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Dezembro para todos: Marcos Souto Maior

7/12/2013 00:10

Marcos-Souto-Maior1Quando o mês de dezembro chega, é o sinal de que o ano vai acabar ligeirinho, com cada qual tendo a sua preferência na maneira de participar. A estudantada começa a fazer as contas das disciplinas no alcance da passagem para novo período das aulas. Os comerciantes expõem seus produtos em vitrines e nos órgãos de imprensa, anunciando descontos que às vezes nem acontecem. Os políticos abrem os olhos dando atenção especial aos eleitores visando colher votos nas próximas eleições. A justiça do país também fecha suas portas num recesso coletivo longo, com prazos congelados. Finalmente, a família desperta para as luzes e árvores de Natal, além da tradicional preocupação com as crianças pedindo seus presentes ao bom velhinho, de roupa vermelha e barbas brancas. Sim, lembrei-me também do “amigo secreto”, troca de presentes com valor mínimo, para evitar encrencas…

Dona Adélia, minha imorredoura mãe, na condição de professora, seria o símbolo da divisão de parte do seu pequeno salário para ir comprando, dia a dia, as lembrançinhas natalinas para os de casa. Eram presentes simples, contudo, agradando a todos, do mais jovem ao mais idoso, que era o meu pai, Hilton.

Honestamente, sempre me senti levemente deprimido com o mês natalino, quando vejo adultos e crianças pobres, sem direito de nada festejar, onde há até carência de água para beber, em pleno século XXI, contrastando com a modernidade desses tempos! E me deixo levar pelas ondas da indecisão, ficando espremido entre: a alegria das luzes e belas alegorias nas ruas e logradouros, com a tristeza fria do homem incompleto.

Ah! E o bom velhinho do saco cheio de brinquedos por onde anda? Olho ao redor e vejo mais de um velhinho! Todos de barbas branca e barrigudo, com calça e casaco vermelho com gola e punhos brancos, apertado por um largo cinto e botas pretas de couro, um cajado de metal na mão direita e um gorro vermelho com a ponta branca de um caprichado pompom! Já que ninguém fica para a eternidade, o primeiro Papai Noel ficou por conta do São Nicolau, nos idos do Século IV. Enquanto a festa natalina não chega, os pais vão se divertindo com as matrículas nos colégios e as listas de compras antecipadas de livros e materiais para o semestre seguinte, custeados com o pagamento do décimo terceiro salário.

Quiçá, sendo um dos poucos que não mergulharam nas ondas da fantasia do final de ano, acordei assustado, abri os janelões e me permito olhar para o sopro dos ventos movimentando as nuvens entrecortadas no céu azul, e termino por ousar voltar ao passado, como se houvesse dormido demais até perder a memória dos tempos! É claro que o tempo perdido não pode ser restabelecido, como desejaríamos, para alterar a nossa mentalidade e pudéssemos corrigir os erros da antiguidade.

Invado o mês de dezembro repetindo os mesmos sentimentos de outrora. Não tenho como mudar meus restritos arroubos de alegria, desejo e satisfação, eis que, gostaria muito, de sempre entender que Papai Noel existe! Não consigo aderir ao momento universal da maioria do povo quando vejo que o mundo roda mais depressa com fome, sede e o teto para agasalhar das intempéries, sejam presentinhos simples que muitos esperam, e não chegam a tempo!

(*) Advogado e desembargador aposentado