O MODISMO QUE EMPOBRECE O PORTUGUÊS;  Rui Leitao

Rui Leitao Jornalista: O MODISMO QUE EMPOBRECE O PORTUGUÊS

É realmente impressionante, mas também preocupante, observar no cotidiano como o nosso vocabulário vem sendo substituído por palavras estrangeiras, sobretudo do inglês. A internet, as redes sociais, o mundo corporativo, o marketing, a comunicação midiática e até o entretenimento adotam expressões que rapidamente passam a fazer parte da nossa fala diária.

Já não se combina mais uma reunião: agenda-se um meeting. A opinião ou resposta agora é considerada um feedback. O prazo virou deadline. Trabalhar em casa ganhou o nome de home office. São apenas alguns exemplos de um fenômeno que cresce silenciosamente.

A língua portuguesa, tão rica em sonoridade, história e expressividade, vem sendo trocada por palavras que nada acre…
[06:37, 18/03/2026] Rui Leitao Jornalista: A classe média e o voto contra si

Uma das razões pelas quais a classe média se posiciona ideologicamente à direita é o desejo de manter seu grupo social em uma situação de superioridade em relação às classes populares. As manifestações reacionárias protagonizadas por segmentos dessa classe também revelam um traço saudosista de períodos autoritários, quando hierarquias sociais eram mais rígidas e menos contestadas. Somam-se a isso o conservadorismo e um moralismo seletivo.

Percebe-se, ainda, um temor recorrente diante de discursos progressistas voltados à promoção da inclusão social. Um exemplo emblemático foi a aprovação, em 2013, da chamada PEC das Domésticas, que estendeu às trabalhadoras domésticas direitos já assegurados a outros empregados formais. A …
[12:28, 19/03/2026] Rui Leitao Jornalista: Sem urnas, sem voto, sem democracia

A Constituição de 1934 previa a realização de eleições presidenciais três anos após sua promulgação. Entre os candidatos estava José Américo de Almeida, que enfrentaria Armando de Sales Oliveira e Plínio Salgado.

No dia 31 de julho de 1937, uma multidão reuniu-se na Esplanada do Catete para ouvir José Américo. Foi o ponto mais alto de sua campanha, articulada por Juracy Magalhães e coordenada por Benedito Valadares. Ex-ministro de Getúlio Vargas e integrante do Tribunal de Contas da União, ele surgia como um nome de peso na sucessão presidencial.

O país, porém, vivia sob tensão. Desde 1936, medidas de exceção haviam sido adotadas após as revoltas comunistas de 1935. O “perigo vermelho” era explorado como instrumento po…
[21:50, 19/03/2026] Rui Leitao Jornalista: LULA: ENTRE O AMOR E O ÓDIO

Inicio este texto evocando a canção “As Aparências Enganam”, de Sérgio Natureza e Tunai, imortalizada na voz de Elis Regina. Nos versos “As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam / Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões” encontra-se uma síntese precisa do Brasil contemporâneo. Poucas figuras expressam tão bem essa tensão quanto Luiz Inácio Lula da Silva.

O país segue prisioneiro de heranças profundas. Não superamos por completo o ranço colonial, escravocrata e excludente que moldou nossa formação social. Isso se revela na maneira como parcelas da sociedade reagem à presença de Lula no centro da vida política. De um lado, admiração, respeito e identificação. De outro, um ódio que, muitas vezes, presc…
[09:04, 21/03/2026] Rui Leitao Jornalista: O Belo de novo em transformação

A inauguração do Estádio Almeidão, em 1976, representou para João Pessoa um marco de expectativa e renovação. A cidade ganhava, enfim, uma praça esportiva à altura de suas ambições e junto com ela surgia a esperança de que seus clubes, sobretudo o Botafogo, pudessem se projetar para disputar certames regionais e nacionais.

Essa atmosfera de confiança remete ao clima que envolve o jogo de hoje, quando o “Belo” pode conquistar mais um título estadual diante de sua torcida. O Almeidão volta a pulsar com aquele mesmo sentimento de possibilidades abertas.

