O MENINO E O SANTO FÁBULA DE GILVAN DE BRITO ; Por Gilvan de Brito

 O MENINO E O SANTO
FÁBULA DE GILVAN DE BRITO ; Por Gilvan de Brito- Jornalista, poeta e escritor

O menino ouvia falar que São João nunca havia tomado conhecimento dos festejos que se faziam na Terra, em sua homenagem, nos dias 23 e 24 de junho de cada ano. As pessoas acendiam fogueiras, dançavam forró, baião, xote e quadrilha junina, soltavam vários tipos de fogos de artifício e balões coloridos, deglutiam pamonhas, canjica, mungunzá e bolo de milho verde.

O que fazer para despertar o santo? Imaginava que, talvez, uma bomba de alto teor pudesse acordá-lo, mas o barulho das bombinhas que ouvia não chegava ao quarteirão mais próximo. Então tomou a iniciativa de acordar o santo com os recursos de que dispunha. Foi ao seu quarto, quebrou o cofrinho de barro em formato de um porco e saiu direto para o bazar de fogos do seu Clidineu, com todas as suas economias, suficientes apenas para a compra de quatro bombas do tipo “arrasa-quarteirão”. Foi até a pracinha de São Gonçalo e solicitou de dois adultos conhecidos que soltassem as quatro bombas de uma só vez, e pediu um retardo de cinco minutos. Correu para casa, sentou-se no batente que dava para a rua de terra batida e algum tempo depois ouviu uma grande explosão provocada pelos seus petardos. Foi um grande barulho, mas insuficiente para atingir o espaço, segundo imaginou, porque não repercutiu em eco. Frustrado por não ter atingido o alvo, começou a pensar noutra alternativa. Foi então que lhe veio à memória uma matéria que havia lido numa revistinha do SESI, mandada para seu pai pelo Sindicato, que falava de um lugar chamado “Mitologia Nórdica”, onde existiam vários deuses.

Um deles era Thor, filho de Odin, o deus dos raios e trovões, que provocava extraordinários estrondos em tudo que batia com o seu martelo. Pensou em fazer uma prece para o deus do trovão mas, acertadamente, não sabia rezar, pois vinha de uma família misturada de um crente e uma católica que discutiam ao falar de religião. Então resolveu fazer um cândido pedido ao deus Thor, para que desse uma martelada com toda força em alguma coisa, para provocar o maior estrondo de que já se ouvira falar. Não demorou um minuto quando foi surpreendido com uma bola de fogo que cortava o espaço, sobre a sua cabeça, largando enormes labaredas, no sentido oeste-leste, na direção do oceano Atlântico. Tudo aconteceu em segundos, e a bola de fogo largando faíscas, uma réplica das estrelas cadentes que via riscar os céus, sendo aquela, porém, de tamanho muito avantajado, desapareceu após fazer um barulho parecido com o de um tecido de seda sendo rasgada: shsssssssss.

Enquanto ruminava a respeito da notável aparição sobre sua cabeça, ouviu, trinta segundos após, uma grande explosão, a maior que já ouvira em toda a vida, soprada das bandas da praia de Tambau, que provocou um eco prolongado: “bummmmmm-bummmmm-bummmm-bummm-bumm-bum”. Pulou de alegria, deu um murro no ar com o punho cerrado, como fazia Pelé após marcar um gol. Era tudo de que precisava para acordar São João do sono que provocava a suspensão de suas atividades corporais por 48 horas, justamente nos dias em que os habitantes do bairro da Torre lhe prestavam essa fantástica reverência. Agradecido, dirigiu-se ao deus Thor, informando-lhe que a lasca que ele retirara da Lua, com a sua violenta martelada, foi suficiente para provocar uma explosão capaz de acordar o santo.
MORAL DA HISTÓRIA:
Quando insistimos numa idéia, de alguma forma a veremos prosperar, mesmo que o resultado muitas vezes não chegue logo ao nosso conhecimento.

