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BÊNÇÃOS DOS ALTOS: Escrito por Marcos Souto Maior

31/03/2015 00:40

 

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Escrito por Marcos Souto Maior

Na casa modesta de meus pais, com paredes de taipa real fazendo as vezes do concreto e das ferragens, abria-se um janelão que tomava-lhe toda a frente encaixando as quatro bandas das janelas acopladas, aonde a família olhava o passear do povo por uma das ruas centrais da cidade de João Pessoa. Já a porta única de entrada e saída, possuía duas estreitas partes de madeira de boa qualidade, abrindo-se uma para cada lado, sendo movimentada, rotineiramente, apenas a da direita de quem saia da residência. Somente quando o carregador, levando nos ombros os dois balaios da feira semanal, soltava, cansado, no chão da calçada, as compras, aí as duas bandas se abriam para deixar entrar o cheiro puro das frutas de época. Somente os forros do telhado da sala grande e do quarto do casal eram de madeira. Foi onde nasci, pelas mãos da conhecida parteira de nome Maria Leite, e dei o primeiro berro, logo acordando a minha irmã Lucinete que, do seu quarto, correu pela casa pensando que era um gato miando. Nesses tempos, não havia hospitais ou casas de saúde suficientes para as mulheres parirem no conforto, sendo os menos favorecidos assistidos pelas bênçãos de Deus e das parteiras!

Foi nesse simples e aconchegante ambiente, onde as dificuldades estavam em todos os recantos, principalmente para os pobres, que não podiam comprar automóveis e utensílios elétricos como geladeiras, rádios de válvulas, enceradeiras, e até alimentos enlatados tal ameixa, azeitona, pera, queijo do reino, gasosa, única bebida dos meninos, e, aos mais velhos, a antiga cerveja, o vinho e os espumantes, coisas que só aconteciam quando do Natal e do Ano Novo.

Nesta curta viagem literária, com todo respeito, já diziam, com registros na História de milhares de anos, que o homem, incansavelmente perseguiria, para o futuro próximo, entretanto, sem nunca conseguiu alcançar, a normalidade para a bonança de suas casas e as satisfações diárias, muito embora prioritárias da vida sofrida em repetidas vezes! Cediço que a humanidade é sôfrega, dependente e mostra chagas, nas mãos rajadas, de tanto puxar a terra para semear, em plena e desolada seca nordestina, perdendo as forças na agonia e no abandono que se parecem com o fim do mundo. Da fragilidade humana surgem os olhares tristes dirigidos ao alto, enquanto todos rezamos aos céus, fazendo uma súplica de muita fé, porque as mãos do homem, por vezes, nem chegam a alcançar o tempo bom de plantar, seguido da adubação e, finalmente, da colheita do pão nosso de cada dia, numa estiada safra. Estamos, sim, no tempo do dia dedicado a São José, sinalizador determinado das boas chuvas nordestinas que vêm a ser o alegre inverno de póstera fartura.

Mesmo hoje, com maquinários modernos e estruturas caríssimas, desde as pequenas cisternas, açudes e barragens, sem falar nos altos dispêndios e desvios de verbas públicas na ousada transposição do São Francisco, nada vale. Pelo sinal dos tempos, que aprendemos com os pedidos do campo estarrecido e abandonado, ainda povoado por crianças famintas chorando, mulheres que, sequer, tem água para colocar no fogão, e homens, olhando para os céus à procura das bênçãos dos altos, vagarosamente balançando a cabeça, em sinal obstinado de confidência aos céus com muito amor.

(*) Advogado e desembargador aposentado

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