Faltou governo ou faltou sorriso?; Rui Leitao 

Faltou governo ou faltou sorriso?; Rui Leitao

Há rompimentos na política que nascem de divergências legítimas: discordâncias programáticas, conflitos de visão administrativa, mudanças de rumo. Mas há outros que parecem brotar de um motivo tão frágil que acabam revelando mais sobre quem rompe do que sobre quem é abandonado.

Torna-se um caso curioso na crônica política, alguém apresentar como justificativa para deixar a base do governo, a alegação de que falta sorriso por parte do governador. O detalhe que chama atenção não é apenas o motivo em si, mas o momento em que ele foi descoberto: quando resta pouco tempo para o fim do mandato.

É inevitável a pergunta que paira no ar: essa ausência de sorriso não existia antes?

Principalmemte, quando se trata de liderança política que, durante todo o período do governo, participou da administração, ocupando espaços, usufruindo das prerrogativas e dos benefícios políticos de estar no poder. Não se ouviu, até agora, qualquer manifestação pública de incômodo com a suposta falta de cordialidade do chefe do Executivo. Pelo contrário, a convivência pareceu suficientemente confortável para justificar a permanência.

A política, como a vida pública em geral, exige franqueza e coerência. Quando alguém rompe, espera-se que apresente razões consistentes, ligadas ao interesse público, às políticas adotadas, às prioridades administrativas ou às demandas da sociedade. Afinal, governar um Estado é lidar com problemas concretos: saúde, educação, infraestrutura, segurança, desenvolvimento econômico.

Nada disso foi mencionado. O problema, ao que parece, era o sorriso.

A situação chega a soar paradoxal. Trabalhar para responder às necessidades da Paraíba deveria ser a medida principal de avaliação de qualquer governo. No entanto, para alguns, mais relevante do que discutir resultados, políticas ou projetos é avaliar a expressão facial do governante.

Talvez seja um sinal de nossos tempos políticos: a aparência às vezes pesa mais do que a substância.

Mas há também outro aspecto que não pode passar despercebido. Quando a crítica só surge no apagar das luzes de uma administração — depois de anos de convivência, cargos e benefícios políticos — ela inevitavelmente perde força moral. Parece menos uma convicção e mais uma conveniência.

No fundo, o episódio lembra uma velha lição da política: há quem se preocupe em servir à sociedade e há quem se preocupe apenas em preservar a própria posição no tabuleiro.

Se o critério para permanecer ou romper com um governo fosse realmente o sorriso do governante, a política deixaria de ser espaço de decisões públicas e passaria a ser apenas um exercício de etiqueta.

E, nesse caso, talvez o que estivesse faltando não fosse o sorriso do governador — mas a sinceridade de quem só percebeu isso quando o governo já está terminando.

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Um cassino que nunca foi dedicado a jogo Sérgio Botelho*

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Um cassino que nunca foi dedicado a jogo
Sérgio Botelho*
– O capítulo Cassino da Lagoa está inscrito entre os textos do meu segundo livro “João Pessoa – Uma Viagem Sentimental”. Mas não custa retomá-lo, a título de explorar um pouco a sua denominação.
Logo de início, é preciso dizer que aquele Cassino, hoje funcionando como restaurante da iniciativa privada, já desempenhou diversas funções em João Pessoa, exceto a de casa de jogos, como geralmente se entende.
É que o termo também possui outra conotação. Em muitas ocasiões, designa uma casa de convivência, um clube elegante destinado a bailes, concertos, saraus e encontros sociais.
Num contexto mais restrito, por exemplo, muitos quartéis das Forças Armadas no Brasil possuem seus Cassinos, onde militares, sobretudo oficiais, fazem refeições e encontram um espaço de socialização.
Foi justamente como centro social e recreativo que surgiu o Cassino de Verão, primeiro nome do equipamento inaugurado no final da década de 1930, no Parque Solon de Lucena, local que concentrava grande atenção do poder público à época.
O Cassino, como a população costuma chamar, viveu na sua primeira fase, especialmente nos anos 1940, como ambiente para dança de salão, com direito a bar e acesso aberto ao público.
Entre as décadas de 1950 e 1960, o Cassino tornou-se tribuna privilegiada para grandes comícios na cidade, com destaque para os períodos de campanhas eleitorais.
Ainda nos anos 1960, o Cassino passou a servir como restaurante universitário, quando as faculdades estavam espalhadas por diversos pontos do Centro de João Pessoa e até pelo bairro de Jaguaribe.
O fim do Cassino enquanto restaurante universitário coincidiu com a construção do Campus Universitário, instalado na antiga Granja São Rafael, que passou a contar com prédio exclusivo para refeições dos estudantes.
Forjado em concreto armado, o Cassino da Lagoa atravessa os tempos como edificação marcante da cidade, situado em um dos cenários mais belos de João Pessoa.
*Sérgio Botelho é jornalista e escritor
https://paraondeir.blog/um-cassino-que-nunca-foi-jogo/