[19:04, 22/06/2023] Iedo Ferreira: Por Gilvan de Brito- Jornalista, poeta e escritor




A CANTATA DE ALAGAMAR Por Rui Leitão

Publicado no jornal A UNIÃO

A CANTATA DE ALAGAMAR

A luta em defesa dos agricultores de Alagamar uniu um líder religioso, o Arcebispo Dom José Maria Pires; um argentino/judeu circuncidado, o maestro Kaplan; e um ateu assumido, o escritor W.J.Solha, na produção de um espetáculo musical intitulado “Cantata de Alagamar”. Baseado num texto do camponês Severino Izidro, conhecido como “Hino de Alagamar”, a peça artística pretendia dar maior projeção ao movimento dos trabalhadores rurais envolvidos na disputa com os proprietários das terras daquele latifúndio, denunciando abusos sofridos por famílias camponesas ali residentes. Severino era o responsável para levar as informações, por escrito, para os veículos de comunicação do estado, como ele próprio chegou a declarar, em 2010: “Quando escrevia, a gente tirava muita cópia, não é. Levava pro Jornal, levava pra diocese, deixava no movimento sindical, deixava na federação e, sempre, sempre quando a gente tinha alguma coisa que era pra decidir com a polícia,a gente tinha muito cuidado, levava logo pro jornal, quando era pra decidir alguma coisa com o governo do estado, a gente também levava jornal e tinha muito cuidado, sempre ficava com cópia. A gente nunca teve, assim, muita confiança nesse povo não, porque as coisas são distorcidas, no jornal a gente fala uma coisa e cada um faz a sua defesa, não é”. Os agricultores sabiam, portanto, o quanto uma informação errada ou mal interpretada poderia prejudicá-los.

O “Hino de Alagamar”, que inspirou a Cantata, teve um papel importante no sentido de mobilizar, de fazer o povo se reconhecer como filho da terra e parte indispensável naquela batalha. A sua letra tem uma forte convocação para a luta em defesa dos moradores da fazenda: Alagamar, meu coração/ Teu povo unido espera uma solução/ Nossa vitória fica na história; A tua glória é a nossa união. […] Teu povo forte, sem violência e sem guerra, numa luta pela terra e pela boa produção/ Da agricultura que o nosso povo consome quem consagra esse teu nome não se curva à invasão. Teus filhos querem permanecer no trabalho/sabendo que és o retalho que o pobre ainda arranja o pão; Alagamar de tantas belezas mil/ tu sabes que no Brasil acabou-se a escravidão. Nossa Tensão Social Organizada/ ela nunca foi forjada por quem usa de outros feitos. Foram as prisões e os despejos inimigos que fizeram meus amigos procurarem seus direitos. Não temos ódio nem preguiça nem vingança/ mas temos a esperança de nossa libertação/ Para o nosso povo ter produtos agradáveis, nós somos os responsáveis por sua alimentação”.

O teatrólogo Fernando Teixeira ficou responsável pela direção do jogral, que contava com os atores Buda Lira, Ubiratan de Assis e João Costa. A obra baseada em ritmos e poesia vinculados à nossa cultura, harmonizando-os com a modernidade, teve a participação de artistas da chamada música erudita, tais como solistas, tenores, coro misto e orquestra de câmara, integrantes da Universidade Federal da Paraíba. A ópera camponesa não podia ser apresentada nos teatros, porquanto proibida pela censura em razão do seu conteúdo político de denúncia da perseguição a que estavam sendo submetidos os agricultores pela Ditadura Militar. Por isso, sua estreia aconteceu no dia 17 de junho de 1979, na Capela da Igreja de São Francisco, com um público de aproximadamente quatrocentas pessoas, que aplaudiu de pé o espetáculo.

Na oportunidade também se faziam presentes, como expectadores, o Arcebispo Dom Hélder Câmara, de Olinda e Recife e Dom Fragoso, Bispo de Cratéus, ambos , ao lado de Dom José Maria Pires, apontados pela imprensa aliada ao governo como os “bispos vermelhos”, pela pregação que faziam em favor dos pobres e dos oprimidos. O espetáculo, gravado em disco vinil pouco depois, recebeu a apresentação de Dom Hélder, que, entre outras colocações, afirmou: “A Cantata nos traz a boa nova de que nossa gente sofrida sabe muito bem que seria loucura pegar em armas, cujos fabricantes são seus opressores, mas não está, de modo algum acovardada e sem ação. Aprende sempre mais que a força do povo é a união, não para pisar direitos dos outros, mas para não deixar que ninguém pise direitos seus. Para quem tem ouvidos de ouvir, é cantata de esperança e de amor”.

