PARAHYBA DO NORTE E SUAS HISTÓRIAS. Antigo Açougue e Correios Sérgio Botelho

Vandilo Brito está em Praça Rio Branco.





PARAHYBA DO NORTE E SUAS HISTÓRIAS. Castro Alves e Maciel Pinheiro Por
Publicado no jornal A UNIÃO edição de hoje:
O CARNAVALESCO JOÃO DE MANEZIM Por Rui Leitao
Este ano passei o Carnaval em Cajazeiras, algo que não fazia a bastante tempo. Nos blocos, festas e na tradicional praça do frevo uma marchinha ecoava: ““Ei, olhe pra mim/Eu sou João de Manezim/Não faça isso, eu não mereço/Você vai cair no remelexo”. Essa é a mais conhecida composição de João de Manezim. Seu nome de batismo era João Rodrigues. Nasceu em 1941, morador da zona sul da cidade, tornou-se uma figura lendária, por seu comportamento pitoresco e peculiar. Carnavalesco, fundou sua própria escola de samba e compunha as marchinhas que a população ainda canta. Com seu faro para gente diferenciada, a produtora cultural Iracles Pires, não só oferecia as condições para os desfiles, como cuidava da maquiagem dos figurantes da escola. Os versos de suas músicas caíam no gosto popular, pela forma como abordava os mais diversos temas, com pitadas de humor e irreverência.
Marcou presença forte nos carnavais da cidade do Padre Rolim. Era um autêntico folião. As ruas de sua terra natal foram o palco em que conseguiu dar visibilidade ao seu modo exótico de viver. Planejava, inclusive, espetáculos circenses, onde chegou a pregar peças anunciando o que, efetivamente, não iria acontecer. Um dos episódios mais lembrados foi quando fez propaganda pelas ruas de que à noite iria apresentar a “mulher que vira peixe”. A curiosidade do povo pela inusitada performance artística divulgada, chamou a atenção de muita gente. Na hora da apresentação, ele, vestido de mulher e com uma peruca loira, trazia na mão uma frigideira na qual conduzia um peixe virando-o de um lado para outro. Nem é preciso dizer qual foi a reação do público. Antes que fosse alvo da fúria dos que se viram enganados, correu e fugiu, passando algum tempo sem aparecer nos locais que costumava frequentar.
Apaixonado pelo Atlético de Cajazeiras, organizava, com sua batucada, a animação da torcida nas partidas realizadas no estádio Perpetão. A originalidade das suas ações fizeram com que se tornasse um figura muito popular, o que garantiu sua eleição para a Câmara de Vereadores, na década de 80. Quando de sua morte, em junho de 2013, foi velado naquela casa legislativa, tendo sido homenageado pelos parlamentares com uma sessão especial. O cortejo fúnebre foi acompanhado pela batucada de sua escola de samba e uma multidão de admiradores.
Por ocasião das comemorações do cinquentenário de fundação de Brasília, o então governador do Distrito Federal, Roberto Arruda, colocou na programação festiva um show com Paul Mccartney, desfazendo essa agenda após o escândalo que estourou envolvendo-o. O cajazeirense Ubiratan di Assis, que na época morava na capital federal, em tom de brincadeira, noticiou pelo Orkut que “na falta de Paul Mccartney, quem viria se apresentar seria o compositor carnavalesco João de Manezim”. A informação repercutiu de tal forma que seus conterrâneos residentes em Brasília, decidiram levar a sério o gracejo e bancaram a viagem, adquirindo as passagens aéreas, mala, terno, gravata e um par de sapatos. João de Manezim foi recepcionado por um barulhento grupo de cajazeirenses, que entoava algumas músicas compostas por ele, ao som de uma charanga. Claro que isso despertou a curiosidade das pessoas que estavam no aeroporto, inclusive do poeta Thiago de Melo que consultou Ubiratam: “de quem se tratava essa figura tão festivamente recebida?”. Ficou, então, sabendo que era um personagem folclórico do sertão paraibano.
Durante os quatro dias que esteve em Brasília, além de cumprir uma agenda de turista, o compositor paraibano concedeu entrevista na Rádio Nacional e, diariamente, falava para o programa Boca Quente da Difusora Rádio Cajazeiras, dando conta da sua estadia no Planalto. Foi exatamente nesse período que foi fundada a Associação dos Cajazeirenses e Cajazeirados Residentes em Brasília, durante um churrasco de confraternização na granja de Ubiratan di Assis.
