MULHERES DE ATENAS, de Chico Buarque Por Rui Leitao 

MULHERES DE ATENAS, de Chico Buarque Por Rui Leitao

Alguns enxergam na letra dessa canção uma apologia à submissão e à subserviência das mulheres aos seus maridos. Prefiro acompanhar o pensamento de que se trata exatamente do contrário. Chico Buarque e Augusto Boal, autor da peça de mesmo título, Mulheres de Atenas (1976), usaram a ironia para despertar no público feminino a compreensão de que não deveriam mais se comportar como as mulheres da sociedade patriarcal da Grécia Antiga.

Mesmo com a revolução cultural experimentada em tempos recentes, com a emancipação feminina, muitas ainda adotam condutas semelhantes às das “mulheres de Atenas”—as chamadas “amélias”, para usar uma definição mais conhecida dos brasileiros. É como se a canção dissesse: “Abram os olhos, não sigam o exemplo da submissão plena às vontades dos maridos, como faziam as ‘mulheres de Atenas’.”

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas / vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas / quando amadas, se perfumam / se banham com leite, se arrumam / suas melenas / quando fustigadas, não choram / se ajoelham, pedem, imploram / mais duras penas / cadenas… Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas / secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas.”

Os compositores procuram advertir as mulheres da atualidade a não se espelharem nas mulheres de Atenas. Elas viviam exclusivamente para atender aos desejos de seus maridos, vendo neles a expressão do heroísmo grego—por isso, eram admirados e venerados. Faziam questão de se perfumar e se tornar mais atraentes para satisfazer os prazeres de seus homens. Quando maltratadas, mantinham-se conformadas com o sacrifício e, numa atitude de extremo servilismo, humilhavam-se, rogando perdão, quando a situação deveria ser inversa—eles é que deveriam pedir desculpas por castigá-las. Na verdade, viviam como prisioneiras.

As mulheres gregas daquela época não se lastimavam por suportar tanto sofrimento. Essa era a regra social estabelecida na relação de gêneros da sociedade ateniense. Os homens eram poderosos e tinham autoridade para determinar como suas esposas deveriam se conduzir. Ao saírem para a guerra, suas companheiras faziam voto de fidelidade e se entregavam totalmente às atividades de tecelagem, principal ofício daquele povo. Adotavam a abstinência sexual por anos, à espera do retorno de seus maridos, que, ao regressarem, desprezavam os afagos e carinhos, tão importantes nos encontros amorosos, e se mostravam embrutecidos pela ansiedade de suprir suas carências.

Despudoradamente, subjugavam suas mulheres a caprichos indecentes e devassos. As atenienses, resignadas, cumpriam suas “obrigações conjugais” ao se despirem para seus maridos, os quais consideravam bravos guerreiros, corajosos homens de sua terra. No entanto, quando se embriagavam, esqueciam aquelas a quem exigiam absoluta fidelidade e iam à procura de prostitutas. Ainda assim, ao voltarem das farras, fatigados, encontravam nos braços de suas belas esposas o aconchego necessário para o descanso.

Desde crianças, as mulheres de Atenas eram educadas para executar atividades domésticas e procriar, garantindo o nascimento de novos cidadãos atenienses. Não lhes era permitido ter opinião própria, e suas qualidades ou defeitos não tinham a menor importância. Sequer podiam sonhar. Viviam sob o império do medo, aterrorizadas pelo prenúncio de acontecimentos desagradáveis quando seus maridos singravam os mares, enfrentando tempestades. Sabiam que, em terras distantes, seus companheiros fantasiavam encontros com sereias—belas mulheres que povoavam o imaginário masculino.