Em 2014, foi reapresentada no último dia do Festival de Artes de Areia, no Colégio Santa Rita. A cantata, naquela oportunidade, teve a participação do Coro Villa-Lobos, de João Pessoa. Em cena estiveram os solistas Vladimir Silva e Fátima França, os narradores Ubiratan de Assis, Bia Cagliani e Daniel Porpino e na regência, Carlos Anísio.

Quarenta e quatro anos depois, a história da luta do povo de Alagamar demonstra que o poder da união, do direito e da comunicação, consegue vencer o autoritarismo e a força do dinheiro.

Rui Leitão




Poder moderador Por: Gilvan de Brito

PODER MODERADOR
Com a crise institucional que atualmente envolve o Brasil surge a necessidade de que pessoas de bom senso ofereçam sugestões para aperfeiçoar a atual legislação e evitar os impasses registrados na política e na administração, com perigosos respingos na economia, onde o povo vai sendo relegado, como aconteceu esta semana quando a Câmara Federal, de Lyra, reduziu a participação das pessoas nas decisões de Estado.

De minha parte quero lembrar da importância do Poder Moderador, já utilizado em nosso país e que ainda hoje se exerce em várias partes do mundo. Em 1824 o imperador Pedro I resolveu baixar uma Constituição para levar o Brasil ao Estado de Direito, quando propôs a implantação de 4 poderes para a gerência do país: Legislativo, Executivo, Judiciário e o Poder Moderador.

O poder moderador, uma espécie de Conselho de Estado, seria o algodão entre cristais, para atuar como intermediário com autoridade de intervir e evitar crises ou o crescimento desmedido de um poder em relação aos demais, como agora quando o Executivo vem sendo engolido pelo Legislativo. Funcionou no Império até 1898. Na época a doutrina do poder neutro não era uma legislação nova, baseava-se em ideário do estadista franco-suiço Benjamin Constant (1787-1839), utilizado na França, após a revolução.

Também foi implantada em Portugal, em 1826, quando Pedro I deixou o Brasil para reinar em Portugal com a morte do pai, D. João VI. Para o Brasil, que vive hoje outros tempos, o Poder Moderador poderia ser experimentado, contando na sua formatação com juízes e ministros aposentados, militares da reserva de mentalidade arejada e parlamentares aposentados do melhor quilate, além do povo representado por pessoas de notório saber, retirado da população. Constant dizia que “A soberania será eficaz, se for limitada e relativa”, ao defender a participação do povo através do poder moderador.

No atual sistema o povo anda meio fora de contexto, entre os três poderes da República. Esta é a minha visão como advogado (OAB 3851-PB) que, embora tenha exercido apenas dois anos (1983-84) (porque o jornalismo puxou-me de volta), tive o privilégio de ser orientado por um corpo docente altamente capaz, no início de atividades da UNIPÊ, que funcionava no Convento ao lado do mosteiro de São Bento (diante da Catedral) com a presença de desembargadores aposentados, ex-presidentes do Tribunal de Justiça, ex-juízes, médicos legistas competentes e notórios advogados, dentre eles um dos maiores civilistas do país: Paulo Bezerril.




Uma gestão vitoriosa na UFPB Por: Gilvan de Brito

UMA GESTÃO VITORIOSA NA UFPB
Conhecia o reitor da Universidade Federal da Paraíba apenas pelo noticiário das páginas virtuais da imprensa e de depoimentos prestados a este Facebook, que vez por outra trazia informações sempre desabonadoras contra o professor Valdiney Gouveia, atribuindo-lhe péssima gestão das atividades daquele núcleo de formação de profissionais de vários ramos e da difusão cultural dos paraibanos, em particular.

Foi com surpresa, porém, que ouvi seu discurso no centro de convenções, na posse da minha nora Rayssa Carneiro, aprovada em concurso e contratada pela UFPB. A surpresa ficou por conta das revelações feitas por ele próprio, da sua infância difícil, da força de vontade levada adiante por toda a juventude até alcançar com méritos uma graduação acadêmica que resultou na sua investidura no cargo de professos universitário.

Procurei apurar como tudo isso culminou com o reitorado, que veio por gravidade, após sua passagem meritória pela cátedra, num reconhecimento tácito de sua incansável luta e da capacidade demonstrada, inicialmente na busca da sobrevivência e posteriormente, na sustentação dos valores adquiridos que lhes permitiram a ascensão profissional no comando de um conjunto de faculdades que visa a especialização profissional e científica de milhares de paraibanos, para ser mais exato, 40 mil estudantes em graduação e pós-graduação, nos campus de Areia, Bananeiras, João Pessoa, Mamanguape e Rio Tinto.