João de Manezim, em vida, traduziu a aura multicultural de Cajazeiras. Sua história deixou marcas indeléveis na paisagem urbana da cidade onde nasceu. Sua memória é contada em verso e prosa pelo povo sertanejo.
Rui Leitão, advogado, jornalista, poeta e escritor
HADDAD MATOU A NOSSA SAUDADE DE FLÁVIO DINO Por Rui Leitao
O ministro Fernando Haddad matou nossa saudade de Flávio Dino ontem na Câmara dos Deputados. Deu um show de argumentação técnica. Tendo sido convidado para participar de uma audiência na Comissão de Finanças e Tributação, onde o objetivo seria debater sobre a política econômica, se viu obrigado a enfrentar os costumeiros bate bocas provocados por uma bancada de parlamentares que vem se destacando pelo protagonismo em espetáculos de patetices, sem qualquer compromisso com a discussão de temas que deveriam ser levados a sério. O feitiço virou contra os feiticeiros. Ao invés de ser “lacrado” com a produção de vídeos para publicação na internet, como sempre fazem, foi ele quem “lacrou”. Não deixou qualquer provocação sem resposta inteligente e de fina ironia.
O grande problema é que os idiotas também se elegem. Claro, porque têm eleitores que se assemelham no comportamento irresponsável. Eles participam de processos eleitorais optando por escolhas que contrariem a prática da boa política. Não diria que são votos de protestos, são exercidos por idiotas em suas mais diversas versões ─ o espertalhão, o otário, o vigarista, o fanático, o farsante, o bobo alegre, etc. Então, têm que determinar suas preferências como se estivessem olhando no espelho.
Cultura e inteligência não são atributos necessários para que possam definir suas opções na hora de exercer o sufrágio nas urnas. Não têm noção do alto custo da irracionalidade política, quando colocam em cargos eletivos pessoas intelectualmente limitadas, e, portanto, desqualificadas, para o exercício dos cargos para os quais foram guindados nos processos eleitorais.
O tiro saiu pela culatra. Haddad, como era de se esperar, esbanjou conhecimento de economia, sempre falando com calma e tratando todos com a urbanidade que caracteriza sua personalidade. Mas, não perdeu oportunidade para responder com pitadas de humor inteligente aos que tentaram “enquadrá-lo”. Como se diz na gíria popular “foram jantados” pelo ministro. Os lacradores da extrema direita brasileira tiveram que se render às suas insignificâncias. Ficaram impedidos de fazer recorte nas redes sociais para ganhar apoio da base. A mediocridade dessa bancada parlamentar composta por negacionistas, reacionários e, acima de tudo, inconsequentes, se viram incapazes de repetir as costumeiras estultices, uma vez que encontraram alguém com a capacidade de enfrentar debates, ainda que fugindo do tema de seriedade, com inteligência e responsabilidade. Se não temos mais o Flávio Dino, ganhamos o Fernando Haddad. Só lamento que o tempo de um ministro tão importante para o país, seja perdido com a necessidade de responder a questionamentos dos que se prestam às atividades da “baixa política”.
Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor

PARAHYBA DO NORTE E SUAS HISTÓRIAS. Rua Índio Piragibe



ABSOLVIÇÃO DE MORO Por Rui Leitao
Fiquei surpreso. Porém, não tenho condições técnicas de avaliar se foi correta ou errada a decisão do TSE de livrar de cassação o ex-juiz parcial Sérgio Moro do cargo de senador. Nem sempre o que determinam as leis atendem nossos desejos. Então, respeito o julgamento, embora lamente.
São processos diferentes. Um que julgava a sua inelegibilidade e outro que julgou os processos da Lava Jato. Nesse da República de Curitiba não há o que contestar, é perfeitamente compreensível o veredito que aponta o conluio que se firmou entre juiz e procuradores na operação Lava Jato. Já estavam fortemente comprovados os atos ilegais praticados que demonstraram claramente que faziam parte de um projeto político de poder. Além da parcialidade, havia a incompetência da 13a. VARA FEDERAL de julgar um caso que não era da sua jurisdição.
Pior para o Paraná que continuará sendo representado no Senado por alguém que se destacou, enquanto juiz como parcial e corrupto, e como político um militante despreparado e alinhado ao ideário da extrema direita. Mas foi a vontade do povo em uma eleição por urnas eletrônicas, tão atacadas por eles, e isso deve ser aceito de forma democrática.