Foi exatamente em um momento semelhante, de crença e reconstrução, que, em meados dos anos 1970, João Pessoa recebeu o empresário paulista José Flávio Pinheiro Lima. Dono de u…
[07:19, 22/03/2026] Rui Leitao Jornalista: O VERGONHOSO POWERPOINT DA GLOBONEWS

Houve um tempo em que a credibilidade de um veículo jornalístico era construída com apuração rigorosa, sobriedade editorial e compromisso com o interesse público. Mas vivemos uma era em que, entre a pressa do “urgente” e a ânsia pelo espetáculo, até mesmo canais que se orgulhavam de sua seriedade transformaram o noticiário em show multimídia. Foi assim que a GloboNews protagonizou uma cena que ficará registrada como um marco de constrangimento televisivo: o vergonhoso PowerPoint exibido como se fosse a grande revelação da verdade, aquela verdade pronta, arrumadinha e artificial, que só existe na imaginação de quem pretende convencer antes de informar.

O episódio escancarou as fragilidades de um jornalismo que, ao tentar parecer didático, termina sendo pueril. Um festival de setas, círculos, caixas coloridas e conclusões apressadas foi apresentado como se sintetizasse uma complexa realidade política. Os apresentadores, convictos da “pedagogia” visual, pareciam não perceber que, na ânsia de conectar pontos, fabricaram uma narrativa que mais sugeria do que explicava. Faltou nuance, sobrou pretensão.

Não foi a primeira vez que o país assistiu a um PowerPoint constrangedor. Todos lembramos do espetáculo inquisitorial de outros tempos, quando autoridades confundiam convicção com prova. A GloboNews, ao reproduzir a estética e a lógica daquele velho show, pareceu esquecer as lições que a história recente ofereceu ao jornalismo: simplificar o que é complexo costuma deformar; tentar “ensinar” o público com esquemas prontos frequentemente o subestima.

O mais lamentável, porém, é perceber que o recurso ao sensacionalismo gráfico não foi acidente. Foi escolha. Uma aposta no impacto visual em detrimento da profundidade analítica. Um esforço para viralizar, e não para esclarecer. Porque, no fim, o PowerPoint da GloboNews revelou mais sobre a emissora do que sobre o tema que ela pretendia analisar: revelou pressa, superficialidade e uma inquietante dependência do espetáculo como linguagem.

Talvez a maior lição desse episódio seja lembrar que, quando o jornalismo abdica da precisão, a confiança do público evapora. Cada seta mal desenhada empurra um pouco mais o telespectador para longe. Cada conclusão montada em slide reforça a sensação de que a imprensa se preocupa mais em performar do que em informar. E, num país que já convive com tamanha polarização, fabricar ruídos é o oposto do que se espera de quem tem a missão de esclarecer.

O PowerPoint passou. A vergonha ficou. E o jornalismo, esse sim, merece algo mais do que setas coloridas apontando para lugar nenhum.

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O LICEU PARAIBANO Por Rui Leitao 

O LICEU PARAIBANO Por Rui Leitao

O Liceu Paraibano tem uma história que remonta a 1836. Funcionou inicialmente no antigo Convento de São Gonçalo, onde mais tarde se instalaria a Faculdade de Direito da UFPB, ao lado do Palácio da Redenção. Em 1937, o então governador Argemiro de Figueiredo construiu, na Avenida Getúlio Vargas, o belo prédio que até hoje abriga a instituição.

O ensaísta e cronista paraibano José Rafael de Menezes classificou o Liceu como a “matriz intelectual da Paraíba”. Pelos seus bancos escolares passaram algumas das maiores expressões da vida política, cultural e artística do Estado. Quase todos os governadores da Paraíba estudaram ali. Nomes célebres da nossa história, como José Américo de Almeida, Argemiro de Figueiredo, Celso Furtado, João Pessoa, João Agripino e Abelardo Jurema, frequentaram aquele educandário. O grande poeta Augusto dos Anjos não apenas estudou no Liceu, como também foi seu professor.

Na década de 1960, quando estive matriculado naquele que era considerado o mais tradicional colégio da Paraíba, cursei os dois últimos anos do ginásio e as três séries do curso clássico. Os estudantes que pretendiam prestar vestibular nas áreas de ciências humanas e sociais seguiam o clássico. Já os que se inclinavam para as ciências da exatas ou biológicas optavam pelo científico, que, entre nós, distinguíamos informalmente como científico de engenharia e científico de medicina.

