Não se fala mais em doenças populares como antigamente, a exemplo de espinhela caída, barriga d’água, tosse de cachorro, frieira, doidiça, gastura, arroto choco, remela, impinge, caganeira, veia quebrada, panariço e, dentre outras, bexiga lixa e gota serena. Essas doenças eram comuns no Nordeste, principalmente nos sertões longínquos onde se tratavam com plantas medicinais, orações para Nossa Senhora e Padre Cícero – também chamado de Padim Padi Ciço, simpatias, amarrações e até feitiços!

Meu avô Yvo me contou, certa vez, que os antigos temiam, ao torto e ao direito, amanhecer se coçando numas folhas de bananeira, por conta da bexiga lixa, doença decorrente de um ‘peido encanado’ que entrou diretinho nariz a dentro, numa quermesse… Eis que uma velha gorda, com preguiça de ir à fila dos dois banheiros da festa junina celebrada, um para homens e outro para as mulheres do recinto, tapeou o povo para entrar ligeirinha no pátio da dança, rodando sozinha como um peão envolvido numa pesada roupa em cores estampadas, parecida com as baianas rodando nas escolas de samba do Rio de Janeiro.

Vovô meteu os pés e se dirigiu para perto da cagona desengonçada quando se ouviu: tárátátátárá parecendo com uma girândola de bombas chilenas ou, o barulho do descarregar de uma pistola automática moderna. O velho não engoliu o pensamento, e nem o distribuiu de graça, do gás fedorento incensado pelo salão. Ainda tentou dar uma esculhambação na gordinha desajeitada, mas essa sumiu. Terminou por ir para casa lavar várias vezes o rosto com água fria, prenunciando ter contraído doença transmissível grave. Para ele, a festa tinha acabado.

O patriarca familiar mandou seus doze filhos, fossem meninos ou meninas, se afastarem dele e, somente minha avó Yaiá, tinha a nobre e singela missão de chegar perto do enfermo e aturar seu gênio acelerado, em constantes reclamações pela coceira do corpo inteiro. Meu avô superou com medicina urbana o mau que lhe deixara com marcas em todo corpo, para proporcionar esta crônica a quem dedico post mortem!

Hoje em dia, a população ficou esquecida da velha bexiga lixa dos tempos idos, que passou a se denominar, moderna e tecnicamente, varíola, no bom Latim, chamada de Orthopoxvi Variolae, doença infectocontagiosa que deixou a população temerária por anos a fio, hoje rigorosamente controlada e erradicada em 1970 por agentes médicos. A incidência e mortes por varíola ultrapassou o medo de doenças como a peste negra, a tuberculose e a AIDS!

Agora, em recente cruzeiro marítimo no exterior, numa festa em alto estilo no mar, a música de uma boa banda tocou com arrojo e, eis que de repente, assustado me vi na frente de uma velha gordona, com saia rodada e não é que se aproximou de mim e soltou um vergonhoso peido norte-americano!

(*) Marcos Souto Maior – Advogado e desembargador aposentado