O ÓDIO DE CLASSE AO BOLSA FAMÍLIA ; Rui Leitão 

O ÓDIO DE CLASSE AO BOLSA FAMÍLIA ; Rui Leitão

Em conversa com um amigo, ele lastimava a falta de pessoas interessadas em trabalhar na sua empresa e culpava o Bolsa Família por isso. Não me surpreendi e preferi não alimentar a discussão, até porque essa é uma opinião que se manifesta majoritariamente entre os integrantes da classe média brasileira. Para muitos, o Bolsa Família é chamado de “bolsa vagabundo” ou “bolsa voto”, ignorando que ele é o maior e mais importante programa de combate à pobreza do mundo e já foi copiado por mais de 40 países.

Sem o Bolsa Família, um quarto da população brasileira ainda estaria passando fome. Os que criticam o programa ficam indignados porque não encontram mais gente disposta a alugar sua força de trabalho por qualquer tostão, em um regime de semi-escravidão. Na verdade, o que existe é uma demanda por mão de obra barata, o que gera insatisfação pelo fato de que, na medida em que se garante uma renda suficiente para assegurar a sua sobrevivência, o trabalhador passa a ter maior poder de barganha para decidir se aceita ou não as condições de emprego que lhe são oferecidas.

Não conseguem entender que a fome não é um problema pessoal, mas sim um problema político. Essa reação não é recente. Ela existe desde 2003, quando o programa foi criado, adotando uma política de mudanças sociais com a transferência de renda para famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza, no propósito de pôr fim ao ciclo de miséria entre gerações de brasileiros ao longo da nossa história. Isso nos coloca como um dos países mais desiguais do mundo.

Esse ódio de classe contra o Bolsa Família não é apenas uma implicância de conservadores contra Lula; é coisa de quem não tem a menor noção do que seja passar fome. Culpam o Estado pelo desestímulo ao ingresso no mercado de trabalho, sob a alegação de que o programa representa uma ação política paternalista que inibe a autossuficiência individual e o mérito próprio. No entanto, em contraposição a essas críticas, pesquisas têm demonstrado que o desempenho econômico do país não é afetado pelo crescimento do número de famílias inseridas no programa, e o índice de desemprego vem diminuindo nos últimos anos. Trata-se, portanto, de um direito social que amplia a cidadania e está ligado a uma lógica de seguro social, contrariando a visão de que se trata apenas de uma política compensatória de renda mínima. Faz parte das políticas sociais típicas de um Estado de bem-estar social.

O Programa Bolsa Família foi criado com o objetivo de “contribuir para a superação da pobreza no Brasil por meio de três frentes de atuação: a transferência direta de renda, que representa uma melhoria imediata nas condições de vida das famílias pobres; o acompanhamento das condicionalidades, como reforço do direito de acesso das famílias aos serviços básicos de saúde, educação e assistência social, contribuindo para romper o ciclo de pobreza entre gerações; e a oferta de programas complementares, que abrem oportunidades de desenvolvimento para as famílias beneficiárias”.

Essa campanha contra o Bolsa Família se apoia no desejo de que o capitalismo continue se reproduzindo por meio da exploração de classes, perpetuando as grandes desigualdades sociais. Seus críticos procuram achincalhar a reputação de quem recebe o benefício e influenciar a opinião pública contra o programa, seja por desinformação, seja por preconceito. No plano ideológico, esses opositores — que se veem em uma posição intermediária na pirâmide social — temem perder seu status e diminuir a distância que os separa dos mais pobres.

Ninguém está afirmando que o Bolsa Família é a solução definitiva para erradicar a pobreza, mas ele representa um avanço no combate à exclusão social, ainda que precise de aperfeiçoamentos. Eis aí o motivo pelo qual a classe média reage contra o programa.

www.reporteriedoferreira.com.br  /Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor




O SHOW DA REDEMOCRATIZAÇÃO; SHO Rui Leitao Jornalista

O SHOW DA REDEMOCRATIZAÇÃO
No ano em que o Colégio Eleitoral definia o fim da Ditadura Militar, elegendo a chapa Tancredo Neves e José Sarney para substituir o general Figueiredo, afirmando-se como o primeiro governo civil após duas décadas conhecidas como os “anos de chumbo”, realizava-se, no Rio de Janeiro, o primeiro festival de rock do Brasil. O evento contou com a participação de artistas de renome nacional, como Ivan Lins, Paralamas do Sucesso, Blitz, Barão Vermelho, Gilberto Gil, Alceu Valença, Roberto Carlos, Ney Matogrosso e Rita Lee, além de muitas atrações internacionais.
Alguns desses artistas retornavam ao país após anos de exílio. Era a edição inaugural do Rock in Rio. Sua importância não se restringiu a um momento de diversão e entretenimento; representou a afirmação política de uma geração que ansiava por liberdade e democracia. Havia um sentimento de vitória, potencializado pela juventude. O evento atraiu um público estimado em mais de um milhão de pessoas e aconteceu em meio à expectativa política pelo resultado da votação em Brasília. A esperança era de que, enfim, o país iniciaria o processo de redemocratização. O Kid Abelha e os Abóboras Selvagens se apresentaram na noite de 15 de janeiro, no exato momento da eleição, sendo anunciados como o “primeiro show da democracia brasileira”. Como não poderia ser diferente, carregavam a bandeira nacional, o que inflamou a multidão, que, em coro, gritava: “Brasil, Brasil!”.
Na plateia, majoritariamente composta por jovens, militantes do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) distribuíam panfletos com frases como: “O rock foi a forma que a juventude encontrou para botar para fora seus sentimentos” e “Para os reacionários, o rock vem ameaçar seus caducos e carcomidos preconceitos e valores”. Os artistas transmitiam seus recados por meio de músicas temáticas, alterando letras e fazendo discursos, transformando o festival em um evento político. Os Paralamas, em sua apresentação no dia 13 de janeiro, cantaram Inútil, do Ultraje a Rigor, cuja letra afirmava ironicamente: “A gente não sabemos escolher presidente”, uma crítica ao regime que não admitia o voto direto na eleição presidencial. No Barão Vermelho, Cazuza, enrolado na bandeira nacional, mudou o refrão de Pro Dia Nascer Feliz para Pro Brasil Nascer Feliz. Ivan Lins alterou a letra de Começar de Novo para criticar o fascismo e lembrar as pessoas que haviam desaparecido durante a ditadura.
O idealizador e promotor do grandioso evento, Rubem Medina, chegou a declarar: “O Rock in Rio será uma festa de comemoração da esperança para o País”. O governo, no entanto, usou a máquina pública para dificultar a realização do festival. A Cidade do Rock teve suas obras embargadas em setembro de 1984, sob a justificativa de que o local seria usado por escolas de samba. Quando o empresário conseguiu autorização para a continuidade dos trabalhos, a obra foi novamente impedida, desta vez sob o argumento de que o evento rivalizaria com o RioCentro, um dos maiores espaços de exposição do país. Finalmente, o Rock in Rio foi autorizado, com shows programados para o período de 11 a 20 de janeiro de 1985. O festival simbolizou um novo momento na história nacional e o festivo nascimento da Nova República.
www.reporteriedoferreira.com.br   Rui Leitão-advogado, jornalista, poeta, escritor



A SÍNDROME DO COITADISMO Por Rui Wilson Leitão

A SÍNDROME DO COITADISMO Por Rui Wilson Leitão

A mania de perseguição é considerada, no campo da psiquiatria, um transtorno mental. O indivíduo sente constantemente que alguém quer prejudicá-lo, alimentando um exagerado sentimento de desconfiança. Imagina que tudo conspira contra ele. Trata-se, portanto, de uma doença que requer tratamento médico.

Na esfera política, no entanto, essa postura não pode ser classificada como uma enfermidade, mas como uma forma de autodefesa. Enfraquecido, o agente político apela para a narrativa de que está sendo perseguido, construindo discursos que o façam parecer vítima aos olhos dos eleitores. É a desculpa que encontra para enfrentar as acusações que lhe são impostas. Uma estratégia eficaz de manipulação da opinião pública, buscando amplificar manifestações de solidariedade.

Trata-se de um comportamento que, propositadamente, se descola da realidade, permitindo que a irracionalidade prevaleça e evidenciando instabilidade emocional. Geralmente, sua origem está na egolatria. O político vitimista se vê como injustiçado, ainda que existam provas irrefutáveis contra ele. Jamais admite ter adotado condutas que contrariem as normas da legalidade.

O vitimismo se manifesta no excesso da sensação de perseguição sistemática, atribuindo qualquer acusação a uma suposta vingança de adversários. Esse comportamento leva à perda do senso de autocrítica, do discernimento e da capacidade de avaliar racionalmente as situações. A negatividade é característica dos fracos, uma marca dos covardes. Não podendo demonstrar força, recorrem à política da vitimização. Não aceitam o fato de que os outros já não se curvam à sua ambição de poder. E, em vez de assumirem responsabilidades, transferem-nas para terceiros – muitas vezes de forma agressiva. É a síndrome do “coitadismo”.