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Infância submetida ao funil social; Rui Leitao

Infância submetida ao funil social; Rui Leitao

Durante cerca de quarenta anos, o sistema educacional brasileiro submeteu crianças a um ritual de seleção precoce: o exame de admissão ao ginásio, exigido após a conclusão do curso primário. Até 1971, meninos e meninas entre 10 e 12 anos eram lançados a uma lógica de competição e exclusão que revelava, desde cedo, o caráter profundamente desigual da escola brasileira.

 

Era uma espécie de vestibular infantil — um ENEM antecipado, quando o Estado ainda se recusava a assumir a educação como direito universal. As vagas no curso ginasial eram poucas, e, em vez de expandir a oferta, optava-se por filtrar, selecionar, excluir. O exame de admissão funcionava como uma barreira social: quem vinha das camadas populares, sem acesso a boas escolas primárias, ficava pelo caminho. A escola, assim, deixava de ser instrumento de emancipação para se transformar em mecanismo de reprodução das hierarquias sociais.

 

Prosseguir nos estudos não era um direito; era um privilégio conquistado a duras penas. A meritocracia precoce escondia a desigualdade de condições e naturalizava o fracasso escolar como incapacidade individual, quando, na verdade, se tratava de uma política deliberada de restrição do acesso ao saber.

 

Tendo saído do Seminário, onde cursei os últimos anos do primário, transpus com relativa facilidade essa etapa da minha vida estudantil. Os seminários católicos, por razões próprias, investiam na formação intelectual rigorosa, o que contrastava com a precariedade da escola pública oferecida pelo Estado. Ainda no primário, estudávamos latim, o que facilitava o domínio da língua portuguesa. O Seminário foi, portanto, uma base decisiva para que eu pudesse enfrentar um sistema educacional concebido para poucos.

 

Ao perceber que não possuía vocação sacerdotal, dispus-me a prestar o exame de admissão no Colégio Pio XII, também pertencente à Arquidiocese da Paraíba, instalado ao lado da Igreja de São Francisco. O Seminário funcionava nos fundos da igreja, numa geografia simbólica em que a Igreja supria, em parte, as omissões históricas do poder público no campo educacional.

O exame consistia em provas escritas de Português, Matemática, História, Geografia e Ciências. O nervosismo era coletivo: entre os candidatos e entre as famílias, que depositavam naquele teste a esperança de romper o ciclo de exclusão. A educação era tratada como uma porta estreita, não como política pública universal.

 

Somente no início da década de 1970 o governo decidiu extinguir o exame de admissão ao ginásio. A medida, ainda que tardia, reconhecia implicitamente que submeter crianças a um funil seletivo era uma violência pedagógica e social. A educação não deveria ser uma corrida de obstáculos, mas um direito garantido pelo Estado.

 

Relembrar o exame de admissão é, portanto, recordar uma pedagogia da exclusão. É também lembrar que a democratização do ensino no Brasil sempre foi resultado de lutas, não de concessões espontâneas. A escola pública, gratuita e universal é uma conquista política, e toda tentativa de restringi-la, seletivizá-la ou mercantilizá-la precisa ser denunciada como aquilo que é: um projeto de negação do futuro para as maiorias populares.

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A RESILIÊNCIA DAS MARGARIDAS; Gilvan de Brito