Alunos vindos de outras cidades e até de outras latitudes, comtemplados através de um destacado quadro de docentes em diversas lentes, graduações e dos melhores atributos que lhes distinguem e determinam a natureza de suas qualidades.
Sua obra durante o reitorado vem mostrando o quanto a indicação do seu nome foi providencial para a continuidade dos avanços de uma casa do saber, notória pela qualidade do ensino oferecido. Isso mostra como não devemos confiar nas primeiras informações sobre gestores públicos.




A BATALHA DO RIACHUELO Por: Rui Leitão

Publicado no jornal A UNIÃO edição de hoje

A BATALHA DO RIACHUELO

Há exatos 158 anos acontecia a “Batalha Naval do Riachuelo”, que teve importância decisiva para o Brasil no maior conflito armado da América do Sul, a Guerra do Paraguai. Por isso o dia 11 de junho passou a ser considerado a data magna da nossa Marinha. A vitória brasileira defronte a foz do Riachuelo, afluente do Rio Paraná, bloqueou o acesso do Paraguai ao mar, impedindo-o de receber armamentos do exterior.

A chamada Guerra do Paraguai foi causada pela iniciativa do ditador Francisco Solano Lopez, quando tentou colocar em prática uma política expansionista do seu país, buscando se apossar de terras de nações vizinhas e ter acesso ao mar pelo Porto de Montevidéu. Ele queria anexar ao território paraguaio, tanto o Uruguai, quanto partes da Argentina e das províncias brasileiras do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso.

Naquela oportunidade se iniciava uma nova fase da guerra, tendo ainda cinco anos de duração. Foi assinado, na época, o “Tratado da Tríplice Aliança”, formada pelo Brasil, Argentina e o Uruguai. O Paraguai, no entanto, não tinha condições militares, nem econômicas, para sustentar uma guerra por longo período contra os países platinos. Era um enfrentamento desigual, até em termos de população. Enquanto o Paraguai possuía em torno de 650 mil habitantes, o Brasil já contava com mais de 9 milhões, a Argentina 1 milhão e 700 mil e o Uruguai com pouco mais de 200 mil.

Em 1864, após a invasão e deposição do ditador Aguirre, do Uruguai, Solano Lopez, em retaliação, decidiu aprisionar, no Porto de Assunção, o navio brasileiro Marquês de Olinda, e atacou Dourados, na província do Mato Grosso. Foi o estopim da guerra.

O almirante Barroso era o comandante das forças militares brasileiras. No ano seguinte à batalha do Riachuelo, nova vitória do Brasil ocorreu durante o mais sangrento embate campal da Guerra do Paraguai, a batalha do Tuiuti, registrando uma baixa de treze mil paraguaios, contra cerca de quatro mil dos países aliados. No desenrolar do conflito, o General Manoel Luís Osório, futuro Marquês de Herval, assumiu o posto de comandante-em-chefe das tropas brasileiras. Por quatro décadas esse episódio seria comemorado como a principal atuação do Exército Imperial Brasileiro. Daí porque a data de 24 de maio, por muito tempo, foi comemorada como o Dia do Exército.

Mas voltemos à Batalha do Riachuelo. A esquadra brasileira não era adequada para operar em águas restritas e pouco profundas como as dos rios Paraná e Paraguai. Isso concorria para que nossos navios encalhassem com facilidade. A vitória brasileira, contudo, só foi obtida graças à manobra de abalroamento das embarcações paraguaias. No decorrer do conflito o Almirante Barroso deu duas ordens por meio de sinalizações de bandeiras, com frases que ficaram famosas: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever!” e “Sustentar o fogo, que a vitória é nossa!”.

Nessa batalha surgiram vários heróis, dentre eles Greenhalgh e Marcílio Dias, cujos feitos ficaram imortalizados pela história, merecendo as justas reverências da Marinha do Brasil, a cada 11 de junho. A Batalha do Riachuelo é considerada pelos historiadores militares como uma das mais importantes vitórias brasileiras da Guerra do Paraguai.

