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EM TORNO DA MESA: Escrito por Marcos Souto Maior

16/05/2014 18:05

 

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EM TORNO DA MESA: Escrito por   MARCOS SOUTO MAIOR (*)

                                                                                                                            

                               Ao contrário dos que se alegram com a passagem festiva do dia dedicado às mães, acordei cedo e tristonho, sem vontade de nada… Li os jornais diários e as revistas semanais e, por fim, liguei a televisão para sintonizar os mais variados programas disponibilizados. Contudo, nada fez o 11 de maio de 2014 se tornar uma animada reunião familiar e de aderentes! Como de outras vezes, cada filho de dona Adélia se recolheu em suas próprias casas e os almoços foram comprados em restaurantes e entregues por velozes motoboys, driblando veículos pesados e acelerados.

Da laje onde moro, com minha mulher e filhas solteiras, descortinei a imensidão do mundo, com o azul emoldurado do céu dando a impressão de encontro com as águas salgadas da linda praia de Tambaú. Fitei o olhar, durante um bom tempo, até o que a vista enxergou, rebuscando na saudade temporal da vida, a visão da mãe querida. Ela não perdia as leituras detidas dos meus cadernos pautados, com dissertações e redações colegiais!  Sempre tinha uma ou outra que a professora Adélia folheava para revisar… “Ah, meu filho, você sempre fala sobre meus precipitados cabelos brancos, somente admitindo um toque sutil de shampoo azul em atenção a você!” Seria o que hoje se parece com ‘luzes invertidas’.

Nas minhas viagens ao Rio de Janeiro, nos anos setenta, pessoalmente e ainda solteiro, escolhia, nas mais elegantes lojas especializadas em senhoras idosas, os vestidos de finais de semanas para irmos almoçar em casas de pasto. E a conversa seguia, com a incontida alegria dos meus pais que, mesmo idosos, não conversavam sobre doenças e medicamentos.

Na condição de filho único, sempre procurei dar conforto especial à dona Adélia, alucinada pelas festas natalinas, quando sempre fiz questão de comprar um presentinho para cada um da família. Com salário ínfimo de professora de Desenho, Caligrafia e Educação Moral e Cívica, transferi os jetons que recebia do Conselho Regional de Desportos da Paraíba, para completar os gastos de fim de ano. Falar nisso, a ceia era posta e todos olhávamos para o céu na súplica pelo bem estar de todos…

Sem direito ao “Dia das Mães”, me reservei a ficar sozinho, tentando avistar a lembrança melancólica de uma vida passada, abrindo o computador para dedilhar o teclado mágico, na tentativa de trazer para o papel o sentimento puro de quem não esqueceu, nem esquecerá, as imagens do passado.

Perdoem-me, meus queridos leitores! A data das mães passou ligeira, me deixando incrédulo de transpor num branco impeditivo de qualquer gesto ou atitude de um filho que ama eternamente sua genitora se disfarçando no cinza que ainda não sou. Verdadeiramente, o que eu mais desejava na vida, me foi negado pela natureza. Foi novamente o anseio impossível de ter a presença da minha mãe Adélia, reaparecendo para poder compartilhar o almoçar familiar.

Valho-me do imortal Fohann Goeth, acudindo o que não consegui dizer: “As nossas paixões são verdadeiras fénixes. Quanto a mais antiga arde, renasce uma nova das cinzas da primeira.”

                                                                                                   (*) Advogado e desembargador aposentado