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Fanatismo e ignorância: * Fabiana Agra é advogada e jornalista

4/11/2015 02:30

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Fanatismo e ignorância:

* Fabiana Agra é advogada e jornalista
Nos últimos dias, acompanhei no Facebook alguns comentários sobre a Maçonaria, frutos da leitura de um artigo publicado pelo grupo católico ACI. O texto trata do livro “Por que deixei de ser maçon”, de Serge Abad-Gallardo, publicado apenas na língua espanhola. O autor foi membro da maçonaria durante mais de 25 anos, chegando a ser mestre de 14º grau. Segundo o artigo, depois de uma peregrinação ao Santuário de Lourdes tudo mudou na vida de Abad-Gallardo, que logo o levou a escrever um livro que trata, dentre outros temas, de uma pretensa relação que existe entre o demônio e a organização.
Até aí tudo bem. Todos os dias, milhares de livros são publicados em todo o mundo sobre os mais diversos temas, e entre aqueles que recebem atenção imediata por parte da mídia e dos leitores estão justamente os que polemizam algum assunto ou que tratam de alguma “teoria da conspiração”. O problema, aqui, é que a maçonaria é uma entidade presente em grande parte das cidades brasileiras e cada um de nós tem dezenas de amigos que fazem parte dessa sociedade. Então, uma coisa é criticarmos os fundamentalistas muçulmanos, que (ainda) estão longe de nós e dos quais poucos sabemos afora alguns estudos e milhares de especulações – e que, por tal razão, também são vítimas de vários preconceitos. Outra coisa, porém, é especular e jogar sombras sobre uma instituição centenária que, por ser discreta, foi e ainda é vítima de vários ataques por aqueles que desconhecem a sua história ou que são fundamentalistas religiosos. Assim, esse artigo é apenas um esboço do que seja, de fato, a Maçonaria e teve suas informações recolhidas em diversos sítios da internet. É imprescindível que se jogue luzes sobre o tema, porque é preciso, através do conhecimento, evitar que mais especulações descabidas sejam espalhadas pelas redes sociais.

O que é a Maçonaria
Segundo a Wikipedia, “Maçonaria” é uma sociedade discreta e, devido a essa característica, entende-se que se trata de ação reservada e que interessa exclusivamente àqueles que dela participam. É de caráter universal, cujos membros cultivam o aclassismo, a humanidade, os princípios da liberdade, democracia, igualdade, fraternidade e aperfeiçoamento intelectual. Constitui-se, portanto, em uma sociedade fraternal, admitindo todo homem livre e de bons costumes, sem distinção de ideário político ou posição social. Suas principais exigências são que o candidato acredite em um princípio criador, tenha boa índole, respeite a família, possua um espírito filantrópico e o firme propósito de buscar a perfeição, evitando vícios e trabalhando para a constante evolução de suas virtudes. Os maçons estruturam-se e reúnem-se em células autônomas, designadas por “oficinas”, “ateliers” ou (como são mais conhecidas) lojas. Existem, no mundo, aproximadamente 6 milhões de integrantes espalhados pelos 5 continentes. No Brasil, são aproximadamente 150 mil maçons regulares.

Origem da Maçonaria
O sítio da PAEL-MG explica que os primórdios da Maçonaria são obscuros, bem como parte de sua história. Segundo a opinião quase unânime dos historiadores sérios que a estudaram, ela descende de antigas corporações de mestres-pedreiros construtores de igrejas e catedrais, corporações formadas na Idade Média. Desde a antiguidade, os construtores que detinham conhecimentos especiais, constituíam uma espécie de aristocracia, em meio das demais profissões. Formavam como que colégios sacerdotais. Na idade Média, os construtores de catedrais e palácios eram beneficiados, por parte das autoridades eclesiásticas e seculares com inúmeros privilégios tais como: franquias, isenções, tribunais especiais, etc. Daí a denominação francesa de “franc-maçon”, traduzida como pedreiro-livre. A arquitetura constituía então, a Arte Real, cujos segredos eram transmitidos somente àqueles que se mostrassem dignos de conhecê-los.
Os pensadores e alquimistas da época, combatidos pelos espíritos menos esclarecidos, perseguidos, buscavam refúgio entre os pedreiros livres, capazes de protegê-los pelos privilégios que tinham. Eram alguns aceitos. Daí a denominação de “Maçons Aceitos” em contraposição a “Maçons Antigos”, os construtores. Claro que nem todos podiam ser aceitos. Faziam sindicâncias e apenas alguns eram admitidos, porém depois de submetidos a uma série de provas que constituíam a iniciação. Os iniciados juravam guardar segredo dos ritos e respeitar as regras.
No séc. XVI aumentou consideravelmente o número de Maçons Aceitos, com predominância para os Rosa-Cruz da Inglaterra, entre eles, Elias Ashmole, alquimista, que ingressara com um grupo de amigos em 1646. A partir daí, por iniciativa dos novos membros, organizou-se uma sociedade, cujo objetivo era a construção do Templo de Salomão, templo ideal das ciências. Elias Ashmole obteve permissão para que a sociedade realizasse suas reuniões no Templo Maçônico. De pouco em pouco, os elementos precedentes da Fraternidade Rosa Cruz (Instituição secreta que presumidamente dedicava-se ao estudo do esoterismo, alquimia, teosofia e outras ciências ocultas) passaram a preponderar na Maçonaria, introduzindo nela muito de seus símbolos. Alteraram os rituais, sobretudo a parte referente à iniciação.