A RESILIÊNCIA DAS MARGARIDAS
Tem três pés de margaridas aqui no jardim que me dão lições de resiliência diante da devastação que sofrem em dias e em tempos, mas reagem e se reincorporam de formas esplendorosa. Meu filho arranca os pés floridos a pedido da mãe, por considerá-las ervas daninhas, mas elas renascem, meses após, com a mesma exuberância com a mesma força e insistência igual àquela planta chamada “Comigo ninguém pode”, esta sim, daninha porque não tem flores a exibir espalhadas em leques.
Quando as margaridas estão no auge, com um metro de altura e dezenas de flores, eu me sento diante do pé que mais cresce, e fico segundos, minutos e horas admirándo-as, como inefável produto da natureza. Muitas vezes eu tenho um impulso para retirar uma daquelas belíssimas pétalas e admirá-las de perto, o amarelo bordado de verde nos extremos, mas me contenho, e a preservo pelo simbolismo que representam.
Também duram pouco tempo, uma semana, e se mostram poucas horas, quando o sol começa a esquentar abrem-se, quando o sol produz calor, se fecham; coisa de duas a três horas por dia. Recolhem-se de uma forma curiosa, como um palito. Ninguém é capaz de garantir que vão desabrochar no dia seguinte. Mas elas se abrem e, pelo modo como se exibem, parecem dizer “estou aqui venham me ver, talvez pela última vez!”.
Sei de mim que não interfiro neste ritual do abre e fecha, arranca, renasce, porque tenho a certeza de que elas aguardam o momento de reviverem, e isso me dá uma lição: A vida continua. Eu acho que as margaridas têm uma alma que ressurge noutro corpo, como acontece conosco, os humanos.

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A Guerra Ideológica contra a Universidade Pública Por Rui Leitao 

A Guerra Ideológica contra a Universidade Pública Por Rui Leitao

O vídeo postado recentemente pela família do ex-jogador de futebol Túlio Maravilha, no qual afirma não concordar que a filha se matricule em uma universidade pública, integra uma ofensiva ideológica destinada a deslegitimar as instituições de ensino superior custeadas pelo Estado. Sob o argumento de preservar “valores familiares”, o casal reforça o velho e seletivo falso moralismo das elites, que veem na educação pública um espaço incômodo de crítica social e pluralidade de ideias.

É cada vez mais evidente a existência de um projeto político para desmontar a universidade pública. Esse projeto não se limita ao discurso: materializou-se em cortes orçamentários sistemáticos, que provocaram asfixia financeira, comprometeram o custeio, os investimentos, a assistência estudantil e reduziram bolsas de pesquisa. Trata-se de uma ofensiva conduzida por lideranças da extrema direita, com apoio de setores da elite econômica e cultural, que pretendem submeter o ensino superior à lógica neoliberal, extinguindo a gratuidade e transferindo recursos públicos para instituições privadas.

Multiplicam-se ataques que tentam rotular as universidades públicas como ineficientes, irrelevantes e ideologicamente “doutrinadoras”. Recusam-se a reconhecer que nelas se produz a maior parte do conhecimento científico do país, que se desenvolvem pesquisas estratégicas e que se formam profissionais altamente qualificados. Esse negacionismo é político. Suas consequências são concretas: fuga de cérebros, sucateamento de laboratórios, dificuldades de permanência para estudantes pobres e um ambiente de intimidação que ameaça a liberdade de cátedra.

Os inimigos da universidade pública não toleram que ela seja espaço do contraditório e da crítica. Rejeitam a ideia de que ciência, tecnologia e conhecimento sejam instrumentos de emancipação social.

Declarações como as do casal Túlio Maravilha reforçam a narrativa de “doutrinação de esquerda” e “balbúrdia”, estigmatizando professores e pesquisadores e expressando a histórica aversão das elites brasileiras a uma universidade gratuita, inclusiva e crítica.

Defender a universidade pública é defender a soberania científica, a mobilidade social e a democracia. Enquanto instituição pública, ela não serve ao lucro, mas ao interesse coletivo. Atacá-la é atacar o futuro do país. Em síntese, esses ataques não são apenas contra as universidades, mas contra a própria democracia.

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Breve relato do poder municipal em João Pessoa Sérgio Botelho