Vi uma declaração dele elogiando o judiciário. Até ontem ele acusava o STF de ter tomado decisões equivocadas em relação à Lava Jato. Qd o benefício é em seu favor o judiciário merece aplausos. Mas quando é para expor as ilegalidades por ele praticadas não é assim reconhecido.
Sigamos. Nem sempre o que a lei define ampara o que desejamos.
www.reporteriedoferreira.com.br Por Rui Leitão – Jornalista, adevogado, poeta e escritor
A RESSACA DA EMBRIAGUEZ DO PODER Por Rui Leitao
Numa de suas últimas entrevistas para a imprensa Carlos Lacerda teria dito: “o poder embriaga como o vinho”. E isso é uma grande verdade, tem gente que não sabe viver distante do poder. Torna-se dependente dele. O poder é uma fonte hedonística de prazer. Na embriaguez do poder é despertada a arrogância desmedida. Quando alguém se inebria com o exercício do poder, ao perdê-lo sofre os incômodos de uma grande ressaca.
Desacostumado a caminhar na planície, perde a racionalidade, fica trôpego como um bêbado que não consegue se equilibrar nas próprias pernas. Desorientado porque não pode mais exercer a condição de mando e de superioridade, revela-se uma pessoa amarga, invejosa, incapaz de reconhecer que o seu tempo passou. Normalmente isso ocorre com indivíduos que trazem na personalidade a ausência da humildade e têm dificuldades em abandonar o seu estilo de prepotência. Não se dão conta de que o poder é efêmero.
O verdadeiro líder não se abate com a perda de poder. Muitas vezes ele se agiganta porque encontra a oportunidade de demonstrar seu carisma e sua capacidade de sedução. Recolhe-se ao seu novo ambiente com a grandeza de quem deixou um legado que merece admiração. Não nutre sentimentos de excelsa sabedoria. Aproveita a eventual perda de poder para reflexões e a partir delas traçar planos futuros. Busca construir uma nova jornada, sem desmerecer quem o sucedeu. Age exatamente de forma contrária, contribuindo, orientando, formando parcerias, mesmo que sem a autoridade de mandar ou decidir.
Não é fácil despir-se da fantasia da dominação. Para alguns é como se estivessem nus, ao perderem a ilusão de que continuam poderosos. É quando começa a vivenciar o mal-estar próprio de uma ressaca, provocada por eles mesmos ao se embriagarem com o poder que lhes foi conferido por algum tempo.
www.reporteriedoferreira.com.br Rui Leitão-Jornalista, advogado, poeta e escritor
Jamais trairei minha consciência Por Rui Leitao
“Quem pensa com a unanimidade, não precisa pensar”. Essa frase do dramaturgo Nélson Rodrigues me leva a refletir sobre o perigo de seguir ideias defendidas por pretensa maioria, sem se dar ao trabalho de contestar, discutir. Tem muita gente que age assim, preferindo aderir às opiniões apresentadas como majoritárias numa sociedade para que assim possam parecer mais inteligentes, mentalmente brilhantes.
Nietzsche classificava essas pessoas como “homens de rebanho”. São pessoas que não se constrangem em perder suas individualidades, agem e falam conforme o padrão politicamente correto que lhe fizeram compreender. Normalmente são indivíduos inflexíveis e reacionários. O discurso repetitivo que usam, muitas vezes absorvido da propaganda midiática, construído através de seduções doutrinárias, revela um lamentável empobrecimento cultural.
Eu procuro seguir o conselho do próprio Nietzsche quando diz: “Toda vez que você se encontrar do lado da maioria, é hora de parar e refletir”. Sou muito desconfiado das posições apontadas como da maioria. Tenho receio de ser convencido pelo discurso fácil, aquele que me oferecem como verdadeiro e não me dão o direito sequer de questioná-lo. Vejo com tristeza alguns amigos que na incapacidade de organizar suas próprias ideias, ficam a repetir o que ouvem e passam a considerar como verdades absolutas.
Não há hipótese que me leve a trair a consciência. Enquanto não estiver convencido de algo que não concordo numa primeira análise, eu continuarei assumindo minhas convicções, sem medo de críticas. Já vivenciei experiências de sofrer admoestações, e até desqualificação do meu pensamento, por não comungar com o raciocínio da eventual maioria. Me recuso ser mais um “homem de rebanho”. Deixem-me com minha própria compreensão das coisas. Não me incomodo fazer parte de uma minoria circunstancial, desde que isso me dê a paz de quem não está traindo a consciência.
Rui Leitão- Jornalista, advogado, poeta ,escritor.