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A volta depois de uma carta que viralizou: Escrito por Fabiana Agra*

5/03/2015 05:50


10685375_767841096622471_3284935081578748182_npor Fabiana Agra*

A volta depois de uma carta que viralizou

Já se vão alguns meses de um manifesto que escrevi, logo após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, intitulado “Carta de uma nortista para os sulistas”. Assim que foi publicado, o artigo foi espalhado em vários grupos de Facebook e repercutiu em diversos blogs; o resultado é que o texto viralizou e eu ganhei mais de 4000 amigos virtuais. Após o resultado do segundo turno, e pensando que o Brasil seguiria como sempre, tendo os vitoriosos e derrotados ocupando os seus devidos lugares e respeitando o resultado soberano das urnas, eu também recolhi a minha bandeira, deixei a militância política de lado e voltei-me apenas para a advocacia.

Mas eu estava enganada, logo percebi. A turma dos revoltados, dos vira-latas e dos coxinhas desse “Brasil varonil”, insuflados e bancados por empresários e políticos de direita, não só não aceitaram a derrota nas urnas como ainda exigem o impeachment da presidenta Dilma – baseados em que, isso eu ainda não sei, e duvido que algum cientista político saiba. Coisa própria dos tontos e parvos, que tem espaço garantido nas redes sociais.

Março furta-cor ou “cor-de-burro-quando-foge”

Assim, por dever de consciência e na qualidade de cidadã, estou de volta. Dessa vez tendo o cuidado de sistematizar o que escrevo, através de um blog próprio. E, tão logo resolvi voltar a escrever, vi algo estranho acontecer, quando, na terça(03), Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, anunciou que a Mesa Diretora revogara a autorização de compra de passagens aéreas para cônjuges de deputados. Desconfiei logo de dois motivos para a revogação: ou o mandato do Cunha nasceu podre, já que a tal “bolsa-patroa” era uma de suas promessas de campanha, ou ele teme a lista de Janot – isso porque não entra na minha cabeça a frase “cunhista”: “- A sociedade demonstrou a sua contrariedade”.

E isso foi só porque dei uma passada rápida pelo Congresso Nacional… Aí quando resolvi fazer um zapping pelas notícias do cotidiano, tive o desprazer de assistir um vídeo postado pela página da Igreja Universal do Reino de Deus do Ceará, protagonizado por um exército de jovens fiéis, todos fardados, marchando e gritando palavras de ordem em um culto. Confesso que fiquei deveras preocupada, já que as imagens demonstram o aumento do fundamentalismo cristão no Brasil, que chega as liberdades individuais, a diversidade sexual e as manifestações culturais laicas. Explico: Edir Macedo está formando uma milícia, batizada como “Gladiadores do Altar”, e o que virá desse movimento só o tempo irá dizer…

E para não dizer que não falei da “Operação Lava Jato”, o presidente do grupo “Tortura Nunca Mais” em Goiás, o ex-preso político Waldomiro Baptista denunciou o juiz Sérgio Moro pela prática de tortura.Mirinho em entrevista veiculada em vários portais da Blogosfera, disse que ficou revoltado com os maus-tratos a que estão submetidos os empreiteiros encarcerados pela Polícia Federal, em Curitiba-PR: “Eles estão em celas escuras, comem carne com as mãos, dividem-se em celas para quatro pessoas, com uma latrina comum, e até recentemente estavam impedidos de ler jornais e revistas”.

Há três meses os maiores empreiteiros do país, responsáveis direitos por mais de 200 mil empregos, estão encarcerados indevidamente. Para Mirinho,“não há legalidade na prisão. Os acusados não têm direito ao contraditório, e assim como na ditadura, os delatores tem mais fé pública que os acusados. Assim, o que vemos é que da forma que conduz as apurações o juiz Sérgio Moro tortura os presos com a prisão, dá como verdadeira as declarações de ladrões confessos e quer vencer pelo esgotamento emocional os encarcerados, forçando-os a delatar também. Isto, repito, é tortura”, alerta.Para Waldomiro Baptista as investigações são importantes, entretanto, ressalta que lei é lei e ninguém está acima da lei ou da Constituição. “Recentemente o ministro Marco Aurélio, do STF, numa crítica à Lava Jato, disse que a prisão passou a ser regra e a liberdade, exceção entre os acusados”.

Finalmente, leio que a tal “lista de Janot” – já tão mais famosa do que a de Chindler -, foi protocolada pela Procuradoria-Geral da República na noite da última terça-feira (3), no Supremo Tribunal Federal, junto aos pedidos de abertura de inquérito a fim de investigar pessoas suspeitas de envolvimento no caso de corrupção da Petrobras. As tais pessoas, deputados federais, senadores e outras mais, foram citadas pelo doleiro Alberto Youssef e por Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, nos depoimentos de delação premiada da Operação Lava Jato.Constam, no total, 54 nomes de investigados, 28 pedidos de abertura de inquérito e 7 pedidos de arquivamento.

