PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. De Parahyba a João Pessoa

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Foto- Teatro Santa Rosa
PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. De Parahyba a João Pessoa
Sérgio Botelho – No dia 1º de setembro de 1930, uma segunda-feira, perante assistência a lotar completamente o Teatro Santa Roza, os deputados estaduais paraibanos aprovaram projeto de lei mudando, de Parahyba para João Pessoa, o nome da capital do estado. No palco, os parlamentares, todos de pé. “Grupos de moças lindíssimas (sic) se colocaram ao lado dos deputados que entraram a ser aplaudidos pela assistência”, conforme descreveu matéria de A União, na edição da terça-feira, 02 de setembro de 1930.
Aprovação unânime. Antes disso, em 31 de agosto, um domingo, após manchetes diárias de A União, desde que o presidente João Pessoa fora assassinado, em 26 de julho daquele ano, uma autêntica procissão conduziu um retrato do governante assassinado entre a Escola Normal, na Praça João Pessoa, até o Clube Astrea, na Duque de Caxias. Na ocasião, “o povo de cabeça descoberta, no mais absoluto respeito, caminhava pelas ruas da cidade cantando o Bendito do Civismo que é o Hino da Pátria.
Era como se ali fosse a imagem de um santo levado em procissão nos braços dos fiéis”, narrava a emocionada reportagem de A União da terça-feira, 2. Para o dia 4 de setembro, ficou reservada a sanção governamental ao projeto aprovado, legalizando em definitivo a mudança do nome da capital. Estava no exercício do cargo o que fora vice de João Pessoa, Álvaro Pereira de Carvalho (1885-1952), que só duraria no posto até 4 de outubro daquele ano, quando abandonou a política e foi morar em Santos (SP), substituído por José Américo de Almeida, designado pelo movimento vitorioso.
“Nenhuma homenagem de maior significação cívica poderia ser prestada ao grande mártir da democracia, ao eminente estadista vítima do ódio dos políticos desalmados do que dar à capital do seu Estado o nome do maior vulto dos nossos dias”, rezava a matéria de A União, a anunciar a sanção. Na hora, perante assistência que lotava o Palácio, “uma senhorinha entregou ao presidente Álvaro de Carvalho uma caneta de ouro adquirida pelo povo para que s. exc. assinasse a lei de mudança do nome da capital”, relatou A União, do dia 5. Foi assim.
Teatro Santa Roza, onde aconteceu a sessão da Assembleia Legislativa que mudou o nome da capital.
Por Sérgio Botelho- Jornalista, poeta, escritor.



PINTO DO ACORDEON – O SANFONEIRO RAIZ; Rui Leitao

Publicado no jornal A UNIÃO edição de hoje

PINTO DO ACORDEON – O SANFONEIRO RAIZ

Francisco Pereira de Lima, paraibano nascido em 18 de novembro de 1948, na cidade de Conceição, adotou em vida o nome artístico de Pinto do Acordeon. Era um artista completo, instrumentista, compositor, cantor e exímio contador de causos. Desde a infância se interessou pela música, quando já morava em Patos, cidade que o adotou como filho. No entanto, seu primeiro instrumento não foi o acordeon, mas sim a tuba, ao tempo em que fazia parte da banda de música municipal. Mas, também, tocou pandeiro, antes de se tornar o grande sanfoneiro que o Brasil conheceu. Segundo ele próprio relata: “Eu tocava uma sanfona emprestada durante a noite, enquanto o dono da sanfona que estava hospedado na casa do meu pai estava a dormir”.