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Breve relato do poder municipal em João Pessoa
Sérgio Botelho* – Na crônica desta sexta-feira, 13, ao falar sobre a Praça Rio Branco — de vocação cívica permanente —, abordei um aspecto particular do poder nas cidades dos tempos da Colônia e do Império: o governo municipal ficava a cargo dos membros das Câmaras (na Colônia, vereadores e funcionários com funções específicas, inclusive judiciais, no Império, vereadores, excluída a função judicial).
Essa configuração colegiada, no governo das cidades somente mudou após a Constituição de 1891, a primeira da República, que deu autonomia aos estados para criar municípios e nomear seus administradores, os intendentes. Um quadro que não se alterou muito após a Revolução de 1930, quando os prefeitos continuaram a ser nomeados pelos governadores.
Somente após 1945, com o fim do Estado Novo, é que houve eleição direta para prefeito. Então, no pleito de 12 de outubro de 1947 foi eleito de forma direta, pela primeira vez em toda a sua história, o primeiro prefeito democrático de João Pessoa.
O primeiro eleito para o cargo pelo voto popular foi Osvaldo Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, que já havia sido prefeito nomeado na época da ditadura varguista. Até a eleição de 1947, houve 25 gestões, exercidas por intendentes ou por prefeitos nomeados, contando da Proclamação da República.
A partir daí, contando com Osvaldo, João Pessoa teve apenas cinco prefeitos eleitos até o Golpe de 1964, sendo o último deles Domingos Mendonça Neto. Em 1985, rompendo o ciclo, foi eleito diretamente o médico Antônio Carneiro Arnaud.
Desde Carneiro Arnaud, já se vão mais de 40 anos, foram nove os prefeitos eleitos pelo povo, alguns deles beneficiados pela reeleição. Um deles, Carlos Mangueira, foi eleito vice-prefeito e assumiu no lugar do titular, Wilson Braga, que se afastou para disputar o governo do Estado.
(Sobre a lista de intendentes e prefeitos, com respectivos tempos de mandato, me vali de informações da Wikipedia; sobre a gestão municipal, do trabalho Câmaras Municipais, do Arquivo Nacional, assinado por Angélica Ricci Camargo).
*Sérgio Botelho é jornalista e escritor
(Os textos destinam-se, sobretudo, às redes sociais, onde o espaço é limitado; por isso, tenho o hábito de guardar as fontes utilizadas. A partir de agora, porém, sacrificarei ainda mais a extensão das postagens para incluí-las, ao menos as mais relevantes).
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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Sobre o conjunto arquitetônico do Ponto de Cem Reis Sérgio Botelho*

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Sobre o conjunto arquitetônico do Ponto de Cem Reis
Sérgio Botelho*
– Atualmente em reforma, a Praça Vidal de Negreiros, em João Pessoa, mais conhecida como Ponto de Cem Reis (por conta dos preços das passagens dos bondes que ali faziam ponto, entre o final do Século XIX e começo do XX), já experimentou diversas configurações em sua existência.
No final do Século XIX, se constituía num espaço com duas construções mais importantes: a mansão do Barão do Maraú (o dono de engenho José Teixeira de Vasconcelos, que viveu entre 1798 e 1873) e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos).
Antes disso, o local era rota do sangradouro das águas da Lagoa, na direção do rio, no Varadouro. A primeira intervenção urbana, transformando essa serventia original, ocorreu quando do início (Século XVII) da construção da Igreja já referida, concluída no XVIII. (A informação pode ser encontrada no trabalho intitulado “Revitalização do ‘Ponto de Cem Reis’: Usos e Contra Usos”, da professora PhD, Liana Miranda Chaves, da UFPB, apresentado em 2014, no 23º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, na cidade de Belo Horizonte-MG).
Entre as décadas de 1920 e 1930, as demolições da Igreja do Rosário, para a construção da Praça Vidal de Negreiros, e da mansão do Barão de Maraú, para a edificação do Paraíba Hotel, apagou o que podia ser considerado o panorama arquitetônico mais antigo daquele espaço urbano.
Hoje, o conjunto arquitetônico da praça é composto por edificações posteriores sem que, por isso, percam em importância. Entre elas, o antigo prédio de As Nações Unidas, o do antigo Ipase e o edifício Duarte da Silveira.
Os dois primeiros, estão em processo de revitalização e requalificação, junto com a própria praça, aos cuidados da Prefeitura de João Pessoa. Os prédios virarão moradias, dentro do programa federal Minha Casa, Minha Vida, bem como lojas para pequenos negócios.
*Sérgio Botelho é jornalista e escritor
(Na foto, a antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário, vista da Rua Duque de Caxias)
PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Sobre o conjunto arquitetônico do Ponto de Cem Reis - Memória Paraibana
paraondeir.blog
PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Sobre o conjunto arquitetônico do Ponto de Cem Reis – Memória Paraibana



MERITOCRACIA: IDEOLOGIA DO PRIVILÉGIO ; Rui Leitao

MERITOCRACIA: IDEOLOGIA DO PRIVILÉGIO

Vivemos em um país marcado por desigualdades estruturais profundas, herdadas de um passado colonial, escravocrata e autoritário, que continuam a moldar e limitar as trajetórias sociais. Ainda assim, difunde-se a ideia de que o esforço individual seria suficiente para prosperar na vida. Essa narrativa atende pelo nome de meritocracia. O termo foi cunhado em 1958 por Michael Young, no livro A Ascensão da Meritocracia, como uma crítica às sociedades que definem as posições sociais a partir do desempenho, descrevendo-a como um sistema que divide a sociedade entre “vencedores arrogantes e perdedores amargurados”.