Na sociedade patriarcal de Atenas, as mulheres se dedicavam unicamente aos seus maridos. Esse devotamento se confundia com o temor de perdê-los. Tanto as que já padeciam da viuvez quanto as que, grávidas, sofriam com a ausência dos companheiro…

www.reporteriedoferreira.com.br Por Rui Leitao   Advogado, jornalista, poeta , escritor




PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Calçadão no Centro Histórico Sérgio Botelho

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Foto da Duque de Caxias, no trecho entre a Misericórdia e o Ponto de Cem Reis.
PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Calçadão no Centro Histórico
Sérgio Botelho
– É sabido que há uma tendência de que parte do Centro Histórico de João Pessoa se transforme em calçadão. A primeira experiência seria com a Duque de Caxias, por sinal, parte dela já exercendo essa função urbana, no trecho entre a Igreja da Misericórdia e a Praça João Pessoa.
Não há novidade nessa propensão, em termos de expectativa, já que em muitas cidades históricas brasileiras essa é mesmo a inclinação, diretamente ligada à natureza dos núcleos urbanos centrais, enquanto espaços de convivência e memória. Em muitas cidades, o fechamento de ruas para veículos e a criação de áreas exclusivamente para pedestres representam estratégia válida para revitalizar esses locais, impulsionar o turismo e incentivar o comércio. Os centros históricos costumam ter ruas estreitas, construções antigas e uma ambiência propícia para o passeio a pé, exatamente o caso de João Pessoa.
A mudança para calçadões favorece a preservação do patrimônio arquitetônico, reduz a poluição sonora e ambiental, além de estimular a economia local ao atrair cafés, restaurantes, livrarias, sebos, brechós, galerias de arte e outros estabelecimentos que enriquecem a experiência dos visitantes. Claro que a intervenção precisa ser acompanhada de planejamento cuidadoso. É essencial que os calçadões sejam seguros, em todos os sentidos, acessíveis e contem com infraestrutura adequada, como mobiliário urbano de qualidade, iluminação eficiente e paisagismo. Além disso, é importante garantir que os moradores e comerciantes locais participem do processo, a evitar a descaracterização do espaço ou a gentrificação indesejada.
Em cidades como Salvador, São Paulo e Recife, há exemplos bem-sucedidos de centros históricos revitalizados por meio de calçadões. Por outro lado, há casos em que a falta de manutenção ou de atividades culturais regulares levou ao esvaziamento desses espaços. Assim, é fundamental que haja políticas públicas contínuas de preservação e incentivo à ocupação qualificada. Satisfeitas tais medidas, dará certo.
www.reporteriedoferreira.com.br  Por Sérgio Botelho- Jornalista, poeta, escritor



O EMPODERAMENTO FEMININO E A IGREJA CATÓLICA Por Rui Leitao

O EMPODERAMENTO FEMININO E A IGREJA CATÓLICA

A partir do século XIX, surgiu um movimento político, social e filosófico com o objetivo de fortalecer o papel da mulher, buscando inseri-la em uma sociedade que historicamente se estrutura de forma patriarcal. Essa luta ficou conhecida como “empoderamento feminino”, pautando-se na reivindicação da igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Por milênios, a mulher foi vista como um ser inferior ao homem, impedida de desfrutar de privilégios concedidos exclusivamente ao gênero masculino, como ler, escrever e votar, sendo relegada, quase que exclusivamente, aos afazeres domésticos, em submissa obediência às figuras paternas ou conjugais. Ainda que tenham conquistado avanços significativos no acesso a espaços sociais, políticos e econômicos, as mulheres continuam enfrentando inúmeras barreiras que precisam ser superadas.

Essa luta não deve ser vista como uma guerra entre os gêneros, como declarou Frei Gilson em sua pregação na madrugada do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, por ocasião da Quaresma Digital. O empoderamento feminino não se trata apenas de uma disputa por poder, mas sim da busca pelo direito da mulher de ter controle sobre a própria vida em todos os aspectos que historicamente foram reservados aos homens. O próprio Papa Francisco diverge da visão do missionário católico, o que ficou evidente ao elevar a memória de Maria Madalena ao título de apóstola, um gesto que pode ser interpretado como uma contestação da cultura patriarcal machista, que nega às mulheres o protagonismo no círculo dos discípulos de Jesus.