Esses indivíduos assumem uma dupla personalidade: ora se apresentam como “machões”, que tudo podem; ora como “coitadinhos”, clamando por proteção e apoio de seus seguidores. Vitimizam-se para despertar piedade.

Mussolini e Hitler chegaram ao poder culpando os outros e explorando a retórica da vitimização. Utilizaram essa estratégia para cometer atrocidades, como se tivessem recebido licença moral para tanto. Eles sabiam que encontrariam pessoas de mente fraca, incapazes de pensar por si mesmas, verdadeiros integrantes de um rebanho ideológico. Provocar a vitimização consiste em construir uma imagem de ameaça constante, de modo a influenciar o público.

Devemos ter cuidado com os vitimistas. Eles manipulam situações para conquistar o que desejam, explorando a compaixão alheia. Por isso, é essencial não cair no jogo armado. Se autopromovem com o coitadismo, dramatizando circunstâncias desfavoráveis pelas quais estejam passando. É um vitimismo calculado, consciente, que se alimenta do lamento e da chantagem emocional. Seus discursos buscam desclassificar os argumentos dos adversários. Em vez de refutarem afirmações, preferem posar de vítimas de extremistas radicais. Nunca admitem erros. Agem pela emoção, sem preparo para defender suas ideias, ignorando a veracidade e a consistência dos fatos.

O vitimismo é um discurso fácil de vender. Quem o pratica sente a necessidade de ter seu sofrimento reconhecido diante dos outros, em busca de compaixão. Falam em meritocracia, mas são os primeiros a se colocarem como vítimas quando derrotados em seus projetos políticos. E recorrem à retórica do ódio.

A dinâmica do vitimismo está presente nas ciências políticas – lamentavelmente.

Rui Wilson Leitão




O FANATISMO E A IDOLATRIA POLÍTICA; Rui Leitao 

O FANATISMO E A IDOLATRIA POLÍTICA; Rui Leitao

A história da humanidade revela que a idolatria política, muitas vezes, causa dores, tragédias e mortes a uma nação. Cultos a personalidades, produzidos por circunstâncias sociais, tornam-se responsáveis pelo surgimento de líderes populistas que se esforçam para sequestrar o sistema democrático. Suas ideias e práticas incorporam-se ao caráter do idólatra, destruindo sua consciência moral e política, transformando-a em zelo cego.

O cenário político contemporâneo do Brasil tem feito com que o ódio contamine relacionamentos, promovendo uma guerra cultural e um clima de violência. Os idólatras, com seus pensamentos binários, dominados por discursos autoritários e linchamentos virtuais, abandonam a reflexão para aceitar percepções ideológicas propagadas por seus ídolos, considerando inimigos aqueles que não se alinham às suas ideias políticas. As discussões são transferidas para o âmbito pessoal ou moral. Eles têm uma visão simplista do mundo, enxergando apenas os extremos, como se a vida fosse uma equação exata. Assumem posições de ordem moral (o Bem e o Mal), nas relações sociais (o Bom e o Mau) e nas avaliações políticas do momento (Direita e Esquerda).

A idolatria política impede a conjugação de verbos de ação, como questionar, descobrir, inovar e duvidar. Limita o raciocínio ao “cercadinho reducionista”, definido por quem está sendo idolatrado. O exemplo mais atual dessa postura binária é a batalha que se desenvolve há décadas entre capitalismo e comunismo, como se fossem as únicas formas econômicas aplicáveis em qualquer sociedade.

Lideranças irresponsáveis estimulam uma divisão sectária da sociedade, resultante de discursos de intolerância aos que pensam de forma diferente. O fanatismo político leva pessoas a defenderem obsessivamente, de forma acrítica e apaixonada, seus ídolos. Trata-se de um comportamento que gera danos mentais tanto a si próprios quanto a terceiros, causando desequilíbrios emocionais que podem evoluir para um distúrbio psiquiátrico. Fanáticos tendem a conviver apenas com indivíduos que integram a mesma bolha ideológica, perdendo a individualidade e agindo como se pertencessem a um rebanho. Preferem cometer erros em nome da ideologia do que acertar em nome da razão.

Não é difícil identificar um fanático ou idólatra político. Ele não aceita opiniões divergentes das suas, ignora as incoerências evidentes de seus próprios argumentos e se recusa a admitir qualquer questionamento sobre a conduta de seu ídolo. Além disso, nega aos adversários — reais ou imaginários — o direito mais elementar: a dignidade humana. É incapaz de interagir civilizadamente. O grande perigo da idolatria e do fanatismo político é a desumanização de segmentos da população, inibindo a capacidade de empatia e deslegitimando o direito dentro de um Estado Democrático.