Passou a ser conhecido a partir das apresentações integrando a trupe de Luiz Gonzaga. Daí em diante iniciou sua brilhante carreira artística, tornando-se um ícone da música regional. Gravou seu primeiro LP solo em 1976, quando lançou a canção “Arte Culinária”, em parceria com Lindolfo Barbosa, e que fez grande sucesso com o Trio Nordestino. Em seguida, gravou outros LPs: “As Filhas da Viúva”, em 1980, “O Rei do Forró Sou Eu”, em 1994, além dos CDs: 20 anos de estrada, De língua, Forró Cocota, Me botando pra roer, Projeto divino, Eco nordeste, Vem viver essa paixão, Deixa o dia clarear; Sertanejo, entre outros. Ao longo de sua carreira compôs 280 obras e gravou 486 músicas de vários compositores, dentre eles Genival Lacerda, Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, Fagner, Dominguinhos e Elba Ramalho. A canção “Neném Mulher”, uma das trilhas da novela “Tiêta”, da Rede Globo de Televisão, fez enorme sucesso nacional, em 1989.
Em 2008, se apresentou no grande Festival de Montreux, na Suíça, junto com outros artistas brasileiros, entre os quais Gilberto Gil, Elba, Milton Nascimento, Chico César, Flávio José e outros. A história de sua vida artística está narrada no documentário “O Brasil da Sanfona”, produzido pelo cineasta Sergio Rozemblit, com depoimentos de mais de 50 sanfoneiros. Foi também biografado pelo pesquisador do forró, desembargador Onaldo Rocha de Queiroga, no livro “Por Amor ao Forró – Pinto do Acordeon”. Durante o ano de 2010 apresentou na Rádio Tabanajara FM, o programa “Humor e Forró, com Pinto e Piancó”. Atuou, também na política como vereador eleito em João Pessoa, para o mandato de 1993 e 1997. Em setembro de 2019, a Secretaria de Estado da Cultura lhe concedeu o título de “Mestre das Artes Canhoto da Paraíba”.

Declarava que sempre se espelhou em Luis Gonzaga, de quem ouviu a afirmação: “Se não tiver a voz de vaqueiro, não tem voz apropriada para cantar forró”. E contava como viu pela primeira vez o famoso Rei do Baião. ”Quando ele foi tocar em Conceição, a primeira vez, ele estava se apresentando em um Grupo Escolar, e a gente moleque tudo em cima do telhado das casas, para assistir ele, não se tinha dinheiro para pagar. Foi quando Gonzaga disse lá do palco, – Olhe molecada vocês tudinho aí, amanhã vai ter um show de graça em praça pública, vou tocar no meio da rua para vocês que não tem condições de pagar”.
Morreu em 21 de julho de 2020, aos 72 anos, no Hospital da Beneficência Portuguesa em São Paulo, vitimado por um câncer de bexiga, problemas renais e diabetes. Nos últimos anos de vida teve que amputar uma das pernas, mas nunca perdeu seu espírito alegre, sempre bem humorado e compondo as canções que formaram a sua admirável obra artística. Na homenagem póstuma que lhe prestou, seu biógrafo Onaldo de Queiroga, afirmou: “Pinto não se foi. Ele estará sempre presente nas lembranças de suas canções, seus causos, sua alegria, seu humor contagiante, sua sanfona, sua voz forte de um sertanejo, nas letras abordando temas diversos e na amizade que se eterniza. Um artista diferenciado e um dos mais autênticos herdeiros musicais do Rei do Baião. Um amigo na essência da palavra. Como ele costumava dizer : o artista nunca morre e na sua cova nascerá um pé de flor. Deus esteja com você”.

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REPÓRTERES POLICIAIS Por Glvan de Brito

