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ESSA LÚCIA HELENA É DEMAIS: MARCOS SOUTO MAIOR (*)

2/04/2013 12:17

 

                                                            

marcos soutoO café da manhã já estava pronto, por volta das seis horas da matina, com minha filha caçula, Adélia, arrumando a mochila do colégio com livros, cadernos, lápis e canetas para pegar o transporte escolar.

Horas depois, levantei-me da cama, com a habitual preguiça, e desci pela escada da laje me encaminhando para a mesa da cozinha. Estava bem posta, na simplicidade do café da manhã, com bule de café, pacote de leite, açúcar, queijo de coalho e do reino, biscoitos, bolachas e, alternadamente, cuscuz ou tapioca. Ela me deu bom dia, diminuindo o som do seu rádio de pilhas, sintonizado no programa do padre Marcelo Rossi. “O senhor vai querer queijo assado ou do reino?” Perguntou Lúcia Helena.

Danado que a maioria das mulheres não gosta de falar em idade e, tendo respeito a elas, nunca perguntei a idade da minha “superintendente da casa”, que manda mais que minha mulher Fabíola. Em quase duas décadas de convivência, ela manda e desmancha na laje… Certo dia, perguntada por jornalista, aproveitando uma entrevistara em casa, de quem seria a pessoa que dava mais problemas para ela, não titubeou e disse: “dona Fabíola”.

No biênio 2001/2, tempo em que exerci a presidência do Tribunal de Justiça da Paraíba, fui alvo de várias ameaças de morte, daí ter direito a uma segurança velada por policiais militares. E ela se entusiasmou com a responsabilidade e presteza dos seguranças, sempre indagando ao Coronel PM Uchoa e seus Oficiais: Marcelino, Sobreira e Sidney, os detalhes do trabalho. Em algumas vezes, exagerou, ao sugerir novas alternâncias nas escalas de trabalho dos policiais… Até imaginei que perderia minha fiel escudeira, em mudança de profissão, se alistando nos quadros da Polícia Militar da Paraíba!

Cozinheira de forno e fogão, ela tem status de “chef de cuisine” colocando em mesa diária, variados pratos saborosos de peixes, minha opção gastronômica, intercalado com caprichados filés alto e no ponto.

A única coisa que brigamos foi quando inventei de mandar confeccionar fardas de trabalho. Ao invés da saia, exigiu bermuda e o terninho trocou por um jaleco cozinheiro, de gabardine, acinturado e com botões coberto com o tecido da peça. Briga feia, mesmo, foi quando comprei para Lúcia Helena, uma toca especial para adornar a cabeça, que tinha visto numa novela na TV. Para não perder de tudo, me conformei com alegação dela que teria alergia de pano na cabeça.

A viagem ao passado nos embala ao mundo do bem querer. Aqui termina, na PEC 66/2012, que se passou para Emenda Constitucional, e viger e alargando os direitos e prerrogativas dos empregados domésticos, um tanto tarde para o reconhecimento, a quem trabalha diariamente com dedicação e lealdade no nosso próprio lar. Coisas que eu já fazia!

Lúcia Ferreira dos Santos, natural da cidade de São Bento, alto sertão da Paraíba, idade em segredo, com nome artístico de Lúcia Helena (imitando uma personagem de comercial de banco, que fazia os gostos do patrão), muitíssimo obrigado por tudo que fez e fará à família Souto Maior. Você é a minha modesta e sincera homenagem símbolo, a todos beneficiados do direito trabalhista amplo em nosso país. Meu beijo!

(*) Advogado e desembargador aposentado