É preciso fazer valer a norma democrática que assegura a dignidade da pessoa humana. E isso jamais será possível enquanto estivermos presos a essa disputa política entre agrupamentos formados por idólatras e fanáticos.

www.reporteriedoferreira.com.br  /Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor




O EMPODERAMENTO FEMININO E A IGREJA CATÓLICA Por Rui Leitao

O EMPODERAMENTO FEMININO E A IGREJA CATÓLICA

A partir do século XIX, surgiu um movimento político, social e filosófico com o objetivo de fortalecer o papel da mulher, buscando inseri-la em uma sociedade que historicamente se estrutura de forma patriarcal. Essa luta ficou conhecida como “empoderamento feminino”, pautando-se na reivindicação da igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Por milênios, a mulher foi vista como um ser inferior ao homem, impedida de desfrutar de privilégios concedidos exclusivamente ao gênero masculino, como ler, escrever e votar, sendo relegada, quase que exclusivamente, aos afazeres domésticos, em submissa obediência às figuras paternas ou conjugais. Ainda que tenham conquistado avanços significativos no acesso a espaços sociais, políticos e econômicos, as mulheres continuam enfrentando inúmeras barreiras que precisam ser superadas.

Essa luta não deve ser vista como uma guerra entre os gêneros, como declarou Frei Gilson em sua pregação na madrugada do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, por ocasião da Quaresma Digital. O empoderamento feminino não se trata apenas de uma disputa por poder, mas sim da busca pelo direito da mulher de ter controle sobre a própria vida em todos os aspectos que historicamente foram reservados aos homens. O próprio Papa Francisco diverge da visão do missionário católico, o que ficou evidente ao elevar a memória de Maria Madalena ao título de apóstola, um gesto que pode ser interpretado como uma contestação da cultura patriarcal machista, que nega às mulheres o protagonismo no círculo dos discípulos de Jesus.

Na ocasião, o Papa publicou um tuíte com a seguinte afirmação: “Às mulheres devem ser confiadas funções e responsabilidades maiores. Quantas opções de morte seriam evitadas se estivessem precisamente as mulheres no centro das decisões! Empenhemo-nos para que sejam mais respeitadas, reconhecidas e envolvidas.”

O discurso político do frade, alinhado ideologicamente à extrema direita, não está em consonância com o pensamento do Sumo Pontífice e, portanto, diverge da orientação oficial da Igreja Católica.

www.reporteriedoferreira.com.br   Por Rui Leitão- Advogado, jornalista, poeta, escritor




O FASCISMO DIGITAL;  Rui Leitao Jornalista

Rui Leitao Jornalista: O FASCISMO DIGITAL

Ingressamos na era do fascismo digital. As big techs têm cumprido bem o propósito de substituir a informação pela desinformação, transformando as redes sociais nos grandes instrumentos de propaganda de uma ideologia neofascista. Atuam, com competência, como formadoras de mentalidades obscurantistas, incentivando pulsões violentas alimentadas pelo discurso de ódio e intolerância. A internet cria conexões rápidas entre grupos que praticam e estimulam atos de terrorismo e ataques antidemocráticos.

Em consequência, os discursos populistas e autoritários passam a ser externados não só por lideranças políticas, mas também por cidadãos comuns. Em vez de as tecnologias digitais se colocarem como ferramentas para a promoção da democracia, assumem…
[15:27, 09/03/2025] Rui Leitao Jornalista: Tumulto na inauguração do Almeidão
______________
Ao encerrar o seu mandato de governador, Ernani Sátiro inaugurou os estádios que construiu em João Pessoa e Campina Grande. Foram entregues ainda sem nomes oficiais, por isso receberam do povo, em princípio, os apelidos de “Satirão”, o da Capital, e “Amigão”, o de Campina Grande. Só em maio é que foram denominados de José Américo de Almeida Filho, passando a ser chamado de “Almeidão”, e Governador Ernani Sátiro, respectivamente.

O Botafogo do Rio foi o time convidado para enfrentar os paraibanos nas partidas de inauguração, realizadas nos dias sete e nove de março de 1975. No “Amigão” o Campinense empatou em zero a zero com a equipe carioca. Enquanto que em João Pessoa o “Belo” perdeu de dois a zero. Como não havia ainda refletores os jogos aconteceram no período da tarde. A iluminação dos campos só foi inaugurada meses depois.

A festa esportiva no “Almeidão” foi marcada por um clima de tensão, em razão de advertências que teriam sido feitas durante toda a semana pelo deputado Rui Gouveia, de que o estádio não oferecia segurança para acolher um grande público e poderia acontecer uma tragédia. Mesmo assim, os dois lances de arquibancadas ficaram totalmente tomados pelos torcedores, calculando-se em torno de 30 mil expectadores.

