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A Guerra dos Bárbaros – Parte II Escrito Por Fabiana Agra

10/06/2015 03:16

Fabiana AgraA Guerra dos Bárbaros – Parte II Escrito Por Fabiana Agra- Jornalista e advogada
PARTE II

O genocídio dos tarairiús
O ápice do conflito se deu na região do Açu, no Rio Grande do Norte e o palco da última batalha da guerra foi o Acauã, mais precisamente na Serra da Rajada. Noticiando os acontecimentos bélicos na ribeira do Carnaúba, um bando de 1689 detalhava a guerra violenta[1]. Na Casa-Forte do Cuó ficaram abrigados sucessivos terços militares enviados pela Coroa para o combate aos índios revoltados, como as do Coronel Antonio de Albuquerque da Câmara a partir de 1687 (co-proprietário da data de sesmaria da Ribeira do Acauã) e posteriormente do Mestre-de-campo do Terço dos Paulistas, Domingos Jorge Velho. Também as tropas do Coronel Jerônimo Cavalcanti de Albuquerque e do Capitão-mor Afonso de Albuquerque Maranhão estiveram alojadas na mesma casa-forte. Não é coincidência, portanto, que dentre os comandantes de terços enviados para combater os tapuias revoltados contra a penetração luso-brasílica estivessem, justamente, co-proprietários da sesmaria da ribeira do Acauã. Nessa ribeira foram registrados dois grandes massacres cometidos contra os nativos no decurso dessas guerras. O primeiro, ocorrido na serra da Rajada, que se localiza entre os municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas, Jardim do Seridó e Parelhas, no período de 26 a 30 de outubro de 1689. O resultado foi a morte de mil e quinhentos indígenas e prisão de trezentos, além da morte de trinta homens das tropas de Domingos Jorge Velho. Os sobreviventes do combate dispersaram-se, indo parar no lugar chamado por eles de Queicar xuc, que significa Saco do Xiquexique. O outro combate ocorreu na serra da Acauã, situada entre os municípios de Acari e Currais Novos, em 04 de outubro de 1690, no qual foram presos mais de mil índios, havendo mortos em grande quantidade[2].HPS - Guerra dos Bárbaros

 
Diante de todas as estratégias de luta contra os inimigos portugueses, os janduís foram derrotados na ribeira do Seridó, pela bandeira chefiada por Domingos Jorge Velho e finalmente tiveram o seu principal, denominado de Canindé, capturado e preso. O historiador Ricardo Pinto Negreiros lembra que a guerra contra os janduí durou até dez de abril de 1692, quando foram feitas as pazes entre o governador geral do Brasil Antônio Luiz Gonçalves da Câmara Coutinho e os tarairiús, que haviam ido dos campos do Açu a Salvador pedir pazes. A relação de índios mortos e aprisionados é desconcertante e torna mais sombria a figura do bandeirante paulista. No entanto, esse seguia, com método, as frias recomendações etnocidas como aquela expedida pelo Governador Geral, em 1688, ao capitão Manoel Abreu Soares, combatente na guerra contra os tapuias na ribeira do Açu.
Os números de indígenas mortos em combate expressam o despovoamento dos sertões, não o contrário; as guerras brasílicas assustavam os nobres de armas e brasões assinalados, pela crueza que não dava trégua aos prisioneiros e feridos nos campos de batalha. Empreendida com sucesso, a guerra de razia desocupou quase totalmente o Seridó da presença indígena ao custo do etnocídio, sem, no entanto, esvazia-lo completamente. Muitos se refugiaram em grotões sertanejos, em serras e outros logradouros de difícil acesso, mas, mesmo assim, um incerto número deles foi posteriormente aprisionado e aculturado[3]. Somente quando o sertão semiárido potencializou-se em deserto humano, em fins do século XVII e início do XVIII, é que chegaram com mais perenidade os homens brancos que se fixaram na Ribeira do Seridó, requerendo terras para a criação de gado.