Naquele tempo, o Liceu possuía o que talvez fosse o melhor corpo docente da educação paraibana. Tivemos como professores juízes, médicos, advogados renomados, professores universitários, engenheiros e educadores de grande prestígio. Recordo alguns nomes que me vêm à memória: Wilson da Cunha, Milton Viana, Afonso Pereira, Fernando Barbosa, José Otávio de Arruda Melo, Daura Santiago Rangel, diretora por muitos anos, Quinídio, Perez, Aníbal Moura e Argentina Pereira.

O Liceu também foi palco de grandes acontecimentos. Tornou-se uma espécie de quartel-general da política estudantil paraibana, verdadeiro laboratório de formação das lideranças secundaristas. Nem mesmo quando a ditadura militar tentou desarticular o movimento estudantil, proibindo os diretórios e criando os chamados grêmios literários, conseguiu conter o espírito de inquietação da juventude daquele tempo. O Grêmio Literário Daura Santiago Rangel, apesar das restrições e dos riscos, continuou exercendo um papel de mobilização e consciência política.

Minha passagem pelo Liceu me traz lembranças de um tempo de intensa efervescência. O colégio era muito mais do que um espaço de aprendizagem formal. Foi, para toda uma geração, uma verdadeira escola de formação cívica e consciência política.

O Liceu não formou apenas estudantes.
Formou consciências.

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LIÇÕES DE UMA RUA ANTIGA Por Rui Leitao 

LIÇÕES DE UMA RUA ANTIGA Por Rui Leitao

Há ruas que apenas cruzamos; outras permanecem na nossa memória para sempre. A Rua das Trincheiras, em João Pessoa, pertence à segunda categoria. Na minha pré-adolescência, percorri incontáveis vezes aquele caminho, quase sempre a pé, ao lado de meus pais, quando íamos visitar meus tios João Cunha e Detinha. Quando não tomávamos o bonde ou as marinetes rumo ao centro, escolhíamos seguir pelas Trincheiras. Sem perceber, eu recebia ali minhas primeiras lições de pertencimento.

Observava as fachadas com atenção. Os palacetes antigos, alguns já deteriorados pelo tempo, exibiam ainda certa nobreza. Soube depois que muitos haviam sido erguidos no tempo áureo do ciclo do algodão, quando a elite paraibana decidiu fixar residência naquela artéria, imprimindo-lhe traços do art nouveau e uma ambição europeia em pleno trópico.

A família Zaccara, imigrante italiana que chegou à Paraíba no início do século XX, construiu ali um palacete que ficou conhecido como a Casa Azul. Tornou-se referência de um tempo que resiste na memória dos que viveram aquela cidade mais intimista e aristocrática. Como outras construções da época integra a memória arquitetônica do centro histórico, no tempo em que a Rua das Trincheiras era endereço de famílias tradicionais e palco de acontecimentos sociais marcantes.

Entre um casarão e outro, surgiam moradias mais modestas, coladas umas às outras. Essa convivência entre o passado aristocrático e a vida popular sempre me pareceu a parte mais humana da rua: ela não pertenceu apenas aos poderosos, mas também aos anônimos que sustentaram a cidade com o próprio esforço.

Mais tarde descobri que o nome Trincheiras vinha de um

mandado abrir pelo governador João da Maia da Gama para defender a cidade de ameaça vinda de Olinda durante a Guerra dos Mascates. Passei a imaginar soldados vigiando aquele mesmo chão por onde eu caminhava distraído.

O ponto que mais me fascinava era a Balaustrada, erguida no governo de Camilo de Holanda, em 1918, e que servia como local de passeio para a elite. Dali eu contemplava a parte baixa da cidade, tentando recompor o cenário anterior às fábricas e às transformações urbanas. Havia uma grandeza silenciosa naquele horizonte, sobretudo ao cair da tarde, quando o sol parecia repousar sobre a paisagem.

Anos depois, ao ler Itinerário Lírico da Cidade de João Pessoa, de Jomar Moraes Souto, reencontrei nos versos a atmosfera que minha memória guardara.

Hoje, quando volto às Trincheiras, caminho também sobre minhas próprias lembranças. A rua deixou de ser apenas um logradouro histórico; tornou-se parte da minha biografia. E talvez seja essa a maior lição que ela me deu: as cidades mudam, os casarões envelhecem, mas as ruas que nos formam continuam escrevendo, silenciosamente, a nossa história — mesmo quando já pensamos ter seguido adiante.

