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Anco Márcio: tempos de ouro do rádio pessoense

O jornalista Anco Márcio de Miranda, 68 anos, morreu na sexta-feira (21-06-2013), em sua residência, no bairro dos Bancários, em João Pessoa.

20/07/2013 00:28

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Do bloco de notas de um velho locutor nostempos de ouro do rádio pessoense

Em 15/09/2009 às 22:15

Do bloco de notas de um velho locutor nos tempos de ouro do rádio pessoense

Do bloco de notas de um velho locutor nos tempos de ouro do rádio pessoense

Pesquisa e texto-Anco Márcio

Quando eu tinha 17 anos,havia acabado de entrar na Arapuan AM, a radio mais ouvida da cidade na época,o triunvirato,Assis Tito,Luiz Andrade e Erialdo Pereira.Eu fazia teatro e tinha uma boa voz.Numa noite de sexta feira,no Bar do Grego,um deles me perguntou se eu queria fazer teste para locutor.Imediatamente respondi que sim.

O teste foi marcado e uns três dias depois estava eu na cabine de gravação da emissora da Almirante Barroso,diante de um velho gravador Akai de fita rolo,operado por Giovanni,o galego,hoje falecido.Me deram pra ler um texto comercial de A Exposição, uma notícia sobre a guerra do Vietnã,suponho,e umas músicas para anunciar.Gravei e fui embora.

Dois dias depois recebi a notícia que havia sido aprovado e passei a fazer Parada dos Campeões de uma às duas,Clube dos Amigos da Noite e o famoso João Pessoa Zero hora, de cuja apresentação Otinaldo cansara.Como não havia piso para locutor, eu ganhava um salário mínimo.

Arapuan Am

Eram meus colegas de locução na época,Ari Silva, Cardivando de Oliveira,Nauda de Abreu,Sílvio Carlos que apreentava o Plantão Arapuan de hora em hora,Metuzael Dias,e Enoque Pelágio,que às oito da noite fazia com Cardivando,Dramas e Comédias da Cidade(“os dramas de um povo que chora, as comédias de um povo que ri”),como dizia na abertura.Cheguei a apresentar o “Dramas” na ausência dos titulares,ao lado de Peres,dublê de locutor e guarda de trânsito

De operador,lembro Iêdo,Robson,Valdeci,Maurício e Manuel.A seleção musical era cuidadosamente preparada e datilografada em folhas de mais ou menos quarenta centímetos,com o nome da música,do interprete e do compositor,nomes esses que tinham obrigatoriamente de ser lidos sob pena de multa.

Programas jornalísticos haviam Jornal Sensacional,Antena Política e o polêmico amesa de Redação.Os repórteres de rua Coelinho e Dorgival Barbosa, trabalhavam com gravadores antigos e pesados,que possuiam um microfone e usavam fitas cassetes para entrevistas.Ao chegar na rádio, esse material era transferido para as fitas rolo.

Tentando inovar

Depois, tentaram inovar e trouxeram Iara Rosas, que comigo apresentava um programa chamado Um Homem,Uma mulher, aproveitando o título do filme.Interessante frisar,que na época,Iara não devia ter mais de quinze anos,e a gemte conversava um monte de abobrinha no ar,pois o programa não tinha um script.

Posteriormente Pedro Santos foi ser Diretor Artístico da emissora.As lembranças chegam aos poucos.O Futucando de Djaci Andrade,apresentado aos domingos,era a sensação do momento.Nele eram aproveitados trechos de música à guisa de respostas dos políticos.Era a grande atração das manhãs do domingo.

Um pouco antes,G.O Belli e Francisco Ramalho apresentaram na Tabajara,o Juri Musical Popular que aprovava as boas músicas e condenava as ruis.Essa condenação era representada pela quebra do disco no ar.Pelo menos para o ouvinte, era isso,mas na verdade o que era quabrado, eram os discos estragados da rádio.