REPÓRTERES POLICIAIS Por Glvan de Brito
Nas redações dos jornais onde trabalhei nos meus 55 anos de jornalismo, constatei que os repórteres policiais eram as figuras mais curiosas da profissão, onde cada um tinha características próprias, uns pela forma outros pelo conteúdo, fugindo dos padrões. No jornal O Norte, nas décadas de 70 a 90, havia um competente repórter, chamado Juarez Felix, que se sustentou no batente até a terceira idade. Juarez era uma figura interessante: tinha a cara fechada, parecendo que estava sempre irado ou aborrecido com alguma coisa.
Quem olhasse para ele, na redação, não queria conversa. Imaginava logo tratar-se de um tipo inabordável. Isso pela forma como encarava as pessoas, com a cara de poucos amigos. Por conta dessa cara de mau humor permanente ganhou o apelido de “Juarez Bute” entre os mais íntimos (a expressão “deu o bute”, no dicionário popular, significa: quando há um acontecimento inesperado). Juarez, porém, era a melhor pessoa do mundo, incapaz de intimidar ou aborrecer qualquer ser humano, e demonstrava isso quando encontrava um amigo ou um colega na rua, onde conversava alegre e até ria, pelo canto da boca.
As aparências enganavam aqueles que pensavam diferente.
No Correio da Paraíba fui colega de outro repórter policial, chamado José de Sousa, capaz de levar ao fim do dia, quantidade insuperável de notícias do setor. Não mostrava, porém, o aprimoramento da redação. Suas matérias passavam, sempre, pela revisão de Frank Ribeiro, por conta das repetições de palavras e de contradições.
Ele escrevia rápido e nunca revisava nada daquilo que colocava no papel. Certa vez, entre as matérias que entregara ao editor da cidade, Bosco Gaspar, havia uma curiosidade: a notícia se referia a um acidente entre um veículo e um poste, no centro da cidade, causando ferimentos no motorista, e ao fim informava que o poste havia sido recolhido ao Hospital de Pronto Socorro (que ainda existia na rua Visconde de Pelotas) enquanto que a vítima fora conduzida ao depósito do Detran. Bosco chamou-o e pediu confirmação da notícia. Ele leu e em seguida garantiu: “É isso mesmo, só esqueci de dizer que a vítima não sofreu maiores consequências”.
Outro repórter competente do setor policial era Iêdo Ferreira, também do meu tempo. Conhecia todos os delegados, os agentes do Detran, da polícia rodoviária, integrantes da rádio patrulha e policiais civis e militares. Chegava ao jornal pela manhã, sentava-se diante do telefone e começava a colher informações. Quando os repórteres de outros setores estavam saindo para colher as últimas, ele deixava uma pilha de notícias prontas, com Bosco Gaspar, com as ocorrências da noite anterior e as primeiras do dia, até aquele momento. Hoje Iedo Ferreira não trabalha mais em jornal (mesmo porque fecharam (restando apenas A União, que nunca deu bola ao setor policial), mas, para não fugir à tradição foi ser assessor de comunicação, da Central de Polícia, de onde manda, eventualmente, notícias do setor para este Facebook.
REPÓRTERES POLICIAIS Por Glvan de Brito, advogado, jornalista, poeta, escritor.



O SINDICALISTA LUIZ HUGO Por Rui Leitao 

Publicado no jornal A UNIÃO edição de hoje

O SINDICALISTA LUIZ HUGO Por Rui Leitao

Um dos mais atuantes líderes sindicais da Paraíba, o bancário Luis Hugo Guimarães nasceu, em João Pessoa, no ano de 1925, na data em que é celebrado o Dia Internacional do Trabalho, coincidindo, assim, com a sua história de vida dedicada à defesa dos direitos trabalhistas. Formado em Direito pela UFPB, em 1955, foi orador da turma que seria pioneira no Curso de Ciências Jurídicas e Sociais na Paraíba. Seu espírito de liderança já se revelava desde o tempo em que frequentava os bancos escolares. Antes de se tornar bancário foi auxiliar de revisor e redator do jornal A União.

Ingressou em 1955, por aprovação em concurso público, no Banco do Brasil, lotado na agência de Natal – RN, exercendo o cargo de escriturário. Trabalhou ainda nas agências de João Pessoa, Guarabira, Porto Velho e Recife. No exercício da atividade bancária participou ativamente do movimento sindical, tendo sido presidente do Sindicato dos Bancários da Paraíba por quatro mandatos. Ocupou, também, os cargos de vice-presidente da Federação dos Bancários do Norte-Nordeste; delegado junto à Confederação Nacional dos Bancários – CONTEC e juiz classista da Junta de Conciliação e Julgamento de João Pessoa, por 12 anos.