Na ocasião, o Papa publicou um tuíte com a seguinte afirmação: “Às mulheres devem ser confiadas funções e responsabilidades maiores. Quantas opções de morte seriam evitadas se estivessem precisamente as mulheres no centro das decisões! Empenhemo-nos para que sejam mais respeitadas, reconhecidas e envolvidas.”

O discurso político do frade, alinhado ideologicamente à extrema direita, não está em consonância com o pensamento do Sumo Pontífice e, portanto, diverge da orientação oficial da Igreja Católica.

www.reporteriedoferreira.com.br   Por Rui Leitão- Advogado, jornalista, poeta, escritor




PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Avenida Flávio Ribeiro Coutinho ou Retão de Manaíra ou apenas Retão Sérgio Botelho

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Avenida Flávio Ribeiro Coutinho ou Retão de Manaíra ou apenas Retão
Sérgio Botelho –
A avenida Governador Flávio Ribeiro Coutinho, na verdade conhecida como Retão de Manaíra, ou simplesmente Retão, é outro exemplo de como a denominação impulsionada pelo costume, no caso, em função de seu traçado e utilidade urbana, se impôs no tempo. Aberta na década de 1950, a partir da estrada de Cabedelo, ganhou maior dimensão urbana nos anos 1970, acompanhando o avanço da cidade no rumo do litoral.
A curiosidade na denominação é que o benefício urbano levado a Manaíra se sobrepôs, na escolha popular, mesmo que o Bessa também haja experimentado irresistível e definitiva ocupação após a entrega da referida via. Atualmente, compõe a parte final de um longo corredor, a partir do centro da cidade, após a abertura da Avenida Tancredo Neves. O caminho tem início na rua Princesa Isabel, nas proximidades da Lagoa, passando pela Boto de Menezes, pela Avenida Mandacaru, pela Tancredo Neves, até alcançar o Retão, atravessando a Estrada de Cabedelo, depois de cruzar os bairros de Tambiá, Treze de Maio, Mandacaru e Ipês.
O homenageado oficial, Flávio Ribeiro Coutinho, foi um médico, industrial, banqueiro e político paraibano, nascido em Pilar, em 1882. Substituindo José Américo de Almeida no cargo, foi governador eleito da Paraíba entre 1956 e 1958. O Retão de Manaíra conta com corredores urbanos criados em épocas diversas pelo poder público. Um deles, estabelece vínculo com o litoral de Cabedelo, correndo paralelamente à BR-230, via bairro do Bessa, enquanto outros ligam o Retão às avenidas Epitácio Pessoa e Beira Rio, via Manaíra e Tambaú.
Parte do seu espaço, à altura do Manaíra Shopping, já foi passagem do Rio Jaguaribe, até as primeiras décadas do Século XX, quando foi desviado o seu curso.
A foto é do Retão, em seus primeiros anos, publicada no Grupo Paraíba Fotos e Fatos Antigos, do Facebook. A linha pontilhada, à direita, indica o local hoje ocupado pelo Manaíra Shopping.



PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Praça Venâncio Neiva ou Pavilhão do Chá; Sérgio Botelho

