O uso de chapéus, capas, sombrinhas e guarda-chuvas eram compatíveis com um cabide de vergonha, que aguentasse vários desses ingredientes, muito usados nos anos cinquenta e setenta, principalmente no interior dos estados. A peça era de madeira de lei ou de metal, com acomodação na posição horizontal para escorrer a água acumulada até chegar ao chão e, sempre colocada numa dos quatro cantos da sala de entrada principal da casa. Com todo cuidado, as arrumadeiras, diariamente chegavam com vassoura de piaçava, espanador de pena, flanelas, pá, removedores, óleo de peroba, cera, sabão, sacos de lixo, etc. Era uma superprodução para manter um equipamento importante das famílias da época.

Eu mesmo, nos tempos do Colégio Pio X (marista), ainda lembro ter assumido o resistente sapato da marca Vulcabraz, com borracha no solado e couro em cima, que compunha um dos equipamentos de enfrentar a água que correm pelas nuvens invernosas. Hoje, no máximo, os cabides se prestam para pendurar roupas, nos modernos armários embutidos nas paredes dos quartos das casas residenciais, também chamado de closet.

De todas as espécies, o famigerado cabide de empregos é o mais popularmente utilizado pelos políticos, principalmente nestes tempos próximos das eleições gerais para Presidente da República, Governadores, Senadores e Deputados tornando-se um prato feito para saciar o desejo de ocupação de cargos públicos, com promessa de nomeação. O deixa comigo é a resposta enganadora da grande maioria dos caras de paus candidatos que iludem seus cabos eleitorais, até porque, são cargos incluídos na estrutura do poder público. Na verdade, em grande número, os nomeados nem residem nos locais do serviço e que não são prestados, com salários depositados em suas gordas contas bancárias por serem apadrinhados políticos.

Um velho amigo, em conversa reservada, me dissera que em tempos idos era possível nomear pessoas que formavam o que chamamos de cabides de empregosfinanciados pelos cofres federais, estaduais e municipais. Nos tempos recentes, a pressão popular obrigou e fiscalizou a abertura de concursos públicos estabelecidos nos respectivos orçamentos. Com o jeitinho bem brasileiro, passaram a utilizar cédulas novas de dinheiro para ser distribuídas aos fieis cabos eleitorais, sendo cortadas em duas metades, guardando uma parte para se e outra para o eleitor. Perdendo a eleição, simplesmente rasgava o pedaço da nota para não ter a tentação de pagar o que não quer… Também persistem hoje as emissões estabanadas de cheques sem fundos, chamados de vai e volta, em outra prática banal, na compra escancarada de votos sem o menor risco de punição!

Contudo, ainda não vão ser nestas eleições, que os empregos públicos ofertados pelas mãos sujas de candidatos acostumados com a corrupção, sejam banidos da realidade do costume de voto comprado abertamente, sob a luz do sol causticante. E do filósofo romano, Lucius Annaeus Seneca, vai à lição do momento: “Os vícios de outrora são os costumes de hoje”.

(*) Advogado e desembargador aposentado