Foi assessor sindical do governo de Pedro Gondim e serviu no gabinete do vice-presidente João Goulart. A militância política fez com que fosse incluído na primeira lista de cassações e intervenções nos sindicatos após o golpe de 64. Quando ocorreu o movimento que instaurou um governo totalitário militar, estava na presidência do Sindicato dos Bancários. Informado de que fazia parte de uma lista de procurados pelos promotores da ruptura democrática, ficou, por alguns dias, escondido na casa de um amigo, até que decidiu ir prestar esclarecimentos no 15RI – Regimento de Infantaria, por considerar que não tinha ligações com nenhum partido de esquerda, nem se classificava como um comunista, e, assim, não via motivos para ser preso. No dia seguinte ao seu depoimento, foi convocado a voltar ao quartel, oportunidade em que recebeu voz de prisão, sendo escoltado para o primeiro andar daquela base militar, lá encontrando diversos companheiros do movimento sindical, estudantil e camponês, além de intelectuais e servidores públicos.

Há um fato que merece registro, narrado por seu então companheiro na diretoria do Sindicato dos Bancários, João Fragoso. Ainda quando estava foragido, Luis Hugo recebeu a comunicação de que 20 sargentos estariam dispostos a resistir, contanto que ele fosse o comandante, o líder. Ele leu a carta que lhe foi apresentada e rasgou, afirmando: “Não tem mais jeito. Jango já saiu do Brasil. Vamos evitar que esses valorosos militares resistentes se envolvam em situação de risco”.

Ainda no mês de abril foi transferido para a Ilha de Fernando de Noronha, ali permanecendo até o mês de junho, onde dividiu espaço como ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes. Foi novamente preso em 25 de julho, em virtude da reabertura do Inquérito de Subversão pelo Major Cordeiro do 15 RI. Em setembro foi demitido do emprego de professor da UFPB. Em outubro foi transferido para a agência do Banco do Brasil em Rondônia.

Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano – IHGP, tendo sido seu presidente, reeleito para três mandatos consecutivos. Pertenceu, igualmente, ao Instituto de Genealogia e Heráldica da Paraíba. Publicou o livro 1964 – RECORDAÇÕES DA ILHA MALDITA e outros registros, em que conta a sua experiência como presidiário em Fernando de Noronha. Esse livro foi prefaciado pelo jornalista Gonzaga Rodrigues que, entre outras afirmações, coloca: “Luiz Hugo viu o ódio de frente. Ele e seus companheiros de prisão e de tortura tiveram de encarar o ódio armado, bestializado, treinado e montado para institucionalizar a traição: o dedurismo. Sem pretensões literárias, sem sacrificar sua verdade por qualquer ditame formal ou dogmático, Luiz Hugo nos leva pela mão a todos os cárceres, desde os da alma, aos do sistema”. Publicou, ainda, o livro intitulado CRÕNICAS DE UM TEMPO DISTANTE.

Faleceu em 2009, após algum tempo hospitalizado. Sua trajetória de vida fez com que fosse considerado um dos mais importantes protagonistas da história política de nosso país, notadamente durante o período em que enfrentou o arbítrio da ditadura militar que se instalou em 1964. Jornalista, escritor, historiador, ativista sindical e competente gestor público, deixou um legado a ser reconhecido e servido como exemplo para as gerações que o sucedem.

Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor.