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Praça Venâncio Neiva ou Pavilhão do Chá
Sérgio Botelho – A Praça Venâncio Neiva, inaugurada em 21 de julho de 1917, no governo Camilo de Holanda, mais conhecida como Praça do Pavilhão do Chá, ou simplesmente Pavilhão do Chá, em referência mesmo ao espaço como um todo, exemplifica mais uma vez como a visão popular pode superar a nomenclatura oficial, escolhendo a identidade dos espaços urbanos a partir de afetividades. Embora a homenagem ao primeiro governador republicano da Paraíba seja historicamente justificável, o nome que realmente se enraizou na cidade surgiu de um elemento arquitetônico que, ironicamente, não cumpriu sua função original. O mais curioso é que foi inaugurado no início da década de 1930, mais de 10 anos depois da existência oficial da praça. O pavilhão foi concebido para se tornar um espaço refinado a encontros sociais, inspirado no costume britânico do chá da tarde, mas com referência arquitetônica a uma construção chinesa, onde o costume do chá teve origem, substituindo o projeto original de uma pista de patinação. No entanto, a prática do chá da tarde não se consolidou e, ao longo do tempo, foi local de exposição, bar, restaurante e sorveteria. Contudo, a estrutura, com sua estética peculiar, acabou sendo a verdadeira marca da praça, mesmo que sem exercer o papel para o qual foi projetado. Na prática cotidiana, portanto, o pavilhão se tornou a principal referência do local — apesar de hoje não estar servindo para nada —, a ponto de rebatizá-lo no imaginário popular. Outra vez, em João Pessoa, o fenômeno revela que a forma como os cidadãos vivenciam os espaços urbanos acaba tendo peso determinante na nomenclatura da urbe. Assim, mesmo que o nome fixado oficialmente continue sendo o de Praça Venâncio Neiva, para os moradores da Capital ela sempre será o Pavilhão do Chá.
Na foto, vista parcial da Praça Venâncio Neiva, com o Pavilhão do Chá.



O FASCISMO DIGITAL;  Rui Leitao Jornalista

Rui Leitao Jornalista: O FASCISMO DIGITAL

Ingressamos na era do fascismo digital. As big techs têm cumprido bem o propósito de substituir a informação pela desinformação, transformando as redes sociais nos grandes instrumentos de propaganda de uma ideologia neofascista. Atuam, com competência, como formadoras de mentalidades obscurantistas, incentivando pulsões violentas alimentadas pelo discurso de ódio e intolerância. A internet cria conexões rápidas entre grupos que praticam e estimulam atos de terrorismo e ataques antidemocráticos.

Em consequência, os discursos populistas e autoritários passam a ser externados não só por lideranças políticas, mas também por cidadãos comuns. Em vez de as tecnologias digitais se colocarem como ferramentas para a promoção da democracia, assumem…
[15:27, 09/03/2025] Rui Leitao Jornalista: Tumulto na inauguração do Almeidão
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Ao encerrar o seu mandato de governador, Ernani Sátiro inaugurou os estádios que construiu em João Pessoa e Campina Grande. Foram entregues ainda sem nomes oficiais, por isso receberam do povo, em princípio, os apelidos de “Satirão”, o da Capital, e “Amigão”, o de Campina Grande. Só em maio é que foram denominados de José Américo de Almeida Filho, passando a ser chamado de “Almeidão”, e Governador Ernani Sátiro, respectivamente.

O Botafogo do Rio foi o time convidado para enfrentar os paraibanos nas partidas de inauguração, realizadas nos dias sete e nove de março de 1975. No “Amigão” o Campinense empatou em zero a zero com a equipe carioca. Enquanto que em João Pessoa o “Belo” perdeu de dois a zero. Como não havia ainda refletores os jogos aconteceram no período da tarde. A iluminação dos campos só foi inaugurada meses depois.

A festa esportiva no “Almeidão” foi marcada por um clima de tensão, em razão de advertências que teriam sido feitas durante toda a semana pelo deputado Rui Gouveia, de que o estádio não oferecia segurança para acolher um grande público e poderia acontecer uma tragédia. Mesmo assim, os dois lances de arquibancadas ficaram totalmente tomados pelos torcedores, calculando-se em torno de 30 mil expectadores.

Ao final do primeiro tempo uma bomba que explodiu na área que hoje chamamos de “arquibancada sol” foi o suficiente para provocar um tumulto generalizado. O barulho das pessoas correndo apavoradas dava a impressão de que o estádio estava ruindo. Na “arquibancada sombra”, onde me encontrava, o público também se atemorizou, estabelecendo idêntica agitação. Realmente foi algo estarrecedor. Sem compreender bem o que estava acontecendo, todo mundo procurava a saída ao mesmo tempo, com as pessoas atropelando umas as outras. Cerca de 30 torcedores foram enviados para o Hospital do Pronto Socorro para receber atendimento médico.