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Faltou governo ou faltou sorriso?; Rui Leitao 

Faltou governo ou faltou sorriso?; Rui Leitao

Há rompimentos na política que nascem de divergências legítimas: discordâncias programáticas, conflitos de visão administrativa, mudanças de rumo. Mas há outros que parecem brotar de um motivo tão frágil que acabam revelando mais sobre quem rompe do que sobre quem é abandonado.

Torna-se um caso curioso na crônica política, alguém apresentar como justificativa para deixar a base do governo, a alegação de que falta sorriso por parte do governador. O detalhe que chama atenção não é apenas o motivo em si, mas o momento em que ele foi descoberto: quando resta pouco tempo para o fim do mandato.

É inevitável a pergunta que paira no ar: essa ausência de sorriso não existia antes?

Principalmemte, quando se trata de liderança política que, durante todo o período do governo, participou da administração, ocupando espaços, usufruindo das prerrogativas e dos benefícios políticos de estar no poder. Não se ouviu, até agora, qualquer manifestação pública de incômodo com a suposta falta de cordialidade do chefe do Executivo. Pelo contrário, a convivência pareceu suficientemente confortável para justificar a permanência.

A política, como a vida pública em geral, exige franqueza e coerência. Quando alguém rompe, espera-se que apresente razões consistentes, ligadas ao interesse público, às políticas adotadas, às prioridades administrativas ou às demandas da sociedade. Afinal, governar um Estado é lidar com problemas concretos: saúde, educação, infraestrutura, segurança, desenvolvimento econômico.

Nada disso foi mencionado. O problema, ao que parece, era o sorriso.

A situação chega a soar paradoxal. Trabalhar para responder às necessidades da Paraíba deveria ser a medida principal de avaliação de qualquer governo. No entanto, para alguns, mais relevante do que discutir resultados, políticas ou projetos é avaliar a expressão facial do governante.

Talvez seja um sinal de nossos tempos políticos: a aparência às vezes pesa mais do que a substância.

Mas há também outro aspecto que não pode passar despercebido. Quando a crítica só surge no apagar das luzes de uma administração — depois de anos de convivência, cargos e benefícios políticos — ela inevitavelmente perde força moral. Parece menos uma convicção e mais uma conveniência.

No fundo, o episódio lembra uma velha lição da política: há quem se preocupe em servir à sociedade e há quem se preocupe apenas em preservar a própria posição no tabuleiro.

Se o critério para permanecer ou romper com um governo fosse realmente o sorriso do governante, a política deixaria de ser espaço de decisões públicas e passaria a ser apenas um exercício de etiqueta.

E, nesse caso, talvez o que estivesse faltando não fosse o sorriso do governador — mas a sinceridade de quem só percebeu isso quando o governo já está terminando.

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Infância submetida ao funil social; Rui Leitao

Infância submetida ao funil social; Rui Leitao

Durante cerca de quarenta anos, o sistema educacional brasileiro submeteu crianças a um ritual de seleção precoce: o exame de admissão ao ginásio, exigido após a conclusão do curso primário. Até 1971, meninos e meninas entre 10 e 12 anos eram lançados a uma lógica de competição e exclusão que revelava, desde cedo, o caráter profundamente desigual da escola brasileira.

 

Era uma espécie de vestibular infantil — um ENEM antecipado, quando o Estado ainda se recusava a assumir a educação como direito universal. As vagas no curso ginasial eram poucas, e, em vez de expandir a oferta, optava-se por filtrar, selecionar, excluir. O exame de admissão funcionava como uma barreira social: quem vinha das camadas populares, sem acesso a boas escolas primárias, ficava pelo caminho. A escola, assim, deixava de ser instrumento de emancipação para se transformar em mecanismo de reprodução das hierarquias sociais.

 

Prosseguir nos estudos não era um direito; era um privilégio conquistado a duras penas. A meritocracia precoce escondia a desigualdade de condições e naturalizava o fracasso escolar como incapacidade individual, quando, na verdade, se tratava de uma política deliberada de restrição do acesso ao saber.

 

Tendo saído do Seminário, onde cursei os últimos anos do primário, transpus com relativa facilidade essa etapa da minha vida estudantil. Os seminários católicos, por razões próprias, investiam na formação intelectual rigorosa, o que contrastava com a precariedade da escola pública oferecida pelo Estado. Ainda no primário, estudávamos latim, o que facilitava o domínio da língua portuguesa. O Seminário foi, portanto, uma base decisiva para que eu pudesse enfrentar um sistema educacional concebido para poucos.

