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Menino voador: Marcos Souto Maior

22/07/2013 21:56

Marcos souto maior

Toda criança tem e merecem seus sonhos, simples ou mirabolantes deixando os pais sempre angustiados porque a realização dependia, invariavelmente, do dinheiro suado de cada dia. Antigamente pediam e eram consolados com objetos baratos e simples como uma bola, carrinho, pião, pistola de plástico, joguinhos como pega varetas, dama e baralho.

Claro que sempre existiu uma ponta de vaidade para quem recebia um bom e caro divertimento em contraponto com a inveja de quem ganhava um presente barato e mixuruca… De início havia, sim, esse consequente desequilíbrio valorativo para a meninada, de brinquedos nas mãos, distribuídos em grupos seletivos, entretanto, os equipamentos terminavam se misturando. A brincadeira começava com sorrisos e os gritos de pura alegria!

Na redondeza onde morava com meus saudosos pais, havia uma espécie de condomínio dos brinquedos ganhos, principalmente no tempo natalino, onde os padrinhos também presenteavam os afilhados. A garotada se reunia na calçada da rua, ou no terraço e quintal de uma residência espaçosa onde todos brincavam com os presentes de todos… Seria uma espécie natural do socialismo de brincadeira!

Confesso ter visto e enamorado, em loja de miudezas, na Rua Direita, hoje Duque de Caxias, perto de minha casa, uma vitrine com trator vermelho de galalite, apoiado num chassi de ferro e com duas pilhas movimentavam a esteira de borracha empurrando desde caixas pequenas até cadeiras sem braços da loja. A concha na parte frontal era movimentada para cima e para baixo cavando pedrinhas, areia, caixas de fósforos, e até tampas de refrigerantes.

Nas vezes que passava na lojinha de seu Viana, velho abusado e poupeiro, era enfeitiçado entrar para perguntar pelo imutável preço do meu objeto de desejo. Saía cabisbaixo e triste com olhos marejando, mesmo assim, sempre reconhecia o pequeno salário de Seu Hilton. Foi minha primeira lição de vida aprendida no seio da minha querida família!

Engraçado que a turminha do colégio, ao término das aulas, saia em procissão e paravam para perguntar ao dono da loja: “seu Zé tem bombons?” A resposta de seu Viana era imediata: “cabra safado eu vou anotar para dizer a seu pai, cahorro…” Sendo acudido pela simpática esposa Dona Elza, muito diplomata e risonha. Até hoje não entendi a ira do vendedor, inclusive o nome José é até bíblico e bonito.

Tempo passou e meu sonho de infância foi ultrapassado pela adolescência não mais me interessando pelo trator vermelho! Até porque estudei e me esforcei para ter uma vida mais saudável para mim, minha mulher, filhos e agora netos, mudando meus devaneios.

Hoje, vejo que alguns amiguinhos mantiveram intactos seus desejos infantis! A vontade extravagante de ter um avião, por exemplo, é somente delírio para muito poucos que contamos nas pontas dos dedos. Até porque a máquina de voar é equipamento restrito e possível aos poucos e ricos empresários que conseguem adquirir, afora os abonados dos órgãos públicos federais e estaduais, que gastam e desgastam as verbas públicas.

Pois bem! O meu contemporâneo da infância, desprezou a turminha de amigos para continuar na ambição desmedida de ter um avião à sua disposição e seus familiares, o que terminou, como num passe de mágica, ter mais de um aparelho voando, mesmo sem gastar um tostão furado…

(*) Advogado e desembargador aposentado