A tranquilidade só aconteceu quando o próprio governador ocupou os microfones da Rádio Tabajara para anunciar que tudo estava dentro da normalidade e que não havia qualquer motivo para aquele alvoroço, atribuindo, inclusive, o fato ao efeito psicológico do terrorismo praticado pelo parlamentar nos dias que antecederam a inauguração.

Passado o susto, o público voltou a fazer festa e a partida foi reiniciada sem qualquer outra ocorrência que pudesse tirar o brilho do espetáculo futebolístico e a alegria do pessoense em receber finalmente um estádio que propiciaria a realização de bons jogos e estimularia o crescimento do nosso futebol.

Rui Leitão




A COPROLALIA, DOENÇA DOS PALAVRÕES Por Rui Leitao 

A COPROLALIA, DOENÇA DOS PALAVRÕES Por Rui Leitao

Quando criança, acompanhando meu pai numa ida ao aeroporto para aguardar a chegada de um governador do meu estado, tive um a surpresa que me deixou intrigado por muito tempo. Fiquei espantado ao ver aquela autoridade proferir um palavrão em público. Achei algo inadequado e desrespeitoso.

Depois, na vida adulta, compreendi que aquela era uma atitude normal. Afinal de contas, as autoridades são humanas e se comportam igual a todos nós. Menos quando isso se torna algo compulsivo, a permanente mania de falar palavras ofensivas ou socialmente inaceitáveis, em qualquer local ou em qualquer ocasião, até em solenidades oficiais. De vez em quando usar expressões fortes em momentos de grandes explosões emocionais ou de energia represada, pode ser considerado uma manifestação aceitável. Porém, proferir, em cada cinco palavras, três palavrões, passa a ser classificado como um comportamento doente ou de má educação.

E essa doença tem nome: coprolalia. É a tendência a proferir palavras obscenas ou fazer comentários socialmente depreciativos. O termo vocabular deriva do idioma grego “κόπρος”, que significa “objetos fecais” e “λαλία”, tagarela, conversa sem sentido. São palavras ou frases tidas como tabus sociais, xingamentos descontextualizados, repetindo palavras características de sua mente. Daí porque costumamos dizer que tais pessoas têm a “boca suja” porque contêm uma linguagem grosseira, despudorada, desbocada.

Não me acusem de puritano. Mas o exercício de determinados cargos relevantes exige o respeito a normas morais e éticas, o que chamamos de decoro, a forma correta de se portar, agir com dignidade e compostura. Tivemos um presidente da República que é repetitivo em proferir discursos utilizando um linguajar chulo, autoritário e desrespeitoso. Sem atributos intelectuais, apela para o baixo calão, num comportamento absolutamente incompatível como exercício da chefia de Estado ou de liderança política nacional. O mais incrível é que tem muita gente, inclusive muitos que vivem falsamente pregando moralidade e bons costumes, aplaudindo essa verborragia indecente que produz diariamente.

Numa reunião ministerial, tornada pública para todo o país, o que se via eram seus ministros o imitando e jorrando palavrões na emissão das opiniões e pareceres sobre assuntos que mereceriam ser encarados como importantes. A coprolalia não tem cura. O mais preocupante é que essa doença parece ser contagiosa.

www,reporteriedoferreira.com.br  Rui Leitão- Advogado, jornalista, poeta, escritor




PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Transição carnavalesca em João Pessoa Sérgio Botelho