Detalhe: os nomes dos envolvidos não foram divulgados. No entanto, segundo matéria do site O Globo, os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB, teriam sido avisados de que estarão na lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.Espera-se queJanotsolicite ao ministro Teori Zavascki que seja derrubado o sigilo das investigações, tornando público todo o conteúdo dos inquéritos. Zavascki também divulgaria os nomes dos investigados de uma vez só e não um a um, conforme for se inteirando de cada acusação.

13 e 15 – qual a sua bandeira?

Enfim, 15 de março está chegando, com todas as honras e circunstâncias que a extrema direita exige – ou não! Ora, a última dos tucanos é dizer que “apoiam o ato pró-impeachment, mas são contra o impeachment”. Como é que é? Entre atônita e enojada, explico: os tucanos torcem, desejam e patrocinam o protesto golpista, mas dizem que não tem nada a ver com isso. Ah, tá. Assim tá certo…Mas ninguém se engane com a data do protesto, que foi marcada para o dia 15, uma semana após a lista dos políticos envolvidos no escândalo da Lava Jato seja tornada pública, assim espera-se.

Os“revoltontos do dia 15” – utilizando o termo cunhado pelo cientista político AntonioLassance – pedirão o impeachment de Dilma, que até o momento, sequer foi citada em qualquer documento da Lava Jato. Será que vão pedir também o impeachment do senador Aécio Neves, cuja campanha recebeu doações das mesmas empreiteiras envolvidas no escândalo? Será que os papangus de novena vão pedir o impeachment de Agripino Maia, acusado de receber um milhão em propina? Tem mais: será que eles vão chamar à responsabilidade o governo de São Paulo pelo racionamento da água? E o trensalão tucano, será lembrado?

Mas AntonioLassance explica, com propriedade, talvez aquele que seja o motivo maior para a manifestação dos palhaços do impeachment: “quem promove a campanha pelo impeachment está dando sua contribuição voluntária ou patrocinada para tirar o foco dos corruptos que de fato têm nome no cartório da Lava Jato – o que não é o caso da presidenta.Seria melhor, antes de falarem em impeachment de uma presidenta eleita pelo voto de 54,5 milhões, que os revoltontos do dia 15 esperassem a lista de Janot e a usassem para escrever seus cartazes”.

Mas o movimento do dia 15 terá uma contramanifestação, que acontecerá dois dias antes, no dia 13 de março, e está sendo encabeçada pela CUT. Em seu site, a Central Única dos Trabalhadores conclama as trabalhadoras e os trabalhadores, militantes e dirigentes de todo o País para realizar um ato nacional contra a “retirada de direitos, em defesa dos direitos da classe trabalhadora, da Petrobrás e da Reforma Política”.

O fim das Medidas Provisórias 664 e 665, que alteram direitos da classe trabalhadora, é uma das questões centrais. Os movimentos do Brasil estão em alerta desde que foram editadas pelo governo federal, em 30 de dezembro de 2014.Outra das bandeiras é a defesa da Petrobrás, empresa que corresponde a 13% do PIB nacional. A empresa reúne mais de 86 mil trabalhadores diretos e milhares de indiretos, sem contar que a Petrobrás investe, por dia, 300 milhões na economia brasileira e sabemos que o Petróleo por muitos anos ainda será a matriz energética do mundo. Prometem defende-la com unhas e dentes.

A terceira bandeira é pelo plebiscito sobre a constituinte exclusiva e soberana para reforma do sistema político. Existe uma manobra no Congresso para que se aprove a reforma política pela Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 352/2013, considerada pelos movimentos como a “PEC da Corrupção” porque defende temas polêmicos, como o financiamento privado de campanha eleitoral.A proposta que dialoga com a classe trabalhadora é a da Constituinte pela Reforma do Sistema Político. A consulta popular está prevista no Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 1508/14, da deputada Luiza Erundina (PSB-SP).

Em contrapartida, Folha e Veja, passam a publicar que, para os alguns governistas, dentre eles figurando até ministros, o ato da CUT poderá acirrar os ânimos e ser visto como provocação pelos organizadores da manifestação contra a presidente Dilma de dois dias depois. Para evitar o “confronto”, a ideia de assessores presidenciais é enviar emissários nos próximos dias para convencer dirigentes da CUT a adiar o evento. Porém, como são os veículos da mídia golpista que estão noticiando essa tentativa de abortar o movimento do dia 13, é preciso esperar – ou para muitos, pagar para ver.

P.S.: Nem bem terminei de assinar o texto, eis que chega a informação de que vazaram alguns nomes na lista de Janot – dentre eles confirmados os de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados e Renan Calheiros, presidente do Senado. Com esse vazamento da informação, o movimento pelo impeachment da presidenta, se já era descabido e incabível, pelo jeito torna-se inviável sequer fazer barulho. Aposto quase todas as minhas fichas de que o 15 de março “gorou”…

www.reporteriedoferreira.com    Por* Fabiana Agra é advogada e jornalista.