Ao final do primeiro tempo uma bomba que explodiu na área que hoje chamamos de “arquibancada sol” foi o suficiente para provocar um tumulto generalizado. O barulho das pessoas correndo apavoradas dava a impressão de que o estádio estava ruindo. Na “arquibancada sombra”, onde me encontrava, o público também se atemorizou, estabelecendo idêntica agitação. Realmente foi algo estarrecedor. Sem compreender bem o que estava acontecendo, todo mundo procurava a saída ao mesmo tempo, com as pessoas atropelando umas as outras. Cerca de 30 torcedores foram enviados para o Hospital do Pronto Socorro para receber atendimento médico.

A tranquilidade só aconteceu quando o próprio governador ocupou os microfones da Rádio Tabajara para anunciar que tudo estava dentro da normalidade e que não havia qualquer motivo para aquele alvoroço, atribuindo, inclusive, o fato ao efeito psicológico do terrorismo praticado pelo parlamentar nos dias que antecederam a inauguração.

Passado o susto, o público voltou a fazer festa e a partida foi reiniciada sem qualquer outra ocorrência que pudesse tirar o brilho do espetáculo futebolístico e a alegria do pessoense em receber finalmente um estádio que propiciaria a realização de bons jogos e estimularia o crescimento do nosso futebol.

Rui Leitão




A COPROLALIA, DOENÇA DOS PALAVRÕES Por Rui Leitao 

A COPROLALIA, DOENÇA DOS PALAVRÕES Por Rui Leitao

Quando criança, acompanhando meu pai numa ida ao aeroporto para aguardar a chegada de um governador do meu estado, tive um a surpresa que me deixou intrigado por muito tempo. Fiquei espantado ao ver aquela autoridade proferir um palavrão em público. Achei algo inadequado e desrespeitoso.

Depois, na vida adulta, compreendi que aquela era uma atitude normal. Afinal de contas, as autoridades são humanas e se comportam igual a todos nós. Menos quando isso se torna algo compulsivo, a permanente mania de falar palavras ofensivas ou socialmente inaceitáveis, em qualquer local ou em qualquer ocasião, até em solenidades oficiais. De vez em quando usar expressões fortes em momentos de grandes explosões emocionais ou de energia represada, pode ser considerado uma manifestação aceitável. Porém, proferir, em cada cinco palavras, três palavrões, passa a ser classificado como um comportamento doente ou de má educação.

E essa doença tem nome: coprolalia. É a tendência a proferir palavras obscenas ou fazer comentários socialmente depreciativos. O termo vocabular deriva do idioma grego “κόπρος”, que significa “objetos fecais” e “λαλία”, tagarela, conversa sem sentido. São palavras ou frases tidas como tabus sociais, xingamentos descontextualizados, repetindo palavras características de sua mente. Daí porque costumamos dizer que tais pessoas têm a “boca suja” porque contêm uma linguagem grosseira, despudorada, desbocada.

Não me acusem de puritano. Mas o exercício de determinados cargos relevantes exige o respeito a normas morais e éticas, o que chamamos de decoro, a forma correta de se portar, agir com dignidade e compostura. Tivemos um presidente da República que é repetitivo em proferir discursos utilizando um linguajar chulo, autoritário e desrespeitoso. Sem atributos intelectuais, apela para o baixo calão, num comportamento absolutamente incompatível como exercício da chefia de Estado ou de liderança política nacional. O mais incrível é que tem muita gente, inclusive muitos que vivem falsamente pregando moralidade e bons costumes, aplaudindo essa verborragia indecente que produz diariamente.

Numa reunião ministerial, tornada pública para todo o país, o que se via eram seus ministros o imitando e jorrando palavrões na emissão das opiniões e pareceres sobre assuntos que mereceriam ser encarados como importantes. A coprolalia não tem cura. O mais preocupante é que essa doença parece ser contagiosa.

www,reporteriedoferreira.com.br  Rui Leitão- Advogado, jornalista, poeta, escritor




A POSSE DE SARNEY NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA; Rui Leitao 

A POSSE DE SARNEY NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA; Rui Leitao

O Brasil vivia a expectativa da posse de Tancredo Neves, primeiro presidente civil, após 20 anos de uma sucessão de generais no comando do Palácio do Planalto. No entanto, o país foi surpreendido com a notícia de que, na véspera da data em que assumiria, por volta das 22h15, o presidente eleito dava entrada no Hospital de Base, em Brasília, com dores abdominais intermitentes. O quadro apontado era de extrema gravidade. Tinha início naquela oportunidade a longa noite que resultaria no início da Nova República.

