas regras mudando e unificando as eleições para o Vinte? Vocês duvidam? Eu não. Eu só sei que estamos nessa luta apenas pra que ela volte, nem vou entrar naquela de lista de exigências porque a sua volta já estará de bom tamanho, você sabe que quem muito pede pode tudo perder…

Já passava das três horas da tarde quando dona Sinhá e seu Inglês foram abrir a porteira e lá ficaram, acenando pra gente. A estrada de massapê foi ficando pra trás, tragando os nossos dias de paz e noites de confraternização das juninas. Dias e noites de vazios necessários, sem conexão, sem likes. Conversas de antigamente afloraram, e o tédio criador deu um sopro em nós todos. Mas agora precisamos retornar ao mundo ilusório gritado em linhas magistrais pela mulher-que-traz-o-nevoeiro-em-si: “Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade, o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito, mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para existir eu é preciso o outro.”

Já era noite quando senti o cheiro de mar e bem cedinho fomos até o porto conseguir a bendita carona pro sul. Não foi difícil encontrar um capitão que fosse até o porto de Paranaguá, difícil foi convencer o homem a aceitar tão estranha carga, principalmente Picuínha. Mas foi só falar do motivo da viagem que ele abriu um sorriso largo e disse sim aos caronistas da esperança, marcando a viagem pro sábado. Olhei as antigas terras dos Caetés, a foz dos dois rios cortando estradas de água sinuosas que, agora, são tragadas pelo progresso que afugentou os tubarões. Chamei os bichos para perto de mim que aquilo lá era um furdunço grande demais até pra eles e fiquei cubando a tranquilidade de Picuínha, a amargura do corvo e a curiosidade do felino. Estou bem arranjada de companhia, disso eu não posso reclamar, bem sei.

www.reporteriedoferreira.com   Fabiana Agra
advogada, jornalista e paraibana.