UAS HISTÓRIAS. A pioneira Rádio Clube da Paraíba Sérgio Botelho

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UAS HISTÓRIAS. A pioneira Rádio Clube da Paraíba
Sérgio Botelho – Aproveito o domingo para falar sobre importante capítulo na história da Comunicação da atual cidade de João Pessoa, no campo da radiodifusão. Refiro-me à Rádio Clube da Paraíba, que, apesar de sua breve existência, ocupa lugar memorial significativo.
Fundada bem no início da década de 1930, foi a primeira iniciativa de radiodifusão no estado, abrindo caminho para o desenvolvimento do rádio local. A emissora surgiu da iniciativa de um grupo de entusiastas, à frente os irmãos Monteiro. Operando com equipamentos rudimentares, afora recorrentes interrupções de energia na cidade, portanto, de forma bem próxima do artesanal, a Rádio Clube transmitia sua programação basicamente por meio de alto-falantes espalhados em praças pessoenses, alcançando um público limitado. Havia bem poucos aparelhos receptores de rádio (acostumados a ouvir a Rádio Clube de Pernambuco), com certa dificuldade técnica de captar a emissora local.
A sede ficava em uma casa no bairro do Roger, na ex-avenida Miramar, hoje Gouveia Nóbrega. Mesmo com limitações técnicas, a Rádio Clube da Paraíba, que tinha como slogan “A voz de Filipeia”, transmitindo em ondas de 1.200 kilohertz, mantinha programação, em determinados horários do dia, adredemente anunciada em A União. A grade, embora simples, incluía música, notícias, debates e outros conteúdos que informavam e entretinham a população, além de promover artistas e intelectuais locais.
Na época, já estava em gestação uma das mais relevantes iniciativas culturais da capital paraibana, a Orquestra Tabajara, que, em suas formações originais, frequentou os “estúdios” da Rádio Clube. Cantores, cantoras e musicistas pessoenses, também se apresentavam com alguma regularidade na Rádio Clube. Particulares emprestavam discos, e a velha Gravadora Odeon compareceu com muitos deles à emissora. Em 1937, os fundadores da Rádio Clube doaram seus equipamentos ao governo do estado, que criou a Rádio Difusora da Paraíba, posteriormente renomeada para Rádio Tabajara, iniciando nova e gloriosa história no meio cultural e político do estado.
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O DIA EM QUE VANDRÉ FEZ HISTÓRIA; Rui Leitao

O DIA EM QUE VANDRÉ FEZ HISTÓRIA; Rui Leitao

“Vem vamos embora que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Mais de vinte mil vozes cantavam a música que se tornaria o hino da resistência contra a ditadura militar e depois passou a ser o hino de qualquer manifestação pública de protesto no Brasil. Na noite do dia vinte e nove de setembro, no Maracanãzinho, realizava-se a final da fase nacional do III Festival Internacional da Canção, e o público reagiu vaiando a música vencedora, “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, numa demonstração de insatisfação com o resultado que o júri apresentara, colocando a favorita em segundo lugar: “Pra não dizer que não falei em flores”.

Foi um acontecimento que entrou para a história. A canção de Vandré continha versos considerados subversivos e de desrespeito às Forças Armadas. Por esse motivo, foi recomendado ao júri que não a colocasse como vencedora do Festival. Ao iniciar sua apresentação Vandré ainda ouvia o protesto da plateia e reagiu gritando: Gente, a vida não se resume a festivais. Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque merecem todo o nosso respeito. Não pensem que me apoiam vaiando. Depois a multidão passou a cantar junto com ele a letra da música.

Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, o “Geraldo Vandré”, nome que adotou como artista, a partir daquele momento, não seria mais o mesmo. As forças militares passaram a persegui-lo e ameaçaram proibir a venda e divulgação da música, o que aconteceria após a edição do AI-5, em dezembro de 1968. Estava em Anápolis, no dia treze de dezembro, data em que o presidente Costa e Silva baixava o Ato Institucional que atingia mortalmente a democracia brasileira e cerceava as liberdades individuais dos brasileiros.

Tornou-se uma figura enigmática. Falam que o seu afastamento da vida artística, seu isolamento e o seu comportamento um tanto confuso se deram em razão de torturas que teria sofrido em interrogatórios nos quartéis. Não quis mais ser chamado de Geraldo Vandré. Jair Rodrigues, que interpretou uma de suas músicas célebres, Disparada, conta que em certa oportunidade ao lhe tratar por Geraldo Vandré, teria recebido dele a seguinte reprimenda: “Eu sou Geraldo Pedrosa. Geraldo Vandré morreu em 1968”.