 

Ao perceber que não possuía vocação sacerdotal, dispus-me a prestar o exame de admissão no Colégio Pio XII, também pertencente à Arquidiocese da Paraíba, instalado ao lado da Igreja de São Francisco. O Seminário funcionava nos fundos da igreja, numa geografia simbólica em que a Igreja supria, em parte, as omissões históricas do poder público no campo educacional.

O exame consistia em provas escritas de Português, Matemática, História, Geografia e Ciências. O nervosismo era coletivo: entre os candidatos e entre as famílias, que depositavam naquele teste a esperança de romper o ciclo de exclusão. A educação era tratada como uma porta estreita, não como política pública universal.

 

Somente no início da década de 1970 o governo decidiu extinguir o exame de admissão ao ginásio. A medida, ainda que tardia, reconhecia implicitamente que submeter crianças a um funil seletivo era uma violência pedagógica e social. A educação não deveria ser uma corrida de obstáculos, mas um direito garantido pelo Estado.

 

Relembrar o exame de admissão é, portanto, recordar uma pedagogia da exclusão. É também lembrar que a democratização do ensino no Brasil sempre foi resultado de lutas, não de concessões espontâneas. A escola pública, gratuita e universal é uma conquista política, e toda tentativa de restringi-la, seletivizá-la ou mercantilizá-la precisa ser denunciada como aquilo que é: um projeto de negação do futuro para as maiorias populares.

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MERITOCRACIA: IDEOLOGIA DO PRIVILÉGIO ; Rui Leitao

MERITOCRACIA: IDEOLOGIA DO PRIVILÉGIO

Vivemos em um país marcado por desigualdades estruturais profundas, herdadas de um passado colonial, escravocrata e autoritário, que continuam a moldar e limitar as trajetórias sociais. Ainda assim, difunde-se a ideia de que o esforço individual seria suficiente para prosperar na vida. Essa narrativa atende pelo nome de meritocracia. O termo foi cunhado em 1958 por Michael Young, no livro A Ascensão da Meritocracia, como uma crítica às sociedades que definem as posições sociais a partir do desempenho, descrevendo-a como um sistema que divide a sociedade entre “vencedores arrogantes e perdedores amargurados”.

O discurso neoliberal e conservador sustenta que todos são livres para competir, investir em si mesmos e colher os frutos do próprio esforço, ignorando deliberadamente a realidade concreta de milhões de brasileiros que, mesmo com dedicação, não conseguem romper o cíclo da pobreza. Trata-se de uma ideologia que converte privilégios históricos em mérito individual, naturalizando desigualdades e estimulando a competição entre desiguais. Mérito sem igualdade de oportunidades não produz justiça social; legitima o privilégio.

A meritocracia funciona como instrumento de dominação simbólica ao deslocar a responsabilidade das desigualdades do Estado e do sistema econômico para o indivíduo, absolvendo as elites de qualquer compromisso com a justiça social. É imperativo fortalecer políticas públicas de proteção social e romper com a hegemonia neoliberal consolidada nas últimas décadas, marcada por flexibilização trabalhista, precarização do emprego, desmonte de direitos sociais e financeirização da economia, que subordina o trabalho ao capital e amplia a concentração de renda.

A linha de largada nunca foi igualitária. Os pobres enfrentam obstáculos estruturais como educação precária, exclusão territorial, racismo, patriarcado e ausência de políticas públicas consistentes. O resultado é uma desigualdade ainda maior na linha de chegada, perpetuando a exclusão social.

Os defensores da meritocracia acusam as políticas de inclusão de assistencialismo, enquanto trabalham para corroer o Estado de bem-estar social e preservar privilégios. Michael Sandel, em A Tirania do Mérito, demonstra como esse discurso aprofunda a polarização, desvaloriza o trabalho digno e glorifica apenas o sucesso dos “vencedores”, culpabilizando os “perdedores” e intensificando a exploração do trabalho.

A meritocracia converte-se, assim, em ideologia funcional ao capitalismo contemporâneo, ao fragmentar a solidariedade social e enfraquecer a luta coletiva por direitos. Se quisermos construir uma sociedade verdadeiramente democrática, é fundamental uma educação pública emancipadora e políticas que promovam equidade, diversidade e inclusão, substituindo a competição predatória pela cooperação e pela dignidade humana.