Maçonaria e os acontecimentos mundiais
A maçonaria teve influência decisiva em grandes acontecimentos mundiais, tais como a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos; assim, tem sido relevante, desde a Revolução Francesa, a participação da Maçonaria em levantes, sedições, revoluções e guerras separatistas em muitos países da Europa e da América. No Brasil, deixou suas marcas, especialmente na independência do Brasil do jugo da metrópole portuguesa e, entre outras, a inconfidência mineira e na denominada “Revolução Farroupilha”, no extremo sul do país, tendo legado os símbolos maçônicos na bandeira do Rio Grande do Sul. Vários outros estados brasileiros possuem símbolos maçônicos nas suas bandeiras, como Minas Gerais, por exemplo.

As Lojas Maçônicas no Brasil
Apesar da Maçonaria estar presente no Brasil desde a Inconfidência Mineira, no final do século XVIII, a primeira loja maçônica brasileira surgiu filiada ao Grande Oriente da França, sendo instalada em 1801 no contexto da Conjuração Baiana. A partir de 1809 foram fundadas várias lojas no Rio de Janeiro e Pernambuco, e em 1813 foi criado o primeiro “Grande Oriente Brasileiro”, sob a direção de Antonio Carlos Ribeiro de Andrada e Silva.
No Brasil, são reconhecidas as seguintes federações/confederações: “Grande Oriente do Brasil”, “Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil” e “Confederação Maçônica do Brasil – COMAB.

Maçonaria e religião
A Maçonaria universal, regular ou tradicional, é conduzida pela via sagrada, independentemente do seu credo religioso e trabalha sob a invocação do Grande Arquiteto do Universo, sobre o livro sagrado, o esquadro e o compasso. “Grande Arquiteto do Universo”, etimologicamente falando, se refere ao principal Planejador e Criador de tudo que existe, inclusive do mundo material (demiurgo), independente de uma crença ou religião específica. Assim, o termo “Grande Arquiteto do Universo” ou “G.A.D.U.” é a designação maçônica para um “Ente superior, planejador e criador de tudo o que existe”. Com esta abordagem, não se faz referência a uma ou outra religião ou crença, permitindo que muçulmanos, católicos, espíritas e denominações religiosas se reúnam numa mesma loja maçônica. Para um maçom de origem católica, por exemplo, G.A.D.U. remete-o a Deus, enquanto que para um muçulmano o termo se refere a Alá. Assim as reuniões em loja podem congregar irmãos de diversas crenças, sem invadir ou questionar seus conteúdos, porque não permite discussões de caráter religioso sectário.

E o que eu tenho a ver com isso?
O tema é demais abrangente para caber em um artigo, seria preciso um livro para tanto e as publicações que falam sobre a Maçonaria existem às dezenas – portanto, o que acima recolhi por enquanto é o necessário para ao menos tirar as dúvidas mais simples sobre o tema. Mas alguém pode estar pensando o que eu, enquanto mulher, tenho a ver com isso, já que é sabido que as mulheres não tem acesso a certos rituais maçônicos. Ora, enquanto pesquisadora e amante da História com “H” maiúsculo, eu não poderia deixar tal celeuma passar em branco em nossas terras. Ademais, sou amiga pessoal de vários maçons e conheço um pouco do trabalho social desenvolvido pelos mesmos, além de ter contato com os jovens da Ordem DeMolay de Picuí. Enquanto vejo, com tristeza, centenas de adolescentes sendo dizimados pela droga e pela violência dela decorrente, tenho ao menos a alegria de ver os DeMolay picuienses trilhando um caminho onde estão presentes a fraternidade e o companheirismo.
E como prefiro sempre as boas ações em detrimento aos mantras que pouco ajudam à humanidade, só posso repudiar esses comentários maldosos, fruto da ignorância e do fanatismo religioso. Ele, o fanatismo, é quem é o principal responsável pelas mazelas que ocorrem na atualidade. Então, quando digo que a leitura de um livro de História sempre faz bem, quando peço para que leiam um bom livro de História, eu não estou xingando ninguém, estou apenas pedindo que saiba mais para errar menos. Pensem nisso.
* Fabiana Agra é advogada e jornalista

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