No hospital, ao lado do quarto onde se encontrava Tancredo Neves, em torno de umas 20 pessoas, importantes líderes políticos da época, dentre eles José Sarney, José Fragelli, presidente do Senado, Marco Maciel, Pimenta da Veiga, Humberto Lucena, Aureliano Chaves, Affonso Camargo, Francisco Dornelles, Antônio Carlos Magalhães, José Hugo Castelo Branco, então ministro Chefe da Casa Civil de Figueiredo, general Leônidas Pires Gonçalves, futuro ministro do Exército e Aécio Neves, sobrinho do presidente eleito, reuniram-se para discutir quem tomaria posse no dia seguinte. A dúvida era se seria o vive-presidente eleito ou o presidente da Câmara Federal, Ulysses Guimarães.

O general Leônidas Pires iniciou o debate, perguntando: “O que diz a Constituição?”. Ulysses Guimarães consultou a Emenda I, da Constituição promulgada em 1969, elaborada pela Junta Governativa Provisória, que assumira o poder após a trombose cerebral do general presidente Costa e Silva. Feita a leitura, todos concordaram que a posse deveria ser dada ao vice-presidente eleito José Sarney. O jurista Afonso Arinos se manifestando a respeito, assim se pronunciou: “Sob o ponto de vista político e constitucional, Sarney foi eleito vice-presidente do Brasil, não vice-presidente de Tancredo. Portanto, ele toma posse como presidente”.

A base paulista de sustentação ao governo da Nova República defendia a tese de que o presidente da Câmara deveria ser o empossado interinamente. Não concordando, o próprio Ulysses Guimarães afirmou na oportunidade: “O Sarney chegou aqui ao lado do seu jurista. Esse jurista é o ministro do Exército. Se eu não aceito a tese do jurista, a crise estava armada’’. Além disso, havia a notícia de o general Figueiredo não admitia a hipótese da posse de Sarney. Um grupo formado por Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso e o general Leônidas Pires, se dirigiu ao Palácio do Planalto para conversar com o ministro chefe da Casa Civil, Leitão de Abreu. O clima era de tensão, pois havia a informação de que Figueiredo já teria sugerido a Walter Pires, seu ministro do Exército, o recurso à força militar para impedir a posse do vice-presidente eleito, que, em telefonema para o general Leônidas, propusera prorrogar o mandato do general presidente até que Tancredo se restabelecesse. Claro que a proposta foi prontamente rejeitada por todos, concluindo pelo respeito ao que definia a Constituição. Figueiredo, entretanto se recusou a passar a faixa presidencial para Sarney, deixando o Palácio do Planalto pela garagem.

Vencidos todos os obstáculos, Sarney jurou a Constituição no Congresso e tomou posse depois dessa longa noite de tensão, lendo o discurso deixado por Tancredo e empossou os ministros por ele já escolhidos. Estava iniciada, oficialmente, a Nova República, ou sexta República, com o objetivo de marcar a redemocratização política do Brasil, encerrando os 21 anos de governos caracterizados pela repressão política, comandados por generais do Exército.

www.reporteriedoferreira.com.br Por Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor




PGR QUEBRA A CULTURA DA IMPUNIDADE; Rui Leitao 

PGR QUEBRA A CULTURA DA IMPUNIDADE; Rui Leitao

Ao denunciar um ex-presidente da República e mais de uma dezena de militares de alta patente, a Procuradoria Geral da República faz história pelo ineditismo do procedimento em nosso país. Desde a proclamação da república a vida política brasileira tem sido marcada por golpes militares que provocaram ruptura constitucional, crimes de Estado e desrespeito a direitos fundamentais, muitas vezes com apoio das elites e da mídia.

Havia uma tradição de impunidade civil e penal aos que praticavam atos criminosos e anti-democráticos, especialmente quando se tratavam de militares. Concordo que é preciso distinguir a instituição das pessoas que tentaram e participaram dos planos golpistas. Mas, até que enfim, aprendemos com a lembrança de episódios violentos do passado, tomando decisões que possam evitar a sua repetição. A palavra “impunidade” se origina do latim, “impunitas”, que significa isenção do castigo. Analisando, conforme o entendimento jurídico, a compreensão é de que se trata da não aplicação de uma determinada pena criminal atribuída a quem cometeu delitos previstos na legislação.