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A Nova Escalada Intervencionista Por Rui Leitao

A Nova Escalada Intervencionista Por Rui Leitao

Os Estados Unidos se valeram do colapso da União Soviética, em 1991, para intensificar suas políticas intervencionistas na África, na Europa Oriental e no Oriente Médio. O conflito ideológico que dividiu o mundo entre os polos capitalista e comunista, no pós-Segunda Guerra Mundial, perdeu força, mas não eliminou o intervencionismo como instrumento de poder. Tanto EUA quanto URSS recorreram, ao longo do tempo, a intervenções políticas, econômicas e militares para preservar interesses estratégicos e ampliar suas áreas de influência. Estima-se que, entre 1776 e 2026, os Estados Unidos tenham realizado cerca de 400 intervenções militares, sendo aproximadamente metade delas no período pós-Guerra Fria.

O governo Trump 2.0 reforça uma política externa orientada pelo lema America First, resgatando princípios da Doutrina Monroe e do Corolário Roosevelt para reafirmar a primazia dos EUA no Hemisfério Ocidental. Trump busca se colocar como uma espécie de “polícia hemisférica”, legitimando intervenções por meio de pressões diplomáticas, sanções econômicas, confisco de ativos, processos judiciais em jurisdições estrangeiras e, quando julga necessário, pelo uso direto da força. A crescente presença chinesa como principal parceiro comercial da América Latina representa um desafio adicional à hegemonia estadunidense no continente.

Observa-se, assim, um esforço explícito do atual governo norte-americano para ampliar o envolvimento dos EUA nas Américas, combinando políticas protecionistas com medidas agressivas de deportação. A estratégia intervencionista tem sido pouco dissimulada, revelando a intenção de reorganizar a ordem hemisférica sob liderança exclusiva de Washington. No segundo mandato, Trump demonstra disposição em expandir e consolidar a influência dos Estados Unidos na região.

Essa escalada da política externa de Washington normaliza o uso unilateral da força em uma região historicamente marcada por intervenções, tutelas e recorrentes ameaças à soberania. O ataque à soberania da Venezuela exemplifica essa postura, ao violar princípios do direito internacional que proíbem o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política dos Estados. Subordina-se a legalidade à capacidade de intervenção, enquanto a noção de segurança passa a ser definida de forma unilateral.

Não se trata apenas de um impasse geopolítico, mas de uma ameaça à democracia, ao privilegiar a coerção em detrimento da diplomacia. Soberania não é o direito do mais forte impor limites aos demais. Nenhum hemisfério pode ser tratado como propriedade exclusiva de um único povo, e nenhuma liberdade se sustenta quando a soberania se transforma em concessão. O cenário torna-se ainda mais preocupante diante da ascensão de lideranças como Javier Milei, na Argentina, e ayib NBukele, em El Salvador, que adotam retóricas alinhadas ao trumpismo, contribuindo para o fortalecimento da extrema direita na América Latina.Milçei;

Argentina;

 

O precedente venezuelano pode estimular novas intervenções sob o pretexto do combate ao narcotráfico ou da estabilização política, esvaziando o debate democrático e marginalizando o multilateralismo. Os fundamentos da ordem jurídica internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial vêm sendo colocados em xeque, produzindo instabilidade e subordinação política. Há claros indícios de que o intervencionismo norte-americano na América Latina, sob o governo Trump, passa por uma reconfiguração legitimada pela linguagem do contraterrorismo e da segurança transnacional.

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Saudade: Ausência que mora no peito: Ruin Leitao 

Saudade: Ausência que mora no peito: Ruin Leitao

Sempre questionei por que a palavra “saudade” não tem equivalente em nenhum outro idioma. Será que esse é um sentimento único dos brasileiros? Claro que não! Todo ser humano, seja qual for a nacionalidade, sente saudade.

Há momentos na vida em que pensamos que o tempo parou, ou desejamos que ele faça voltar os ponteiros do relógio e a contagem dos dias em nosso calendário. O nó na garganta se torna intenso. Surge a imensa vontade de reviver aquilo que a nossa memória guardou como agradável, prazeroso, inesquecível. É a alma querendo retornar ao passado. Quando sentimos saudade de alguém ou de algo que aconteceu, damos-nos conta da importância daquela pessoa ou daquela ocorrência de outrora.