Quando retornou do exílio, em 1973, concedeu entrevista ao Jornal Nacional, que intrigou a esquerda brasileira e seus simpatizantes, ao elogiar a ditadura e negar que tivesse sido torturado pelos militares. Em declarações à imprensa depois que voltou, disse, entre outras afirmações, que: “As Forças Armadas, propriamente ditas, não têm nada contra mim. Não tomaram nenhuma iniciativa contra mim”. “Nunca fui constrangido a declarar que não tive militância política. Nunca pertenci a nenhum partido. Não fui obrigado a dizer que não era militante”.

Inexplicavelmente adotou, no seu vestuário, as insígnias da aeronáutica. Ainda hoje, hospeda-se de vez em quando em hotéis daquela corporação militar e compôs uma música em homenagem à Força Aérea Brasileira – FAB, intitulada “Fabiana”. No entanto, antes de ser atingido pela repressão, falando ao jornal Correio da Paraíba, no início de outubro, declarou: Cantarei “Caminhando” até na cadeia, bastando ter um violão. Não me cabe julgar a Censura ou os que estão ameaçando cassar minha música, pois não entendo de legislação de Segurança Nacional. Caso o fato venha a ser consumado, saberei agir dentro da realidade. Não fui ainda proibido de cantar minha composição no festival e estou muito triste com a má interpretação de um verso da minha letra, que acredito tenha provocado todo o problema. Quando eu digo, “nos quartéis lhes ensinam lições, de morrer pela pátria e viver sem razões”, não pretendi atingir o exército exclusivamente, mas todas as organizações ou instituições que isolam as pessoas da vida. Eu disse uma verdade, todos consideram isto. Temos, de fato, nos dias atuais, muitas organizações que privam as pessoas de viver. Até alguns militares concordam com o meu verso. Ele diz tudo o que penso e por ele me responsabilizo.

Geraldo Vandré entrou para a história nacional, naquela noite, para orgulho nosso. O lamentável é que o episódio tenha trazido para ele consequências danosas. Tornou-se um homem triste e parece viver sempre num estado de terror.

Continuemos cantando sua canção: “Os amores na mente, as flores no chão. A certeza na frente, a história na mão. Caminhando e cantando e seguindo a canção/Aprendendo e ensinando uma nova lição”.

Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor




Ode a Tambaú Por Sérgio Botelho

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Ode a Tambaú
Por Sérgio Botelho
Eita Tambaú querida,
Quantos sonhos embalaste!
E em tua cama de areia
Quantos amores ligaste!
Ligaste na lua cheia,
Com teus sussurros ousados,
Transformando amores vãos
Em delírios impensados.
Delírios com procedência
Nesse teu jeitão selvagem,
Pois o progresso do entorno
Não te viola a paisagem.
Paisagem tão venerada,
Que até as ondas bravias,
Ao lhe tocarem a praia,
Tratam de ser mais macias.
Macias porque respeitam
Tua encantada beleza,
Que na orla da cidade
Te dá destaque e nobreza.
Nobreza feita de adornos
De barcos e pescadores
Que no teu largo sereno
Cultivam dores e amores.
Dores e amores herdados
Da terra e altos mares,
Da vida de todo dia,
De lidas peculiares
Peculiares segredos
De ordem santa e profana,
Preservados na memória
Da gente paraibana.
Por Sérgio Botelho- Jornalista, poeta, escritor



A CASSAÇÃO DO DEPUTADO ALENCAR FURTADO Por Rui Leitao

A CASSAÇÃO DO DEPUTADO ALENCAR FURTADO Por Rui Leitao

Na segunda metade da década de 70, um grupo de políticos do MDB se destacava pela atuação corajosa de enfrentamento ao regime militar. Era chamado de “MDB Autêntico”, do qual fazia parte o deputado federal paraibano Marcondes Gadelha. Ao encontrar uma brecha na legislação restritiva da ditadura, o MDB decidiu gravar um programa de 40 minutos para ser veiculado em rede nacional obrigatória na TV. O governo tomando conhecimento disso tentou sustar a divulgação do programa, mas a Justiça Eleitoral indeferiu o pedido.