A prisão de Petrônio

Já com a rádio Arapuan na Trincheiras,apareceu o programa de Petrônio Souto,logo cedo da manhã,que foi outro fenôneno de audiência.Esse já tinha os nefastos telefonemas no ar,já tratava de política abertamente e por causa disso mesmo,Petrônio foi preso pela Polícia Federal dentro da emissora e passou detido quase o dia inteiro.Depois para agradar o governador Burity,Petrônio Souto foi demitido da emissora.Os políticos começavam a mandar no rádio.A prisão de deu por causa da opinião de um ouvinte que não teve como ser cortada.E,salvo engano,esse ouvinte era Araújo do Valentina,que ainda hoje perturba.

Vale salientar nos anos setenta,72,salvo engano,a inauguração da Rádio Correio da Paraíba,no Ponto de Cem Réis,para onde fui convidado e apresentei A Hora da Pilantragem.As estrelas da época eram Marcus Machado,Ivam Tomáz,Alex Santos,Bolinha, Iêdo Ferreira, Sérgio de Andrade,Marcônio Edison,Marconi Altamirando,Marco Aurélio,Antonio Assunção e mais outros.Na direção de Jornalismo,o Mago Biu Ramos e na Artística,Pedro Santos.

Passaram ainda pela Correio AM,Carlos Abrantes,Gilvam de Brito e Alarico Correia.Isso sem falar que Coquinho começou lá aos quinze anos de idade e lá se aposentou e morreu.Hoje a Correio AM está alugada à Igreja.Nesse tempo não sa mandava buscar esses geninhos nas brenhas,recebendo altos salários e aquinhoados por cargos no serviço público.

Os travestis muito machos

Um fato interessante ocorreu nas dependências da Correio dessa época.Estava havendo seca no sertão e a emissora arrecadava roupas que seriam enviadas aos flagelados.Nós descobrimos e nos vestimos com roupas femininas.No melhor da brincadeira a porta se abre e quem chega?Zacarias Sitõnio e Madruguinha diretores da rádio e “Corega”,um assessor,por mim batizado assim,devido à sua reluzente chapa.O velho Zacarias olhou para Luiz Andrade e falou:

-Dessa meninada eu podia até admitir,mas o senhor,Seu Luiz Andrade,um homem de quase quarenta anos,vestido assim….

O bom Luiz só fazia concordar,escondido num canto com sua roupa de camponesa.Mas o fato num deu em nada e depois desceu todo mundo pra Zona,tomar cerveja e comer as raparigas…Por essa época andaram por lá,Waldemar Paulo,um analfabeto que conhecia música,Carlos Aranha,que também foi locutor,”Prezado”,que foi o Conselheiro Z e Pedro Roque,o porteiro,um negro que nos recebia com um sorriso de orelha a orelha.

Diário ìntimo

Na Correio AM do Ponto de Cem Réis,tinha às dez da noite,o Diário Íntimo da Cidade,apresentado por mim,Martinho Moreira,Ipojuca Pontes,Sonia Iost e Biu Ramos,que nesse mesmo programa, soltou a pérola:”o homem acaba de aterrisar na lua…” mais tarde atribuida a outros,mas que foi dita por Biu mesmo.Eu tava junto dele…Vale salientar que a gente começava a esquentar nos bares ali do centro,a partir das oito.E nesse dia que o homem “aterrisou na lua” todos nós, menos Sonia e Ipojuca (que ja era metido à merda),tomamos banho com roupa e tudo no tanque de construção do finado Viaduto Damásio Franca.

É isso que tenho pra contar.Seria demais exigir de um cidadão de sessenta e cinco anos,alcoólatra sem beber há mais de trinta,que viessem mais recordações.No mês passado me aposentei pelo INSS por idade.Mas eram necessários também,no mínimo,14 anos de contrinuição.Só de rádio eu tinha quase trinta.Foi tudo que lucrei nesse rádio de minha cidade.Em dinheiro,pois em aprendizado e bons momentos,não tem preço…Aí,Luiz Otávio entrou na história e nunca mais o rádio pessoense se aprumou…(Anco Márcio)

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