Rui Leitão




A reação Por: Rui Leitão

A terceira Lei de Newton nos ensina que “toda ação gera uma reação”. Isso se aplica na física, tanto quanto no campo das ações humanas. A diferença é que na física a reação é sempre instantânea, enquanto nas atitudes que dependem do comportamento humano nem sempre isso se dá de forma imediata. Na psicologia, nas finanças, na economia, pode demorar algum tempo para acontecer uma reação.

Esse intervalo de tempo muitas vezes causa aborrecimentos, desilusão, desespero, desconfiança. Porque somos apressados, imediatistas. Quando fazemos algo na expectativa de uma reação favorável ao que tencionamos, é normal que produza ansiedade. Temos dificuldades em administrar essa espera.

Por outro lado, o emocional também nos leva à precipitação no que diz respeito aos impulsos de reação. Impensadamente reagimos quando estamos diante de algo que nos desagrada, sem nos permitimos refletir, analisar causas e efeitos. Parece até que a reação pode alterar os acontecimentos em favor de si ou de quem esteja sendo alcançado pela decisão tomada. Nem sempre é assim. Mas há circunstâncias em que se faz necessário reagir, mas pesando responsavelmente as consequências.

Pode também acontecer exatamente o contrário, reagirmos de forma positiva. Darmos uma resposta que produza paz na convivência, tranquilidade nos relacionamentos. São os casos dos agradecimentos, da reciprocidade nos benefícios e favores, da aceitação dos fatos. São reações, algumas vezes esperadas, outras surpreendentes, mas que fazem um bem enorme ao nosso estado de espírito.

Se compreendermos que ‘só damos aos outros, aquilo que recebemos’, haveremos de conduzir nossas vidas com muito menos embaraço, desequilíbrio emocional, contrariedades. Reagir é não ser passivo. Todavia, não podemos desprezar a nossa capacidade de pensar, raciocinar, refletir, para oferecermos uma reação a algo que nos aconteça.

• Integra a série de crônicas “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”.

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JUNIOR, DO FLAMENGO, NASCEU NA TORRE Por: Gilvan de Brito

JUNIOR, DO FLAMENGO, NASCEU NA TORRE

Nos carnavais da Torre havia um folião chamado Mestre Alfredo (alguns também o chamavam de Mestre Gama), construtor, que, nos três dias de Momo, recebia na sua casa, localizada à rua Miguel Santa Cruz, os blocos de todas as pessoas amigas que residiam nas imediações. Eu era um rapazinho e morava na rua Manoel Deodato, pertinho, e não perdia uma.

Durante esses momentos, muita bebida e comida eram oferecidas aos visitantes, em meio a uma barulheira infernal de tamborins, zabumbas, reco-reco e bombos, quando até as paredes tremiam. Era de admirar a tolerância do mestre Alfredo e de sua mulher no atendimento aos foliões. Três dos filhos do Mestre eram meus amigos: Tota, Ailton e Alfredinho. Os dois primeiros jogavam num time de futebol que eu tinha, o Astral. Alfredinho era devotado as conquistas amorosas (e deu sorte porque casou-se com Eterna, a moça mais bonita da Torre). Mas tinha ainda ima irmã. Mercês, e um irmão, o Leovegildo, que era casado e morava com a família. Aos domingos visitava os pais e no carnaval bebia e curtia os blocos.

Ele chegava com dois menininhos, um nos braços, e o outro caminhando; colocava-os sobre duas cadeiras para presenciarem a brincadeira enquanto as crianças ficavam admirandas e entusiasmadas com aquela barulhenta folia. Depois eu soube que Leovegildo havia viajado para o Rio levando os filhos. Um daqueles menininhos, o maior, Leovegildo Lins Gama Filho, conhecido por Junior, entrou na escolinha do Flamengo, mostrou serviço e passou a integrar o time principal, quando foi campeão carioca várias vezes, campeão da taça Libertadores da América, tri-campeão brasileiro e campeão do mundo em 1981.

Atuou na seleção brasileira de 1979 a 1992 e nas copas do mundo de 82 e 86 (com Telê Santana, ao lado de Zico e fez parte da melhor geração de atletas do Flamengo de todos os tempos, atuando em 800 partidas. Jogou também na Itália, no Pescara e no Torino. Hoje é comentarista de futebol, da TV Globo.