Participaram do programa quatro integrantes do partido: o presidente da agremiação, Ulysses Guimarães, o líder no Senado, Franco Montoro, o líder na Câmara, Alencar Furtado e o presidente do Instituo Pedroso Horta, deputado Alceu Collares. Na oportunidade condenaram o AI-5, criticaram o arrocho salarial e abordaram a questão da violação aos direitos humanos. Foi ao ar na noite do dia 27 de junho de 1977, uma segunda-feira, antes do Jornal Nacional. Portanto, em horário considerado nobre na TV.

O pronunciamento mais incisivo foi do deputado Alencar Furtado. Eis o trecho que mais incomodou os ditadores: “Sempre defendemos os direitos humanos. Hoje, menos do que ontem, ainda se denunciam prisões arbitrárias, prisões injustas e desaparecimento de cidadãos. O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana, para que não haja lares em prantos, filhos órfãos de pais vivos — quem sabe? — mortos, talvez. Órfãos do talvez ou do quem sabe. Para que não haja esposas que enviuvem com maridos vivos, talvez, ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe e do talvez”. Rendeu homenagem a parlamentares cassados, presos e exilados, bem como aos cidadãos atingidos pela repressão política do regime.

Três dias depois o presidente da República, general Ernesto Geisel, usando o Ato Institucional número 5, cassou o mandato parlamentar do líder da oposição na Câmara, e determinou a abertura de processo contra Ulysses Guimarães com base na Lei de Segurança Nacional, sendo absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A nota oficial de 5 linhas, distribuída pelo Ministério da Justiça, divulgando a cassação, não apontava o motivo da decisão. Pela segunda vez o AI-5 era utilizado para cassar um líder da oposição. No parlamento a reação foi de surpresa e de irritação. Menos para alguns líderes arenistas, que contrariados, manifestaram insatisfação com o procedimento do MDB. O deputado José Bonifácio, chegou a declarar: “Toda vez que o Governo quer fazer a distensão, vem o MDB e atrapalha. É a minha velha tese: o MDB não quer a distensão”.

Resignado, Alencar Furtado, ao saber de sua cassação, assim se pronunciou: “É isso mesmo. A luta continua e não podemos ficar no meio do caminho. Muitos companheiros já passaram por isso. Saio tangido da vida pública com a consciência tranquila, porém, lamento não poder continuar, pois existe ainda muita coisa a ser feita.” Ulysses Guimarães convocou uma reunião extraordinária da Executiva Nacional para emitir nota oficial se posicionando a respeito. “Trata-se de uma cassação profundamente injusta. Ele foi punido sem ser ouvido, sem ser julgado publicamente”, afirmou.

Essa foi a última das cassações pelo regime militar, o 173º. parlamentar castigado pelo AI-5 durante os 13 anos em que esteve vigente, a 36ª. cassação do governo Geisel e o último ato punitivo assinado na condição de presidente da República. Esse episódio, com certeza, é um dos mais emblemáticos da história política nacional, ao tempo em que o Brasil viveu sob uma ditadura militar por longos e tenebrosos 21 anos.

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. As velhas retretas pessoenses Sérgio Botelho