Quando sugere a responsabilização dos agentes envolvidos nos ataques às instituições constitutivas da democracia, comprovando que agiram estruturalmente organizados, a Procuradoria Geral da República quebra precedentes históricos, produzindo efeito didático sobre as futuras gerações. A legislação em vigência prevê a punição para crimes contra a ordem democrática, como tentativa de golpe. Portanto, aplicá-la é uma exigência no sentido de que seja garantida a preservação institucional. É indiscutível que a impunidade torna-se a principal estimuladora da prática de ilegalidades. A punição aplicada à conduta infracional tem efeito inverso, reduzindo os conflitos sociais e conduzindo para uma convivência pacífica. O fato é que a conduta ilícita, criminosa ou não, precisa ser combatida eficazmente, com punição ao infrator, para que não seja banalizada e sirva de incentivo para que seja seguida pelos demais, expandindo-se rapidamente.

As digitais desse pessoal relacionado como acusados na denúncia da Procuradoria Geral da República estão na intentona golpista do oito de janeiro de 2023. Portanto, a punição aos idealizadores e promotores daquela barbárie pode assegurar ao país uma democracia sólida. É importante que se recuse propostas de reconciliação política sem processo e punição dos responsáveis por crimes de Estado e tentativas de golpe. Então, a anistia que está sendo solicitada por lideranças da extrema direita, por conveniências políticas, concorreria para o risco de cairmos novamente em uma espiral de violência por conta da impunidade. Há uma frase latina que diz: “impunitas peccandi illecebra”: a impunidade estimula a delinquência.

Anistiar pode representar o esquecimento e a normalização dos crimes contra o Estado e os cidadãos. O perdão irrestrito é uma afronta à justiça e à sociedade, que tem se manifestado por pesquisas de opinião pública contrária a qualquer iniciativa de anistia aos golpistas. Essa cultura histórica da impunidade, com anistias que beneficiam criminosos políticos, não pode ser perpetuada. Punir os que transgridem normais legais deve ser visto como um ato civilizatório. A denúncia da Procuradoria Geral da República sinaliza a quebra desse ciclo vicioso e se afirma como um documento de valor histórico. Afinal de contas há um princípio tão jurídico, quanto civilizado, de que a lei é para todos. Precisamos vencer, então, essa síndrome de impunidade que existe no país.

www.reporteriedoferreira.com.br   Rui Leitão- Advogado, jornalista, poeta, escritor




O ANTAGONISMO.POLÍTICO DOS ANOS 1968 E 2018; Rui Leitao

 O ANTAGONISMO.POLÍTICO DOS ANOS 1968 E 2018

O ano de 1968 caracterizou-se pelo fortalecimento dos movimentos de esquerda nos países do Ocidente, tanto no plano político, quanto no ideológico. Fatores históricos, culturais e políticos suscitaram um movimento social chamado de contracultura, concorrendo para a emergência de novas “identidades” coletivas. Ficou conhecido como “o ano que não terminou”. Vivi essa época.

Eram atos de vontade política, com manifestações contrárias à concepção de mundo até então vivenciada, em todas as suas vertentes. Os jovens, representando esse movimento revolucionário, ocuparam as ruas desfraldando as mais diversas bandeiras: o feminismo, a luta pela paz mundial, críticas às formas burocráticas de organização social, contra…
[05:56, 18/02/2025] Rui Leitao Jornalista: O CONSERVADORISMO MORAL

Nos últimos dez anos passamos a conviver com uma batalha moral no ringue da política brasileira. A extrema direita baseada no lema “Deus, Pátria e Família”, procura construir entre nós o retorno a estruturas colonialistas do passado. O conservadorismo moral, que caracteriza ideologicamente o bolsonarismo, está no cerne das lutas por narrativas que têm garantido o fortalecimento da direita nacional-populista pós-moderna, ao despertar múltiplos alicerces morais em seus seguidores. Considerando que o Brasil tem uma população majoritariamente conservadora em relação aos costumes, à moral e à cultura, esse discurso utilizado tem um forte apelo emocional.

O conservadorismo é um pensamento político que se diz defender a manutenção das …
[07:34, 19/02/2025] Rui Leitao Jornalista: EUA: SOB O DOMINIO DOS PLUTOCRATAS

Quando as decisões políticas são definidas por grupos econômicos que se instalam no poder com a finalidade de defender seus próprinteresses, as democracias se transformam em plutocracias. É o que está acontecendo nos Estados Unidos, a partir da posse de Donald Trump. Nada menos do que 11 bilionários da indústria armamentista, do petróleo e das big techs (os novos reis do capitalismo de plataforma) integram o seu gabinete, com destaque para o neonazista sul-africano Elon Musk, hoje considerado o capitalista mais rico do mundo.