O discurso neoliberal e conservador sustenta que todos são livres para competir, investir em si mesmos e colher os frutos do próprio esforço, ignorando deliberadamente a realidade concreta de milhões de brasileiros que, mesmo com dedicação, não conseguem romper o cíclo da pobreza. Trata-se de uma ideologia que converte privilégios históricos em mérito individual, naturalizando desigualdades e estimulando a competição entre desiguais. Mérito sem igualdade de oportunidades não produz justiça social; legitima o privilégio.

A meritocracia funciona como instrumento de dominação simbólica ao deslocar a responsabilidade das desigualdades do Estado e do sistema econômico para o indivíduo, absolvendo as elites de qualquer compromisso com a justiça social. É imperativo fortalecer políticas públicas de proteção social e romper com a hegemonia neoliberal consolidada nas últimas décadas, marcada por flexibilização trabalhista, precarização do emprego, desmonte de direitos sociais e financeirização da economia, que subordina o trabalho ao capital e amplia a concentração de renda.

A linha de largada nunca foi igualitária. Os pobres enfrentam obstáculos estruturais como educação precária, exclusão territorial, racismo, patriarcado e ausência de políticas públicas consistentes. O resultado é uma desigualdade ainda maior na linha de chegada, perpetuando a exclusão social.

Os defensores da meritocracia acusam as políticas de inclusão de assistencialismo, enquanto trabalham para corroer o Estado de bem-estar social e preservar privilégios. Michael Sandel, em A Tirania do Mérito, demonstra como esse discurso aprofunda a polarização, desvaloriza o trabalho digno e glorifica apenas o sucesso dos “vencedores”, culpabilizando os “perdedores” e intensificando a exploração do trabalho.

A meritocracia converte-se, assim, em ideologia funcional ao capitalismo contemporâneo, ao fragmentar a solidariedade social e enfraquecer a luta coletiva por direitos. Se quisermos construir uma sociedade verdadeiramente democrática, é fundamental uma educação pública emancipadora e políticas que promovam equidade, diversidade e inclusão, substituindo a competição predatória pela cooperação e pela dignidade humana.

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. O teatrólogo José Bezerra, As Nações Unidas e o Salão Império Sérgio Botelho

JORNALISTA IÊDO FERRERA, JORNALISTA E ESCRITOR SÉRGIO BOTELHO

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. O teatrólogo José Bezerra, As Nações Unidas e o Salão Império
Sérgio Botelho

 

– A respeito do prédio das Nações Unidas, no Ponto de Cem Reis, sobre o qual escrevi, neste domingo 8, recebi do amigo teatrólogo, artista plástico e escritor José Bezerra, as seguintes observações, que seguem reproduzidas, na íntegra:
“Eu sempre detestei esse tal prédio das Nações Unidas, em João Pessoa, porque, para construí-lo, tiveram que derrubar dois pontos que foram marcantes na transição da minha infância para a adolescência.
O primeiro era a banca de revistas, que ficava ao lado da Praça Vidal de Negreiros. Correu o boato de que ali era a única banca da cidade que vendia balas Seleções, com a figurinha do elefante — estampa que, acredito, nunca foi impressa, para que ninguém enchesse os álbuns e nunca ganhasse os prêmios prometidos. Era também o ponto de encontro mais procurado da cidade para a comercialização, a troca, o escambo das balas Seleções.

 

Os bondes vinham lotados de crianças, adolescentes e até adultos de todos os bairros da cidade — Oitizeiro, Cruz das Armas, Jaguaribe, Róger, Tambiá, Torre, Mandacaru, Expedicionários (em construção)… e mais não havia. Alguns dos frequentadores traziam até marmitas.
O outro ponto de sedução destruído para a elevação do citado edifício foi o Salão Império, onde aprendi a jogar sinuca. Ficava na Padre Meira, mas com a entrada principal voltada para o terreno baldio, onde se reunia a maloca das balas Seleções.