O “desaparecimento” dos índios no Nordeste
Em 1757, o então Ministro português Marquês de Pombal promulgou um Diretório que passou a regular os índios no Brasil. A legislação pombalina estava baseada no discurso da “liberdade dos índios”, determinando dentre outras medidas que os aldeamentos seriam elevados a categoria de Vilas, com a instalação de Câmaras de Vereadores, a nomeação de um diretor leigo responsável pelos indígenas, favorecendo ainda “para civilizar os índios” a moradia de não-índios em terras dos aldeamentos, incentivando os casamentos mistos, obrigando os indígenas ao trabalho agrícola e ao comércio. Com o Diretório de Pombal, proibiu-se aos indígenas seus próprios nomes, determinando usarem nomes e sobrenomes de famílias de Portugal, para se evitar que “na mesma povoação existissem muitas pessoas com o mesmo nome”. Tornou-se obrigatório o uso unicamente da língua portuguesa, entre outras medidas. A execução dessas diretrizes favoreceu os arrendatários ilegais, latifundiários, os “homens de bens”, vereadores que formavam as oligarquias políticas locais se apossaram dos territórios indígenas. Por tal razão, nas áreas mais antigas da colonização os indígenas foram dispersados, suas terras paulatinamente ocupadas, transformadas muitas delas em fazendas que originaram as cidades interioranas do Brasil. A legislação pombalina foi abolida por Carta Régia de1798, em função dos inúmeros abusos contra “a liberdade” e os bens indígenas. No século XIX, as Câmaras Municipais insistentemente solicitaram aos poderes públicos as terras dos antigos aldeamentos para patrimônio dos municípios, alegando a necessidade de expansão destes. Os vereadores legislavam em causa própria, uma vez que sendo a maioria deles invasores nas terras indígenas, com a medição e demarcação das terras dos aldeamentos, tiveram suas posses legitimadas. A partir de 1870 ,vários aldeamentos foram declarados oficialmente extintos no Nordeste, favorecendo os tradicionais esbulhos, legitimando-se os antigos invasores das terras indígenas.
Helder Macedo, no texto “Em busca dos desaparecidos: remanescentes indígenas no sertão do seridó (séculos XVIII e XIX), diz que: “desaparecidos ou não das terras sertanejas, pouco se fala sobre os índios; no máximo, ao conversarmos com nossos avós ou com idosos, escutamos histórias de índios bravios repetirem-se nesses enunciados orais”. São histórias que remetem a caboclas-brabas e caboclos-brabos, que eram pegos “a dente de cachorro e casco de cavalo”. Segundo Macedo, “cabocla” era o nome dado às índias que conseguiram se safar das Guerras dos Bárbaros, ficando escondidas nos altos das serras ou nas proximidades; para ele, “sobreviventes desses conflitos, demonstravam-se esquivas e contrárias ao desejo dos homens brancos de tornarem-nas esposas – ou simples matrizes procriadoras – ou apenas amansá-las, docilizando o seu estado selvagem”. Assim, através de anos de miscigenação, surgiu a figura do caboclo, que, todavia, permaneceu índio, questionando as visões preconceituosas, as teorias explicativas do desaparecimento indígena. Dessa forma, vários povos indígenas no Nordeste, invisíveis desde fins do século XIX, teceram uma história de resistência étnica afirmada nas primeiras décadas do século XX, em razão das pressões que recebiam com o avanço do latifúndio sobre as suas pequenas propriedades, sítios e glebas de terras onde permaneceram resistindo, mobilizaram-se para exigirem seus direitos históricos negados.
A presença de índias na formação das primeiras gerações das famílias do Seridó é sentida por Medeiros, que, referendada em autores regionais como Luís da Câmara Cascudo, Oswaldo Lamartine de Faria, Tarcísio Medeiros, Olavo de Medeiros Filho e José Augusto Bezerra de Medeiros afirma: “Uma das contribuições dadas pelos tapuias janduis (da nação Tarairius) para a formação do Seridó, foi a presença de suas ‘matrizes’, isto é, a utilização de suas mulheres por parte dos combatentes ‘brancos’ (nem sempre muito brancos), por ocasião do Levante do Gentio Tapuia e mesmo posteriormente à dita campanha. Nos muitos anos que ficou longe de ‘mulheres civilizadas’, a soldadesca aventureira usou e abusou da indiada aprisionada. Dessa amálgama surgiu o sertanejo típico. Muitos daqueles portugueses, recém-chegados da Europa, casaram-se no Seridó com mamelucas, filhas de brancos com mulheres tapuias. A cabeça fortemente braquecéfala, tão bem retratada pelos pintores de Nassau, ainda perdura nos sertões nordestinos.”
Expurgo, extermínio, desaparecimento, extinção: tudo leva a crer que os tarairiús realmente desapareceram do mapa do Seridó. As informações provenientes de documentação de época, como as do Cartório de Pombal, nos falam de combates com a participação do bandeirante Domingos Jorge Velho na serra da Rajada (próximo a Carnaúba dos Dantas) em 1689, donde saíram mortos mil e quinhentos índios e na serra da Acauã (próximo a Currais Novos) em 1690, de onde saíram mais de mil prisioneiros. Cifras que chocam pelos altos números, mas que nos expõem o quão brutal foi a penetração do mundo ocidental na América indígena.
O desaparecimento dos índios é uma fala constante nos escritos da historiografia clássica. Esse desaparecimento, no entanto, foi posto em xeque por Porto Alegre em Rompendo o Silêncio: por uma revisão do “desaparecimento” dos Povos Indígenas, onde problematiza esse desaparecimento afirmando que o mesmo surge para explicar a desorganização das sociedades tribais e justificar a expropriação de suas terras. Para o autor, os documentos civis da Colônia e do Império, quanto mais próximos da República, “tendem a negar a existência de índios – para que os não-índios possam apropriar-se de suas terras -, sentimento que (in)conscientemente era, também, apropriado por estes últimos”.
[1] (…) os combates ….. o gentio dos tapuios janduís ….. naquela serra rajada onde abelhas deste tipo predominam e fazem mel ….. na qual chegou ele dito Domingos Georges Velho aos vinte seis e até 30 aí permaneceu combatendo aqueles bárbaros do mês de outubro [de] 1689 …. do grande Combate do dia vinte e oito do mês de outubro de dito mês as tropas de Domingos Georges Velho teve de vitória mil e quinhentos tapuios mortos e trezentos presos tendo morrido das tropas 30 homens além d’outros (…)

[2] MEDEIROS FILHO, Olavo de. Notas para a História do Rio Grande do Norte, p. 114.

[3] Há relatos familiares até hoje na região do Seridó, de ancestrais indígenas que foram “pegos a dente de cachorro e casco de cavalo”, eram os caboclos e caboclas brabas que se confundiram com as linhagens seridoenses ou lhes serviram como mão-de-obra. A persistência deste tipo de narrativa, ainda viva na memória coletiva nos coloca diante do problema apontado por Julie Cavignac: “Será que, longe de uma visão unilateral que considera unicamente os efeitos destruidores de uma colonização europeia ainda em vigor, não seria mais interessante levantar a hipótese de que a configuração simbólica nativa contaminou os ‘brancos’ – e os ‘negros’!, a tal ponto que as representações do mundo humano, natural e sobrenatural encontram-se até hoje imbricadas até constituir um sistema coerente?”.
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Fabiana Agra-Jornalista e advogada

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