O vale tudo da política por: Gilvan de Brito

O VALE TUDO DA POLÍTICA
A arte é um substantivo feminino que tem duas conotações: praticar travessuras e peraltices ou para a criação e utilização com vistas a certo resultado obtido por diferentes meios. Na política algumas pessoas escolhem a primeira ou a segunda, dependendo do caráter. Em Brasília assistimos pela TV, diariamente, a maioria dos políticos optar pela malandragem, enveredando por caminhos antiéticos, em defesa de interesses próprios, agressões e outras práticas condenáveis. Vejam o que disse o senador Magno Malta a respeito da agressão ao atleta Vini Júnior, quando 80 por cento dos torcedores do Sevilla, da Espanha, o hostilizaram, com gestos imitando um símio apenas pela cor da pele e as feições negroides: “Respeitem os macacos” declarou o senador. O que dizer de um cidadão abjeto dessa qualidade? Dizer que os eleitores do Espírito Santo desse senador são piores que ele é pouco. Vale dizer, sim, que ele não merece sequer um CPF ou um RG, muito menos um mandato de senador.
Noutro quadro observamos o relator de uma MP do Executivo, interessado em fomentar a desfiguração administrativa do governo, colocar vários “jabutis” na matéria oriunda do palácio do planalto, extinguindo ministérios ou autorizando a continuidade do desmatamento, no país, dentre outras insanidades. Os poderes são independentes e harmônicos entre si, diz a Constituição, não podendo sofrer interferências do Legislativo no Executivo, mesmo assim o presidente da Câmara aceitou os “jabutis” (emendas que não têm nada a ver com a matéria original) e colocou-a em tramitação. Isso para agradar determinado grupo político que usa de todos os meios para alcançar os fins, visando levar o país a uma crise de governabilidade. Esses são os chamados representantes do povo. Há uma máxima que diz: “O povo tem os políticos que merece”, que a cada dia se firma, considerada como verdadeira, com as exceções que confirmam a regra.




O PLANETA DE LIVARDO ALVES Por: Gilvan de Brito

O PLANETA DE LIVARDO ALVES
Vasculhando OS meus alfarrábios encontrei um poema de Livardo Alves, (com quem fiz dezenas de músicas), em homenagem aos poetas de sua preferência, com a sua conhecida vivacidade de imaginação, numa linguagem simples e descontraída, elaborado nos seus últimos dias de vida, em 2002.

PLANETA BRASIL
Livardo Alves

“Neste Planeta Brasil,
De poetas geniais,
Louvo Augusto dos Anjos,
O maior dos imortais…

João Cabral de Melo Neto,
Meu poeta predileto,
O Vinícius de Morais…

Carlos Drummond e Bandeira…
Olegário Mariano…
E o Poeta Soberano,
Que foi Ascenso Ferreira…

Inácio da Catingueira,
Que também fez coisas belas…
Otacílio, Lourival,
Oliveira de Panelas…

E o mestre Canhotinho,
Que pelo sertão, sozinho,
Colheu rosas tão singelas…

Nas entrançadas das rimas,
Eu louvo o mestre Dimas…
Louvo também Zé da Luz,

Poeta de muitos traços…
Desejou morrer nos braços
Da dona dos dois cuscús…

Nos meus acordes azuis,
Eu louvo um, louvo dez…

Louvo Pinto do Monteiro,
Esse grande violeiro,
E o seu irmão Heleno…

Jomar Souto, Zé Ramalho,
Aranha, Dida Fialho,
Radiel e Zé Pequeno…

Louvo o poeta Adabel,
Louvo Altimar Pimentel
E Sérgio de Castro Pinto…

Louvo poeta, não minto,
Este é o meu papel…

E louvo Bento da Gama,
Que um dia criou fama
E foi preso no quartel…

Saulo Mendonça eu louvo,
E louvo Vital Farias…
Também louvo Noel Rosa,
Que fez a Vila famosa,
Com as suas melodias…

Eu louvo Gonçalves Dias..
E aqui em Tambaú,
Eu louvo Mané Xudú,
Que foi companheiro meu…

Aproveito aqui a rima,
Nesta louvação prá cima
A Cassimiro de Abreu…

Eles são uirapurus…
Patativas… Menestréis…

Também louvo Gilvan de Brito,
Que comigo deu um grito,
Lá no Ponto de Cem Réis…

E louvo Bartolomeu,
Outro companheiro meu,
Às tardinhas nos cafés…

Por entre Sertão e Brejo,
Eu louvo Orlando Tejo,
E louvo Raimundo Asfóra,,,

Mas Ronaldo Cunha Lima,
É governo, está por cima,
Louvá-lo-ei noutra hora…

Desta peleja eu não fujo!…
Eu louvo um… louvo mil…
Louvo Felix Araújo
E o compositor Rosil…

Castro Alves e Bilac…
Caymmi, Chico Buarque,
Caetano Veloso e Gil…

Ary Barroso e Cartola
E Paulinho da Viola,
Pra grandeza do Brasil!!!