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Transição carnavalesca em João Pessoa
Sérgio Botelho – O Carnaval de João Pessoa, entre final da década de 1970 e início da de 1980, viveu forte crise de identidade. Foi a época em que mais cresceram nas ruas da cidade as tropas de meninos e meninas armados de bombas feitas de canos plásticos, a esguichar água em tudo o que é carro que passasse, estivesse o motorista metido ou não com festa, o que incluía ônibus lotados de passageiros.
Era apenas um sintoma. À época, os clubes já não atraiam a juventude, em busca de mais liberdade e curtição, que somente seriam encontrados nas folias de Olinda, Recife e Salvador. Os modelos desses carnavais, com seus blocos de arrasto e muito amor para dar, não era exatamente o que se via no carnaval de rua em João Pessoa, onde até o corso se perdera. Sem novidades e mais investimentos, sozinhos, os desfiles de blocos tradicionais também já não serviam como atrativo à juventude, ansiosa por mais espaço e mais envolvimento. As grandes colunas de frevo, dos anos 1930, continuavam sem servir de exemplo. Em 1980, no limiar da década, surgiu a ideia da Banda de Tambaú, com forte inspiração na Banda de Ipanema, do Rio, criada em 1965, e no Galo da Madrugada, do Recife, que surgiu em 1978.
O pai da ideia foi o jornalista e ativista cultural Wills Leal, e o dia escolhido para o desfile da banda foi o Sábado de Carnaval, não por acaso o mesmo em que desfilava a Banda de Ipanema e o Galo. Contudo, a Banda de Tambaú não teve seguimento efetivo. Até acoplaram as propostas de mudar o desfile de blocos tradicionais e de reviver o corso, na praia. Não colaram. Assim, o carnaval de rua em João Pessoa continuava desatualizado, em desfavor da cidade. Enfim, uma iniciativa fortuita daria início, na segunda metade da década de 1980, a uma transformação radical no carnaval pessoense, expressada pelo bloco Muriçocas do Miramar e pelo Folia de Rua. Aí, tudo mudou completamente.
Cátia de França, na abertura do Folia de Rua 2025.
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A POSSE DE SARNEY NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA; Rui Leitao 

A POSSE DE SARNEY NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA; Rui Leitao

O Brasil vivia a expectativa da posse de Tancredo Neves, primeiro presidente civil, após 20 anos de uma sucessão de generais no comando do Palácio do Planalto. No entanto, o país foi surpreendido com a notícia de que, na véspera da data em que assumiria, por volta das 22h15, o presidente eleito dava entrada no Hospital de Base, em Brasília, com dores abdominais intermitentes. O quadro apontado era de extrema gravidade. Tinha início naquela oportunidade a longa noite que resultaria no início da Nova República.

No hospital, ao lado do quarto onde se encontrava Tancredo Neves, em torno de umas 20 pessoas, importantes líderes políticos da época, dentre eles José Sarney, José Fragelli, presidente do Senado, Marco Maciel, Pimenta da Veiga, Humberto Lucena, Aureliano Chaves, Affonso Camargo, Francisco Dornelles, Antônio Carlos Magalhães, José Hugo Castelo Branco, então ministro Chefe da Casa Civil de Figueiredo, general Leônidas Pires Gonçalves, futuro ministro do Exército e Aécio Neves, sobrinho do presidente eleito, reuniram-se para discutir quem tomaria posse no dia seguinte. A dúvida era se seria o vive-presidente eleito ou o presidente da Câmara Federal, Ulysses Guimarães.

O general Leônidas Pires iniciou o debate, perguntando: “O que diz a Constituição?”. Ulysses Guimarães consultou a Emenda I, da Constituição promulgada em 1969, elaborada pela Junta Governativa Provisória, que assumira o poder após a trombose cerebral do general presidente Costa e Silva. Feita a leitura, todos concordaram que a posse deveria ser dada ao vice-presidente eleito José Sarney. O jurista Afonso Arinos se manifestando a respeito, assim se pronunciou: “Sob o ponto de vista político e constitucional, Sarney foi eleito vice-presidente do Brasil, não vice-presidente de Tancredo. Portanto, ele toma posse como presidente”.