Esses magnatas têm uma riqueza conjunta em valor superior ao PIB de 154 países. É evidente que esses privilegiados capitalistas estão exercendo influência no governo norte-americano com o objetivo …
[08:44, 20/02/2025] Rui Leitao Jornalista: AGONIA E MORTE DE TANCREDO NEVES

Tancredo Neves, primeiro presidente civil eleito após a ditadura militar, mesmo que pelo voto indireto, já sentia fortes dores abdominais durante o período da campanha. Mas procurava esconder, com receio de que o ditador de plantão, general Figueiredo, por conta disso, resolvesse adiar a eleição programada para 15 de janeiro de 1985. Disfarçava tomando antibióticos às escondidas. Além da doença a que estava acometido, tinha outra preocupação. Sabia que seu vice, José Sarney, não era bem visto pelos militares, a quem consideravam um traidor, pois antes presidira o partido que dava sustentação ao governo, o PDS, renunciando para compor a chapa de oposição. Temia que na impossibilidade de assumir a presidência, não permitissem…
[06:57, 21/02/2025] Rui Leitao Jornalista: O VERDADEIRO AMOR PÁTRIO

O próprio termo ufanismo já define o exagero no sentimento de orgulho que se tem por algo. No caso trataremos desse ufanismo patriótico que tentam vender. “A pátria acima de tudo”, expressa um nacionalismo imoderado e fora dos padrões de racionalidade. Quem ama algo acima de tudo, constrói um falso entendimento de que tudo é possível fazer em nome desse amor. Até o que contraria a moral e a ética.

Amor pátrio não se harmoniza com divisão entre compatriotas. No amor pátrio devemos exercitar o espírito de fraternidade entre todos os que nasceram e pisam o mesmo solo, sem qualquer distinção entre eles. O amor pátrio não permite reverenciar outras nações, numa atitude de submissão e dependência. Quando se ama de verdade, nasce dentro …
[09:31, 22/02/2025] Rui Leitao Jornalista: A NECESSIDADE DA MÍDIA INDEPENDENTE

Numa sociedade que se diz democrática, é essencial que se tenha uma mídia que oferte espaços para a pluralidade de vozes e de fontes, se possível distanciada de interesses financeiros e político-partidários, garantindo, assim, uma comunicação isenta e imparcial. É indiscutível que o poder da comunicação influencia na opinião pública. Por isso mesmo, é importante a participação dos cidadãos no contexto informativo e comunicacional. O jornalismo responsável tem que estar sempre atento às questões dos direitos e à sua violação, especialmente pelas autoridades.

A evolução da tecnologia fez surgir as redes sociais, tornando a mídia mais acessível e democrática, contribuindo para que haja uma diversidade maior de vozes e manifestações. Mas não podemos ignorar que essa democratização igualmente permitiu a disseminação de informações falsas, a manipulação de conteúdo e polarização política. A Constituição de 1988 estabelece o direito à livre manifestação de pensamento, mas é necessário considerar os impactos e ingerência dessa liberdade de comunicação nas decisões políticas e sociais.

A mídia, nas suas mais variadas formas, falada, escrita, televisada e através dos meios sociais, lamentavelmente, muitas vezes desinforma com propósitos políticos e ideológicos. Daí a necessidade do fortalecimento da mídia independente, com a responsabilidade de desempenhar um papel vital na luta por direitos e justiça social, atuando como ferramenta poderosa para promover transformações sociais. Para que isso aconteça, é necessária sua autonomia em relação a interesses comerciais e políticos, operando fora do controle da mídia tradicional, dando prioridade à liberdade editorial.

Os oligopólios multimídias, dominados por grupos familiares e políticos, como também a forte influência dos grandes anunciantes, interferem no processo de produção das informações expostas ao público, atingindo corações e mentes com o objetivo de consolidar suas concepções de mundo, em relação à política, à economia, comportamento e cultura. É perigoso deixar que eles sejam os únicos formadores de opinião. A mídia independente, ou alternativa, se apresenta como um antídoto a essa capacidade da mídia tradicional, formulando juízos próprios sobre temas, fatos, personalidades ou valores, sem direcionamento determinado pelas forças dominantes da sociedade. Através dela, é possível aumentar o nível de consciência da população, se contrapondo ao que Gransci denominou de senso comum – o conjunto de valores e ideias aceitos por todos. O jornalismo crítico e sem amarras mercadológicas, produzido pela mídia independente, mostra que é possível superar o cenário de subserviência aos interesses políticos e individuais dos grupos empresariais.

www.reporteriedoferreira.com.br    Por Rui Leitão- Advogado, jornalista, poeta, escritor