Mas na minha carraspana,
Dentro do Planeta Azul,
Eu louvo Mário Quintana,
Grande poeta do Sul…”




A REVOLUCIONÁRIA RITA LEE Por Rui Leitao

Publicado no jornal A UNIÃO edição de hoje:

A REVOLUCIONÁRIA RITA LEE

No início do mês de março lancei um livro intitulado REVOLUCIONÁRIAS. Nele procurei traçar o perfil de quarenta brasileiras, protagonistas da história nacional, que se destacaram por terem sido combatentes na luta para vencer preconceitos, discriminações e regras de convivência social determinadas por culturas machistas e patriarcais. Foram mulheres que, corajosamente, romperam paradigmas e passaram a ocupar espaços só permitidos aos homens.

O trabalho se restringia a elaboração de sínteses biográficas de personalidades já falecidas. Se tivesse demorado mais dois meses para concluir o livro, certamente, agora, uma delas teria sido merecidamente incluída: Rita Lee.

Indiscutivelmente ela promoveu uma revolução no comportamento feminino nas décadas de 60 e 70, sem necessariamente carregar a bandeira do feminismo. Fez tudo ao seu jeito. Com seu espírito irreverente, ousou ao cantar sobre o sexo e outros temas proibidos para serem abordados pelo universo feminino. Na sua música expunha, sem falsos pudores, a realidade das mulheres brasileiras. Adorava desafiar o conservadorismo.

Experimentou, em vida, tudo o que desejou, sem qualquer preocupação em saber se estava agradando ou desagradando quem quer que fosse. Exatamente porque era, mesmo sem essa intenção, uma revolucionária. Não se intimidava em ser pioneira, tanto nas performances musicais, quanto na forma de agir e de pensar. Fazia da sinceridade uma característica que a tornava diferente, icônica, singular. Inspirou gerações de novos artistas, até na forma de se vestir. Soube, como ninguém, construir uma identidade visual única.

Vai deixar saudades. Não só pelo legado musical de sua obra artística, mas pelo seu jeito divertido, provocativo e poético com que se manifestava contra os padrões do falso moralismo que dominava o ambiente em que vivia. Não tinha “papas na língua”, como se diz popularmente quando queremos classificar uma pessoa polêmica.

Foi a cantora mais censurada na época da ditadura militar. Estava grávida quando foi presa nos “anos de chumbo”, E foi, também, a que mais vendeu discos na historia da música brasileira. “Fez parte do movimento do tropicalismo, integrando o grupo “Os Mutantes” e deixou uma marca na história da música nacional e internacional.”. Não gostava de ser chamada a “rainha do rock brasileiro”. Preferia ser classificada como a “padroeira da liberdade”.

No seu livro autobiográfico, lançado em 2016, assim se referiu ao dia em que morresse: “Quando eu morrer imagino as palavras de carinho de quem me detesta. Algumas rádios tocarão minhas músicas sem cobrar jabá, colegas dirão que farei falta no mundo da música. Os fãs, esses sinceros, empunharão capas dos meus discos e entoarão o “Ovelha Negra”, as TVs já devem ter na manga a minha trajetória para exibir no telejornal do dia. Nas redes virtuais alguns dirão; ué, pensei que a véia já tivesse morrido, kkk. Nenhum político se atreverá a comparecer ao meu velório, uma vez que nunca estive presente no palanque de qualquer um deles e me levantaria do caixão para vaiá-lo. Enquanto isso, estarei eu de alma presente no céu tocando minha autoharp e cantando para Deus Thank you Lord, finally sedated”.

Faço questão de colocar Rita Lee, entre as “revolucionárias” às quais decidi prestar homenagens e reverenciar. Ela é eterna.

www.reporteriedoferreira.com.br    Rui Leitão-jornalista, advogado, escritor e poeta.