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O Amanhecer no Trabalho: Marcos Souto Maior (*)

1/11/2013 02:02

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O AMANHECER NO TRABALHO

   MARCOS SOUTO MAIOR (*)

Sob as poucas luzes dos postes, ainda sem o sol aparecer, o carrinho de mão saía do oitão da casa, com cobertura de pedaços de zinco e isopor, puxado por Sinfrônio e seu filho menor, Zezinho, encarregado de não deixar nenhum produto cair até chegar à feira livre da cidade. Na insistência de dona Maria para os dois comerem alguma coisa antes de sair, o velho logo cortou: Deixa prá lá muié, o tempo é ligeiro demais para a gente tomar um cafezinho quente com pão. Quando chegar ao comércio aí pago dois caldo de cana e pão doce, prá entreter a barriga… Disse o feirante em passos ligeiros e, com a barriga vazia gemendo!

O ambiente sempre alegre e estridente, com os feirantes desatando os nós dos pacotes, balaios e cestas de cipó, na arrumação apressada das coisas em mesas ou no chão mesmo, a depender do produto. Alguns fregueses como meu pai, chegavam cedinho para poder escolher a melhor carne verde, linguiça de porto, frutos do mar, frangos e perus prontos para consumo, feijão, farinha, frutas, legumes, queijo de coalho e de manteiga, doces, goma para fazer tapioca e, tudo mais que inimaginável, até sapatos e roupas…

Os implacáveis fiscais da Prefeitura são outro grupo de pessoas a chegar ainda dentro da noite, sempre com o talão e caneta na mão, momento desagradável aos que pouco ganham para sobreviver.

As cidades pequenas são restritas a uma única feira livre, geralmente construída pela Prefeitura local com gordas verbas federais e estaduais, enquanto as maiores são espalhadas por todos os recantos. Quando as cidades são próximas demais, são divididas em dias diversos para evitar a concorrência danosa. Há até vendedores ambulantes que se dividem com familiares para estarem presentes em até três ou mais mercados públicos da região.

Nunca vi um modesto comerciante se preocupar com os poderosos shoppings e supermercados… até porque não se compara o aconchego dos feirantes, em uma postura cativante, sempre disponibilizando o experimentar do que vai comprar, seja chupando uma laranja, degustando pedacinho de queijo, e mascando um fiapinho de charque crua ou bacalhau. Quando se faz freguesia semanal, algumas pessoas deixam a nota das mercadorias para vir pegar e pagar, no final do expediente num compromisso que perdura anos a fio.

Sinceramente, os grandes conglomerados de comércio não fazem graça com ninguém, quando muito, um cartão de crédito eletrônico que insistem no gastar muito acima dos seus salários. O mercado livre vem de séculos a sua história para manter o estilo simples e honesto de compra e venda de produtos de todos os tipos. Os mais antigos alguns com linda arquitetura são agraciados com as reservas do Patrimônio Histórico e Cultural, e enfrentaram incêndios, enchentes e até ameaça de demolição tornando-se uma pérola rara mantida a todo custo, inclusive com destinação anual do poder público.

Meu herói de hoje, Seu Sinfrônio, anônimo de mãos grossas calejadas lutando pela sobrevivência familiar diz: “seu dotor, sou feliz, mesmo sem puder fazer mais…” E o pesado carrinho de mão continua empurrado madrugada a fora cortando o sono merecido dos justos!

(*) Advogado e desembargador aposentado