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Gilvan de Brito revela vexames vividos por Paraibanos em Connecticut/EUA

7/01/2017 21:10
 

Gilvan cobriu embarque e desembarque dos paraibanos na década de 70

 O jornalista e escritor Gilvan de Brito revela, em texto, conta jornada de paraibanos em intercâmbio na cidade de Connecticut, nos Estados Unidos. Gilvan cobriu embarque e desembarque dos paraibanos e se assustou com a diferença entre as caras do viajantes, que no embarque seguiam alegres ao país, e no desembarque demonstravam uma cara de aborrecimento.

Leia o texto na íntegra:

Na década de setenta brasileiros e norte-americanos criaram um programa de intercâmbio cultural chamado Cidade-Irmã, para estender os laços de amizade entre comunidades de países diferentes e permitir a troca de conhecimentos, hábitos e costumes entre os povos dos centros interligados.

Coube a João Pessoa tornar-se Cidade-Irmã de Hartfort, capital de Connecticut, cidade dormitório de Nova Iorque. A Paraíba, com seus 53 mil km² era um pequeno Estado, o 17º, entre os 25 Estados federativos do Brasil de então, enquanto Conecticut, com 14 mil k² era a 48ª entre os 50 estados norte-americanos. Ambas, porém, possuíam população superior a dois milhões de habitantes,

Logo João Pessoa foi infestada de grandes cartazes em papel couchet e colorido berrante mostrando as belezas de Conecticut, cidade que diziam ter vocação para o turismo e onde o visitante não teria sequer tempo de dormir, tal a quantidade de atrações disponíveis que, para conhecê-las. Necessitaria de uma estada bem mais prolongada.

Mesmo com todas as vantagens oferecidas, hotéis mais baratos, passeios a custos acessíveis e comida por preços razoáveis, o programa não despertou muita atenção por parte dos habitantes das duas cidades. Do lado dos americanos era desestimulante o fato de terem o conhecimento de que João Pessoa não possuía hotéis e os visitantes seriam espalhados nas casas de pessoas que se habilitavam a recebê-los. Enquanto que os paraibanos viam nos preços dos pacotes uma barreira intransponível pelo desnível entre o Cruzeiro diante do Dólar.

Por isso mesmo o programa só veio a receber apoio de políticos, auxiliares categorizados da administração estadual e de alguns poucos ricaços do Estado. Toda semana partia um avião da VASP até São Paulo, de onde os paraibanos seguiam numa aeronave da BOAC ou PANAM para o aeroporto de Nova Iorque. Complementavam de ônibus até Hartfort.

Fui cobrir para o jornal o primeiro embarque do grupo paraibano e confesso ter ficado com inveja daqueles felizardos que seguiam alegres para a cidade turística de Hartfort com um dia de bônus em Nova Iorque. As mulheres com os cabelos empinados de laquê e os homens, paletó e gravata, julgavam-se superiores ao subir as escadas do avião Samurai. No aeroporto de João Pessoa ainda não havia linhas regulares de aviões a jato, só turbo-hélices. Então os turistas seguiam de turbo hélice até Recife onde embarcavam num jato puro. A viagem até São Paulo, com escalas em Recife, Maceió, Salvador e Rio de Janeiro, levaria mais de doze horas, enquanto o trecho São Paulo-Nova Iorque seria coberto por pouco menos que isso, fazendo do roteiro um transtorno total de quase 24 h.

Da mesma forma, fui ver o desembarque do primeiro grupo, e confesso que fiquei assustado com o comportamento das pessoas que desembarcavam. Nenhum deles queria falar da viagem ou da permanência nos Estados Unidos. A cara de sono ou de aborrecimento da viagem tomava conta de todos os viajantes. Sabia que alguma coisa não estava certa naquele comportamento, mas ninguém ousou revelar qualquer anormalidade. Anos após um deputado, de quem fui Secretário Parlamentar na Câmara dos Deputados na década de oitenta, revelou-me a verdade daqueles vôos entre as cidades-irmãs. Logo que desembarcavam nos Estados Unidos e desciam as escadas, os passageiros eram desinfetados por meio de vapores e gases de inseticida como se fossem baratas, muriçocas, moscas ou escorpiões. Um banho de pó branco com cheiro de Detefon cobria a todos, deixando-os transtornadas. Um funcionário do aeroporto, com um depósito de inseticida às costas, fumigava os visitantes sem o menor constrangimento, contra a onda de protestos dos passageiros que desembarcavam pensando encontrar nos Estados Unidos um comitê de recepção em terra. O deputado disse que muitos anos após ainda sentia o cheiro daquele veneno utilizado para desinfetar os brasileiros das cidades-irmãs norte-americanas. No regresso outro constrangimento: Eram conduzidos ao aeroporto de Nova Iorque onde despachavam as malas e depois largados no centro da cidade onde perambulavam até a hora do embarque, às 22 h. Isso nunca foi revelado à época porque havia um pacto de silêncio entre os embarcados, para que outros viessem sofrer as mesmas agruras nas viagens seguintes e evitar a divulgação da imprensa para que não fossem expostos ao ridículo. O programa acabou quando não havia mais autoridades ou ricaços para conhecerem a Cidade-Irmã. Acreditem, somente agora, 45 anos após, através deste comentário, o constrangimento está sendo revelado. Do livro “Paraíba dos Grudes” (inédito), Copyright 2016 Gilvan de Brito, todos os direitos reservados)
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