A base paulista de sustentação ao governo da Nova República defendia a tese de que o presidente da Câmara deveria ser o empossado interinamente. Não concordando, o próprio Ulysses Guimarães afirmou na oportunidade: “O Sarney chegou aqui ao lado do seu jurista. Esse jurista é o ministro do Exército. Se eu não aceito a tese do jurista, a crise estava armada’’. Além disso, havia a notícia de o general Figueiredo não admitia a hipótese da posse de Sarney. Um grupo formado por Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso e o general Leônidas Pires, se dirigiu ao Palácio do Planalto para conversar com o ministro chefe da Casa Civil, Leitão de Abreu. O clima era de tensão, pois havia a informação de que Figueiredo já teria sugerido a Walter Pires, seu ministro do Exército, o recurso à força militar para impedir a posse do vice-presidente eleito, que, em telefonema para o general Leônidas, propusera prorrogar o mandato do general presidente até que Tancredo se restabelecesse. Claro que a proposta foi prontamente rejeitada por todos, concluindo pelo respeito ao que definia a Constituição. Figueiredo, entretanto se recusou a passar a faixa presidencial para Sarney, deixando o Palácio do Planalto pela garagem.

Vencidos todos os obstáculos, Sarney jurou a Constituição no Congresso e tomou posse depois dessa longa noite de tensão, lendo o discurso deixado por Tancredo e empossou os ministros por ele já escolhidos. Estava iniciada, oficialmente, a Nova República, ou sexta República, com o objetivo de marcar a redemocratização política do Brasil, encerrando os 21 anos de governos caracterizados pela repressão política, comandados por generais do Exército.

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Independente Atlético Clube Sérgio Botelho

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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Independente Atlético Clube
Sérgio Botelho – Nem só de Astrea vivia a Avenida Monsenhor Walfredo, em João Pessoa, onde também existiu o Independente Atlético Clube. Às vésperas do Carnaval de 1967, por exemplo, o Independente anunciava, em A União, a orquestra do Maestro Vilô, para comandar a folia daquele ano. Tratava-se de uma das orquestras mais festejadas da história dos bailes na capital paraibana, brilhando nos salões do Cabo Branco, do próprio Astrea e da AABB, em todas as épocas do ano.
O Independente, que funcionava à altura do atual Sonho Doce, em frente à Praça da Independência, mobilizou parte da sociedade paraibana, especialmente jovens, de todas as classes, na década de 1960 e parte da de 1970. Mas não era apenas a Orquestra do Maestro Vilô que brilhava no clube. Também a prestigiada Orquestra Paraibana de Frevos, à frente o maestro Amauri, animou festas no Independente. O médico José Mário Espínola, por sinal, tem crônicas prazerosas contando histórias vividas, quando ainda jovem, no Independente. Ele e sua família moravam ali bem perto, na Praça Caldas Brandão, a do Hospital Santa Isabel.
Aqueles eram os tempos da Jovem Guarda, e muitos dos conjuntos (assim chamávamos as bandas da época) de então tocaram em bailes à tarde e à noite, especialmente as de sábado, no Independente. Ali se revezaram Os Quatro Loucos, Os Selenitas, os Tuaregs, The Gentlemen e Diplomatas, assim como se apresentavam no Astrea, no Cabo Branco, na AABB, na Assex (Clube dos Sargentos e Subtententes do Exército), no Clube dos Oficiais do Exército, no Internacional de Cruz das Armas, entre outros. O mês de junho também movimentava o Independente, com as tradicionais festas juninas. Mas não só de bailes vivia o Independente.
Havia também shows de artistas nacionais, e até internacionais, e um ativo grupo de teatro do próprio clube, que promovia semanas dedicadas às artes cênicas. Enfim, o Independente Atlético Clube, enquanto existiu, brilhou no setor do entretenimento pessoense, sendo parte da memória afetiva da cidade.
Na foto, a Praça da Independência. À direita a Avenida Monsenhor Walfredo, no trecho onde ficava o Independente Atlético Clube.
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