A saudade é um sentimento teimoso; ela insiste em dominar nossas emoções, mesmo quando queremos fugir das lembranças. Ocorre que, no cotidiano, nos deparamos com situações que nos remetem a recordações impossíveis de serem evitadas. Uma foto antiga, um cheiro conhecido, uma paisagem que serviu de cenário a algo vivido no passado, uma música que marcou uma relação provocam no coração certa nostalgia. Bate uma melancolia, acompanhada da necessidade de preencher um vazio no peito. É a sensação de que o motivo da saudade está presente no pensamento, longe dos olhos, mas firme no coração.
A saudade nos faz viajar no tempo e sonhar com a possibilidade de reencontros.

Lógico que toda saudade dói, mas algumas provocam uma ansiedade gostosa, uma expectativa cheia de vontade de viver. É quando sabemos que a saudade sentida terá fim. A tristeza temporária, vivida naquele instante, tem previsão para acabar. Esse é o lado bom da saudade: quando abraçamos as boas lembranças na expectativa de que elas se repitam.

A saudade que causa dor maior é aquela que nos dá a certeza de que nada voltará a ser como antes, como diz Lulu Santos em uma de suas canções: “nada do que foi será do jeito que já foi um dia”. Chegamos a pensar que a vida perdeu o sentido, como se nada mais pudesse substituir a ausência sentida. Então, os olhos deixam transparecer a imensa dor que habita o peito, transbordando em lágrimas. O coração se declara. A saudade pode até ser eterna, mas torna-se menos dolorosa à medida que o tempo passa. Melhor chorar por saudade do que olhar para o passado e nada sentir.

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A Democracia sob o risco da desinformação; Rui Leitao 

A Democracia sob o risco da desinformação; Rui Leitao

Chegamos ao ano de 2026, quando, em nosso país, serão realizadas eleições gerais. Cerca de 150 milhões de brasileiros terão a oportunidade de escolher seus representantes, tanto no Congresso Nacional (Senado e Câmara dos Deputados) quanto os governadores de Estado e o presidente da República. O Brasil se verá, mais uma vez, diante de um desafio que vem crescendo com o passar do tempo: o combate à desinformação.

Desde 2018, as eleições passaram a ser fortemente marcadas pela propagação de notícias falsas ou distorcidas em grupos de aplicativos de mensagens, com produção de conteúdos que demonstram evidente nível profissional e que são amplamente repassados por influenciadores digitais.

Torna-se necessário, portanto, destacar o quanto é fundamental que a sociedade civil se posicione no enfrentamento à desinformação e à corrupção eleitoral. O controle da disseminação das chamadas fake news não pode ser, exclusivamente, uma responsabilidade do Poder Judiciário. O sistema eleitoral precisa garantir que o eleitor não seja enganado justamente no momento em que decide em quem votar.

Percebe-se claramente que o objetivo dessas práticas é provocar medo, atacando a credibilidade dos adversários por meio do uso de temas conspiratórios. A utilização de informações falsas nesse período ocorre em diversos campos políticos, embora, em tempos recentes, tenha sido intensamente adotada pela extrema direita. É interessante observar o quanto essa política de desinformação tem apresentado refinamento e mudanças em suas técnicas e formatos. Os boatos e mentiras emergem com impressionante rapidez e força, conduzidos, especialmente, pelas plataformas digitais. As estratégias de manipulação eleitoral, mesmo adaptadas à era digital, ainda preservam práticas antigas de controle, semelhantes ao que se convencionou chamar de “voto de cabresto”.

O disparo sistemático de notícias falsas pode afetar a livre formação da vontade popular, sendo repetidas à exaustão até alcançar o máximo de disseminação, aproveitando-se de brechas na regulamentação e da lentidão dos processos jurídicos. O desinteresse pela verdade factual e a interpretação seletiva dos fatos, orientadas por valores pessoais, crenças e ideologias, contribuem para que essas ondas de desinformação sejam aceitas por parcelas significativas do eleitorado.

Contudo, é preciso considerar que as disputas de narrativas na política não autorizam práticas de difamação ou calúnia contra adversários. A desregulação das mídias digitais concorre, assim, para que o processo de desinformação se consolide como um grave problema para a preservação dos valores e princípios da democracia e do Estado Democrático de Direito.