 

Foi ali que aprendi a jogar sinuca e enterrei dois anos de repetência na primeira série do ginásio, no Liceu, situado ali bem pertinho. Gazeava as aulas para procurar elefantes e me viciar em sinuca, no Ponto de Cem Réis.
Meu pai nunca entendeu que aquele meu comportamento não era apenas irresponsabilidade… era o prenúncio de um desabrochar poético, lírico, sonhador — de um hoje, octogenário, eterno aprendiz de poeta provinciano.

 

Que sonha ainda em escrever uns dez romances, sua biografia, reeditar toda a sua obra e ganhar sozinho uma Mega-Sena da Virada… mesmo sabendo que, para essa última, só tem uma chance de ganhar entre 1.500.063.860 (um bilhão, cinquenta milhões, sessenta e três mil, oitocentas e sessenta) chances de perder.
Pelo menos, há uma chance. Bem mais fácil do que achar um elefante no Ponto de Cem Réis, porque a imagem do elefante nunca foi impressa.”

 

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. O teatrólogo José Bezerra, As Nações Unidas e o Salão Império


(A foto mostra o espaço onde depois foi construído o prédio da loja As Nações Unidas, no Ponto de Cem Réis. O Salão Império é o prédio menor, à direita)

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A Nova Escalada Intervencionista Por Rui Leitao

A Nova Escalada Intervencionista Por Rui Leitao

Os Estados Unidos se valeram do colapso da União Soviética, em 1991, para intensificar suas políticas intervencionistas na África, na Europa Oriental e no Oriente Médio. O conflito ideológico que dividiu o mundo entre os polos capitalista e comunista, no pós-Segunda Guerra Mundial, perdeu força, mas não eliminou o intervencionismo como instrumento de poder. Tanto EUA quanto URSS recorreram, ao longo do tempo, a intervenções políticas, econômicas e militares para preservar interesses estratégicos e ampliar suas áreas de influência. Estima-se que, entre 1776 e 2026, os Estados Unidos tenham realizado cerca de 400 intervenções militares, sendo aproximadamente metade delas no período pós-Guerra Fria.

O governo Trump 2.0 reforça uma política externa orientada pelo lema America First, resgatando princípios da Doutrina Monroe e do Corolário Roosevelt para reafirmar a primazia dos EUA no Hemisfério Ocidental. Trump busca se colocar como uma espécie de “polícia hemisférica”, legitimando intervenções por meio de pressões diplomáticas, sanções econômicas, confisco de ativos, processos judiciais em jurisdições estrangeiras e, quando julga necessário, pelo uso direto da força. A crescente presença chinesa como principal parceiro comercial da América Latina representa um desafio adicional à hegemonia estadunidense no continente.

Observa-se, assim, um esforço explícito do atual governo norte-americano para ampliar o envolvimento dos EUA nas Américas, combinando políticas protecionistas com medidas agressivas de deportação. A estratégia intervencionista tem sido pouco dissimulada, revelando a intenção de reorganizar a ordem hemisférica sob liderança exclusiva de Washington. No segundo mandato, Trump demonstra disposição em expandir e consolidar a influência dos Estados Unidos na região.

Essa escalada da política externa de Washington normaliza o uso unilateral da força em uma região historicamente marcada por intervenções, tutelas e recorrentes ameaças à soberania. O ataque à soberania da Venezuela exemplifica essa postura, ao violar princípios do direito internacional que proíbem o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política dos Estados. Subordina-se a legalidade à capacidade de intervenção, enquanto a noção de segurança passa a ser definida de forma unilateral.

Não se trata apenas de um impasse geopolítico, mas de uma ameaça à democracia, ao privilegiar a coerção em detrimento da diplomacia. Soberania não é o direito do mais forte impor limites aos demais. Nenhum hemisfério pode ser tratado como propriedade exclusiva de um único povo, e nenhuma liberdade se sustenta quando a soberania se transforma em concessão. O cenário torna-se ainda mais preocupante diante da ascensão de lideranças como Javier Milei, na Argentina, e ayib NBukele, em El Salvador, que adotam retóricas alinhadas ao trumpismo, contribuindo para o fortalecimento da extrema direita na América Latina.Milçei;

Argentina;

 

O precedente venezuelano pode estimular novas intervenções sob o pretexto do combate ao narcotráfico ou da estabilização política, esvaziando o debate democrático e marginalizando o multilateralismo. Os fundamentos da ordem jurídica internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial vêm sendo colocados em xeque, produzindo instabilidade e subordinação política. Há claros indícios de que o intervencionismo norte-americano na América Latina, sob o governo Trump, passa por uma reconfiguração legitimada pela linguagem do contraterrorismo e da segurança transnacional.

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