Na foto, o Pavilhão do Chá, atualmente.
PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. As velhas retretas pessoenses
Sérgio Botelho
– Concorridas eram as retretas nas atuais praças João Pessoa (antiga Comendador Felizardo) e Venâncio Neiva, na primeira metade do Século XX. Os referidos eventos, geralmente animados pelas bandas da Força Pública (Polícia Militar) e do 22º Batalhão de Caçadores (depois 15º Regimento de Infantaria), criavam um ambiente propício para o encontro de jovens (destacadamente) e adultos.
Naquele período histórico, onde as normas sociais eram bem conservadoras, as retretas ofereciam chance legítima e socialmente aceita para que a sociedade interagisse. As famílias frequentemente compareciam em conjunto, mas era natural que os jovens encontrassem momentos para trocar olhares, sorrisos e iniciar conversas sutis sob a atmosfera envolvente da música ao vivo. A disposição espacial das retretas, em torno do coreto, na Praça João Pessoa, e do Pavilhão do Chá, na Venâncio Neiva, permitia livre circulação dos participantes.
As moças, sobretudo, deixavam o confinamento, somente aliviado pelas janelas de suas casas, onde se debruçavam para observar os passantes, e, quem sabe, estabelecer alguma paquera. Na retreta, o ambiente descontraído atenuava as rígidas barreiras sociais vigentes, tornando o flerte mais fácil. Além disso, a música desempenhava papel catalisador nesses encontros. Canções românticas ou melodias conhecidas estimulavam as conversas.
As retretas das praças João Pessoa e Venâncio Neiva, portanto, foram verdadeiros pontos de convergência social. Em muitas narrativas familiares, antigamente, era comum ouvir histórias de casais que se conheceram ou estreitaram laços, naquelas circunstâncias. Dessa maneira, o significado das antigas retretas da cidade reside na criação de um espaço onde a música e a convivência social se encontravam, permitindo que relações pessoais florescessem em ambiente acolhedor e festivo, além dos limites residenciais. Elas representam um capítulo importante na história das relações sociais e comunitárias, na capital paraibana.
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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. A Festa das Neves tem data oficial de origem Sérgio Botelho

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FOTO: Ortilo Antônio, de A União.
PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. A Festa das Neves tem data oficial de origem
Sérgio Botelho
– Muito se discute sobre a origem da tradicional Festa das Neves, em João Pessoa, que ocorre normalmente entre 27 de julho e 5 de agosto. O ponto alto do evento coincide com a data da conquista da capitania, 5 de agosto, justamente o dia dedicado à padroeira Nossa Senhora das Neves.
Assim procediam os portugueses com a nomeação de suas descobertas e inaugurações topográficas. Assim, logo nos primeiros meses, foi erguida, no alto da colina, que assomava junto ao Rio Sanhauá, o nosso berço, uma capela bem simples, bem tapera, a ela dedicada. Após demolições e reformas, no correr dos séculos, a igreja foi concluída, nos moldes atuais, em 1881, conforme está inscrito na parede da entrada do templo, à direita.
Sabemos que as celebrações em honra aos santos e santas sempre ocupam destaque na prática religiosa da Igreja Católica. Ainda mais quando definidas ou definidos como padroeiras ou padroeiros, ou seja, protetoras ou protetores de uma cidade, região ou país. Dessa forma, é de se supor que desde os primeiros anos de existência da cidade, ainda nos finais dos anos 1500, na data de 5 de agosto, tenham sido prestadas regulares homenagens à Nossa Senhora das Neves, ao menos na forma das tradicionais novenas.
No entanto, a eminente parte profana assumida pela data parece ter origem oficial na lei 870, de 24 de novembro de 1888, já proclamada a Lei Áurea, e cerca de 7 anos após inaugurada a nova igreja dedicada à padroeira, quando presidia a província, ainda no período monárquico, Manoel Dantas Correia de Góis, nascido mesmo na cidade de Parahyba (atual João Pessoa), dessa forma, identificado com as tradições da urbe. A referida lei declarou como “feriado e de festa estadual o dia 5 de agosto em comemoração da conquista da Parahyba”, sendo clara, port anto, sobre a motivação cívica do “feriado e da festa estadual”.
Como as duas coisas, a conquista e a data da padroeira, existem historicamente uma em função da outra, começaram para valer os festejos, ainda à luz de lampiões e candeeiros, que, sem o feriado decretado, certamente não teriam o mesmo brilho e participação. Seja como for, temos dia, ano e mês, com feriado e tudo, e de âmbito estadual, para remontar nosso calendário, e temporalizar a mais pessoense das festas profano-religiosas da cidade, tradicionalmente sediada na atual Avenida General Osório, o que não acontece mais.
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