Com a entrada em cena das inteligências artificiais generativas, a produção de informações falsas tende a dar um salto qualitativo. Fatos são distorcidos ou fabricados sem que haja tempo hábil para as devidas contraditas. A utilização de inteligência artificial nas propagandas eleitorais foi autorizada pelo Tribunal Superior Eleitoral, exigindo, no entanto, a veiculação de aviso explícito sobre seu uso.

Todo cuidado é pouco. As eleições deste ano são essenciais para a manutenção da democracia, garantindo que nossa representação política se estabeleça com equilíbrio entre as forças partidárias e ideológicas, de modo a impedir que continue a prevalecer um conjunto de ideias conservadoras e retrógradas que ameaçam o Estado Democrático de Direito.

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A poética do amor atemporal em Chico Buarque; Rui Leitao

A poética do amor atemporal em Chico Buarque

São músicas como Futuros Amantes que fazem Chico Buarque ser considerado um gênio. A letra, construída como um poema belíssimo, fala do amor como algo eterno, perene, transcendental. Mesmo quando não é correspondido, o amor permanece para sempre e, quem sabe, um dia — ainda que milênios depois — poderá ser vivido por outras pessoas. Por isso, é atemporal. A canção data de 1993 e integra o álbum Paratodos.

“Não se afobe, não / Que nada é pra já / O amor não tem pressa”.
Chico começa aí a diferenciar o amor da paixão. A paixão é imediata, exige urgência, não sabe esperar. O amor, ao contrário, é paciente, resiste a tudo, inclusive ao tempo. Não adianta afobação: ele é sereno e perdura pela eternidade. A paixão relaciona-se ao desejo carnal; o amor, aos sentimentos da alma.

“Ele pode esperar em silêncio / Num fundo de armário / Na posta-restante / Milênios, milênios / No ar”.
Os amores, mesmo não correspondidos ou não vividos em sua plenitude, não conseguem morrer. Perpetuam-se, ficam guardados, à espera de que, no futuro, possam ser utilizados. Sua realização pode ser adiada, mas permanecem vivos por milênios, enquanto não consumidos.

“E quem sabe, então / O Rio será / Alguma cidade submersa”.
O compositor imagina o Rio de Janeiro, em tempos futuros, como uma cidade submersa, à semelhança da Atlântida, o continente perdido. Seus registros históricos ficariam debaixo d’água, intactos, preservados, à espera de pesquisadores dispostos a conhecer uma civilização desaparecida.

“Os escafandristas virão / Explorar sua casa / Seu quarto, suas coisas / Sua alma, desvãos”.
A cidade isolada e mergulhada passará a ser explorada por escafandristas, que vasculharão tudo e penetrarão nos espaços da intimidade, onde o amor nasceu e germinou. Buscarão, nos recantos mais escondidos, vestígios da vida e da alma, tentando encontrar aquilo que não se materializou, mas permaneceu como expectativa: o amor.

“Sábios em vão / Tentarão decifrar / O eco de antigas palavras / Fragmentos de cartas, poemas / Mentiras, retratos / Vestígios de estranha civilização”.
Por mais que tentem compreender, não conseguirão encontrar respostas. Seremos, para eles, uma civilização desconhecida, estranha. Os documentos narram histórias que não conseguem decifrar. Tudo se transforma em enigma indecifrável.

“Não se afobe, não / Que nada é pra já / Amores serão sempre amáveis”.
A precipitação é desnecessária, porque o amor, mesmo não vivido no tempo desejado, encontrará seu destino no momento oportuno. Se hoje não se efetiva, talvez daqui a milhões de anos seja alcançado e vivido por outro. O amor existe para ser exercido, vivido e aproveitado, ainda que em épocas distantes. “Amores serão sempre amáveis”: não se perdem com o passar dos anos.

“Futuros amantes, quiçá / Se amarão sem saber / Com o amor que eu um dia / Deixei pra você”.
Quem sabe, diz o eu lírico, o amor deixado em reserva — não correspondido, mas intacto em sua essência —, ofertado à pessoa amada em vida, seja vivido por outrem no futuro, sem que este perceba tratar-se de uma herança afetiva recebida.

www.reporteriedoferreira.com.br/  Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor