Bar, boate e restaurante Casablanca Por Sérgio Botelho

PARAHYBA DO NORTE E SUAS HISTÓRIAS: Bar, boate e restaurante Casablanca
Sérgio Botelho
– Em 1993, o angolano Alfredo (Fred), que já virou pessoense carimbado, dono, então, do restaurante Adega do Alfredo, apresentou ao público outro empreendimento, o Casablanca, colado à casa de pastos marco inicial de toda a empreitada. Área bem localizada, num dos espaços mais valorizados da cidade de João Pessoa, do ponto de vista turístico, na bela e histórica praia de Tambaú, à Adega e ao Casablanca logo se juntou outra atividade empresarial: o Royal Hotel.
No Casablanca, um restaurante-boate, com shows, desfiles e música ao vivo, compondo ambiente bastante requintado, havia palco, mas também dancing movimentado ao ritmo de músicas selecionadas, onde, apesar de não ser exatamente uma discoteca, às antigas, naturalmente rolava o rock. (Uma das bandas locais habitués era o Molho Inglês, com a participação de Abelardo Jurema Filho, João Jurema, José Crisólogo, Washington Espínola e Marcelo Jurema).
O Casablanca nasceu sob a inspiração do sucesso hollywoodiano homônimo, de 1942, ambientado na capital do Marrocos, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, um dos maiores sucessos do cinema internacional. Por sinal, uma imensa tela no interior do Casablanca exibia permanentemente cenas do filme norte-americano, antes e depois de qualquer show, desfile ou de performance de bandas. A decoração acompanhava o estilo das décadas de 1940 e 1950. O ingresso na casa era bastante concorrido, em virtude de perfilar entre as casas noturnas mais frequentadas de João Pessoa, sendo muito difícil que alguém o conseguisse sem antes haver reservado uma mesa.
Fred aproveitava a cozinha da Adega do Alfredo para compor o cardápio do Casablanca, embora houvesse diferenças importantes entre as duas listas de pratos, e nas receitas dos que eram comuns. O proprietário se desdobrava pessoalmente para atender os clientes de ambos os empreendimentos, que funcionavam a um só tempo. Na verdade, aquela área da cidade, mais conhecida como Baixo Tambaú, reunia um bom número de ambientes de diversão, como ainda hoje acontece, transformando o referido espaço urbano num dos setores mais lúdicos da capital paraibana.
Desde então, nunca mais João Pessoa contou com empreendimento semelhante. Portanto, fica aqui registrada a existência do Casablanca, no Baixo Tambaú, em João Pessoa, há cerca de 30 anos, que, de tão singular, deixou saudade.
(A foto é cópia de jornal da época mostrando a banda Molho Inglês, que se apresentava com regularidade no Casablanca)
www.reporteriedoferreira.com.br Por Sérgio Botelho- Jornalista, poeta e escritor



UM SÁBIO RECADO PARA A CONTEMPORANEIDADE Por Rui Leitao

Publicado no jornal A UNIÃO edição de hoje:

UM SÁBIO RECADO PARA A CONTEMPORANEIDADE

Na História nacional encontramos homens públicos que tinham a capacidade de fazer pronunciamentos que se eternizaram, não perdendo a atualidade, podendo ser resignifiados na contemporaneidade, conforme o contexto político se assemelhe ao que vivenciaram quando se manifestaram. Descobri num dos discursos do nosso conterrâneo José Américo de Almeida uma declaração que se ajusta ao momento político que o país está vivenciando.

“Consciências inquietas profetizam, em vozes tremendas, adventos ruidosos. Atiçam a miséria impotente, as explosões da coragem coletiva, com risco dos choques desiguais. Não percamos a esperança. Poderemos, sem maldições, sem desforras sangrentas, na paz do Senhor, atingir o ideal democrático da inteligência, da cultura, das virtudes públicas, do bom governo que é a melhor propaganda contra as subversões”.

Se estivesse vivo, José Américo poderia repetir essa manifestação crítica na certeza de que o recado teria direcionamento certo, alcançando aqueles que continuam insistindo em criar um ambiente de tensão política, ameaçando o Estado Democrático de Direito. São “consciências inquietas” que pregam a desobediência civil às normativas legais vigentes, incluindo aí os preceitos constitucionais. Comportam-se, por estímulo, como pessoas virulentas, inimigas da paz.

Os enfrentamentos entre divergentes de pensamento ou de ideologias são atiçados, com o objetivo de encorajar os que tiveram as mentes capturadas pela retórica da beligerância, na defesa do indefensável. Não respeitam as diferenças, nem os fatos consumados. Numa postura antidemocrática recusam aceitar o que a maioria determinou numa eleição limpa e incontestável, a escolha do presidente da República.

José Américo aproveita para injetar ânimo nos que se colocam em favor da democracia, exortando-nos a manter acesa a chama da esperança de que um novo tempo se inicia. E que deveremos nos manter calmos, sem entrarmos no jogo das provocações, trabalhando, isso sim, na busca do encontro do congraçamento, pondo fim esse período de conflitos que experimentamos nos anos recentes.

Ele nos ensina que nessas circunstâncias de crises políticas, é preciso que coloquemos a razão acima da emoção. Agirmos com inteligência, vencendo os instintos produzidos pela ignorância cultural e o fanatismo. O bom governo será a melhor maneira de fazer desaparecer qualquer iniciativa de subversão da ordem, na prática de uma gestão voltada para o bem comum, objetivando adotar políticas de justiça social, sem preconceitos, sem transformar eventuais adversários políticos em inimigos.

É hora de recomeçar a caminhada. Todo dia é um novo desafio a vencer. Estejamos prontos para isso, sem medo dos que teimam em ameaçar a nossa democracia, fazendo valer os nossos direitos e respeitando os direitos dos outros. Convictos de que estaremos produzindo mudanças reais para a sociedade, garantindo um Brasil melhor para as futuras gerações.

Saibamos ouvir os sábios e procurar entender o que eles nos ensinam, mesmo que não estejam mais entre nós. Eles nos orientam para onde devemos ir e para onde não devemos voltar. Escutemos então a voz de um sábio. José Américo deixou para nós uma mensagem de entusiasmo para a resistência e continuarmos na marcha contra o golpismo e fortalecermos a nossa democracia reconquistada na base de muita luta e coragem.

www.reporteriedoferreira.com.br Por Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta e escritor.




Os Felizardos que deram nome à Praça João Pessoa Por Sérgio Botelho

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Os Felizardos que deram nome à Praça João Pessoa
Por Sérgio Botelho
– Sobre a história da atual Praça João Pessoa, sempre me intrigou a sucessão de denominações ostentadas por aquele logradouro público, desde o seu início, segundo consta, nos primeiros anos do Século XIX. Antes disso, ao que me parece, era o Largo do Colégio, para se referir ao Colégio dos Jesuítas, um prédio ainda no local. Nesta terça-feira, 13, pela manhã, havia um desafio de gente amiga, a mim dirigida, pelo WhtsApp, nos seguintes termos: quem foi Felizardo Leite? Respondi o que sabia, inclusive que ele nunca fora comendador e sim médico, e fui pesquisar mais.
Felizardo Leite foi o último dos nomes usados, antes de se tornar João Pessoa, para cognominar a praça, uma das mais emblemáticas da vida urbana pessoense. Mas, lá atrás, no Século XIX, também foi chamada de Comendador Felizardo, o que termina provocando confusão de Felizardos. Descobri que são simplesmente avô e neto. Vamos lá: o Comendador Felizardo não era outro senão Felizardo Toscano de Brito, que viveu entre os anos de 1814 e 1876, nascido em Parahyba (ou seja, na atual João Pessoa, embora haja quem crave seu local de nascimento como Mamanguape), e que se notabilizou por ter sido vice-presidente da Província da Parahyba, por vezes assumindo a presidência.
O mais recente, Felizardo Toscano Leite Ferreira, nascido em 1863, segundo obituário publicado em A União de 29 de maio de 1930, era filho de João Leite Ferreira, chefe político liberal e proprietário de terra em Piancó, e de Eugênia Toscano de Brito, por sua vez, filha do primeiro Felizardo, o comendador, e ele, portanto, neto. Sobre Felizardo Leite, que se formou em Medicina na Bahia, o que se diz é que nasceu em Piancó, onde efetivamente faleceu em 1930, de bem com Epitácio Pessoa e com João Pessoa, com os quais andou de mal. (Mas há também quem o inscreva como nascido na cidade de Parahyba). Felizardo Leite foi deputado federal e estadual, eleito com base em Piancó, e exerceu a presidência da Assembleia Legislativa no período de 1908 a 1910. Pois bem. Esses, segundo apurei, são os dois Felizardos que, em épocas diferentes, emprestaram seus nomes à Praça João Pessoa.
(A foto, do Acervo Walfredo Rodrigues, postada por Vandilo Brito, no Facebook, é da Praça Felizardo Leite, em 1930, onde ainda se vê o belo coreto, substituído pelo Altar da Pátria, e a estátua de Epitácio Pessoa, que depois foi para início da avenida do mesmo nome, entre a Praça da Independência e Tambaú)
Pode ser uma imagem de texto que diz "1930- Aspecto da Praça Felizardo Leite, atual João Pessoa."
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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS: Revista Vida & Cultura Sérgio Botelho

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS: Revista Vida & Cultura
Sérgio Botelho
– Nos meus tempos de criança e pré-adolescente, no Centro de João Pessoa, fomos vizinhos do doutor Heronides Alves Coelho, psiquiatra nascido em Timbaúba-PE e formado na Faculdade de Medicina de Pernambuco (mas que escolheu João Pessoa para exercer sua vida profissional), de sua esposa, dona Lourdes, e dos seus filhos. O fato de me referir à essa família, cujos filhos são todos meus amigos de sempre, deve-se ao meu contato de jovem curioso com uma revista, sob a responsabilidade do referido médico, chamada Vida & Cultura.
Apesar dos artigos da publicação serem escritos em linguagem culta e em cima de temas profundos e, outras vezes, bastante técnicos, quando ia à casa dele, levado pelos meus amigos filhos do editor, essas revistas, amontoadas para distribuição, me encantavam. Não que apresentassem feição gráfica muito rebuscada, assim como as revistas de hoje, nem mesmo cheias de ilustrações em suas páginas internas. Mas me atraiam e, não raras vezes, me pegava lendo, com grande interesse. E, então, ficaram na minha memória. Hoje sei melhor a respeito. Vida & Cultura abordava assuntos que iam da ciência, território do editor, transitando pela literatura, pela música e pela poesia. Era, portanto, uma publicação científico-cultural importante, na época.
A revista, segundo me esclarece um dos filhos de doutor Heronides e dona Lourdes, José Carlos Alves Coelho, a quem recorri para adjutórios à memória, era editada pela Sociedade Cultural Luso-Paraibana de Estudos e Pesquisas, fundada por ele mesmo, o editor da revista. Como uma coisa puxa a outra, fui pesquisar, e o nome da Sociedade me levou a outra descoberta importante, que mostra a inserção definitiva do doutor Heronides entre os pessoenses considerados. Foi ele o fundador da cadeira 18 do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, que tem como patrono o ex-presidente da Província da Paraíba, Beaurepaire Rohan, e, na condição de atual ocupante, a professora Glauce Burity.
Da revista Vida & Cultura participavam, por meio de artigos, figuras credenciadas nas letras, na ciência e na cultura em geral, não apenas do país, mas também de Portugal. Doutor Heronides foi, durante a vida, um grande estimulador das melhorias das relações entre Brasil e Portugal, envolvendo a Paraíba e a publicação nesse processo. Em função do propósito, é autor de um artigo, publicado na revista Vida & Cultura (segundo a biografia com que o distingue o IHGP), intitulado “Maior Aproximação entre Portugal e Paraíba”, datado de 1961, o que bem revela seus interesses científicos e diplomáticos.
Nossos tempos contemporâneos, tão favoráveis a publicações desse tipo, contrastam com aqueles em que surgiu a revista Vida & Cultura, o que enaltece o pioneirismo e a dedicação do doutor Heronides Alves Coelho, que chegou a proferir, em 1962, palestra na vetusta Sociedade de Ciências de Lisboa, conforme também nos faz lembrar a biografia patrocinada pelo IHGP. Por conta disso é que inscrevo a revista Vida & Cultura entre essas histórias da Parahyba do Norte que venho postando no Facebook, no rumo de um novo livro.
(Foto: Capa da revista nº 25, Ano VI, de 1963, anunciando os seguintes artigos: sobre a “Concepção moral do cangaceiro nordestino”; sobre o professor português “Egas Moniz”, médico, neurologista e escritor, falecido em 1955; sobre a “Irmã Maria Josefa do Santíssimo Sacramento”, fundadora da Congregação das Irmãs Hospitalares do Sagrado Coração de Jesus; sobre o “diagnóstico da tuberculose”; sobre “Conselho Regional de Farmácia”; sobre as relações “Portugal-Brasil”; sobre a “Tomada de Goa”, quando o exército indiano acabou com o domínio português, de 451, sobre Goa, fato ocorrido em 1961; e outros)
Pode ser uma imagem de texto que diz "ANO ANOVI VI 1963 JOÃO PESSOA PARAIBA BRASIL Oida & Cultura NESTE NÚMERO: 3 CONCEPÇAO MORAL DO CANGA CEIRO NORDESTINO PROFESSOR EGAS MONIZ MADRE MARIA JOSEFA DO SS. SA- CRAMENTO DIAGNO“STICO TUBERCULOSE CONSELHO REGIONAL DE FARMA 22 25 51 PORTUGAL BRASIL TOMADA DE GOA MÃE SOCIAIS & REVISTAS SULCO AGULHA ÚLTIMA PAGINA 第1 PRÊÇO CR$ 150,00 ORGAC OFICIAL DA SOCIEDADE ULTURAL LUSO PARAIBANA DE ESTU PESQUISAN"

O popular “Apito de Ouro” Por Sérgio Botelho

(A foto foi copiada do site A Briosa, da Polícia Militar da Paraíba)
PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Antônio Augusto da Silva, o popular “Apito de Ouro”
Sérgio Botelho – Não tem motorista que se lembre de ter sido multado pelo policial de trânsito Antônio Augusto da Silva, o popularíssimo, até hoje, “Apito de Ouro”.
Preferia aproveitar a ocasião para transmitir regras de trânsito, geralmente no cochicho, bem baixinho! Lembrando que em seu tempo o serviço de ordenamento do trânsito em João Pessoa era feito por um segmento específico da Polícia Militar. Apito (olha a intimidade!) exerceu suas funções com maior destaque nas décadas de 1960 e 1970, e virou atração não só para os da cidade, como também para os visitantes. Pense num trabalhador que gostava do que fazia! Dava um show, quase sempre no circuito do centro da cidade.
Armado com o apito e seus silvos, ele comandava motoristas e pedestres num trânsito cada vez mais complicado na capital paraibana. Não seria demais compararmos a coreografia de “Apito de Ouro” ao personagem Carlitos, idealizado e interpretado pelo genial Charles Chaplin. Seus singulares movimentos em serviço eram um espetáculo! Como se trata de uma descrição perfeita, abro espaço para o que diz o site A Briosa, da Polícia Militar da Paraíba, sobre os movimentos do então soldado Antônio Augusto: “Ele ficava no centro do cruzamento, de frente para um fluxo de veículos, levantava o braço direito, dava um apito longo e abria os dois braços, fazendo os veículos pararem.
Feito isso, ele fazia o movimento de direita volver, e ficava de frente para o outro fluxo, segurava o apito com a mão esquerda, ficava emitindo apitos intermitentes, e, depois, com os dois braços acenava para os carros seguirem em frente. Ele ficava no meio da rua e os carros passavam por um lado e por outro dele. Aí ele parava de apitar e passava a cumprimentar todos os motoristas com acenos e sorrisos”. Antes que esqueça, o apito de ouro lhe foi conferido não por alguma entidade oficial, mas pela sociedade civil organizada e por seus colegas da PM que, espontaneamente, lhe outorgaram o apelido, ao qual ele atendia com orgulho e presteza, e até uma réplica física dourada do apito que lhe serviu de instrumento de trabalho a sua vida profissional inteira.
A fama do nosso personagem alcançou o estado todo. Tanto assim que na década de 1980 atendeu a convites de cidades do interior paraibano para difundir seu trabalho e as regras de trânsito, geralmente acompanhado por multidões. Um trabalho que divertia e ensinava, portanto. Apesar das pouquíssimas letras, era um sábio. Querem se convencer, leiam o pensamento a seguir, pois é dele: “… não é o castigo ou a autoridade que vai fazer com que ele não faça a coisa errada.
É a advertência. O Brasil não quer violência, não quer guerra, quer paz, … e muito amor”. O cabo (patente que conseguiu ao se aposentar) Antônio Augusto, um verdadeiro general do trânsito pessoense, faleceu em 28 de abril de 2019, aos 76 anos, de falência múltipla dos órgãos. Em seus tempos de muito sucesso, lhe ofereceram uma candidatura a vereador, rejeitada de pronto. Seu maior desejo era ser delegado de trânsito, sonho que ele considerou inalcançável por conta de suas poucas letras. Em seu louvor, até onde sei, há um auditório em um dos organismos da polícia militar que ostenta o seu nome. Um nome para sempre na saudosa memória dos que o viram trabalhar nas ruas de João Pessoa, para nunca mais outro igual!
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As velhas mercearias Por Sergio Botelho 

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS: As velhas mercearias

Por Sergio Botelho

(A foto é ilustrativa, não é local)
Pode ser uma imagem de 1 pessoa, secador de cabelo e gira-discos
Sérgio Botelho – Ainda hoje elas resistem em bairros afastados e nas grandes cidades e vilarejos do Interior. Ou em feiras livres. Porém, sem o mesmo significado econômico e social de antigamente. Falo das mercearias, também conhecidas como ‘vendas’, que paulatinamente foram sendo substituídas por mercadinhos e supermercados. Até as décadas de 1950, 1960 e início da de 1970, no entanto, elas cumpriam papel de grande relevo no dia a dia da vida pessoense. Nas mercearias era onde as famílias supriam suas necessidades diárias, apesar de frequentemente se constituírem em espaços apertados e abarrotados, com produtos expostos em prateleiras até o teto.
Geralmente, era o próprio dono quem buscava os itens para os clientes. Do meu tempo de criança e adolescente, no centro da cidade, lembro perfeitamente de três: uma delas, a de “seu” Dutra, ficava em frente ao prédio do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, na esquina da Barão do Abiahy; quase vizinha, havia a de “seu” Raimundo, que passava o dia todo cantarolando “humhumhumhumhum”, sem que ninguém conseguisse compreender direito a melodia; a outra, a de “seu” Lucena – das três, a mais apetrechada -, funcionava na esquina da Visconde de Pelotas com a Praça Rio Branco, onde hoje existe um pequeno shopping. Mas havia muitas outras mercearias importantes em bairros da capital paraibana.
Os donos frequentemente conheciam seus clientes pelo nome e pelas suas preferências. Ao invés do quilo de feijão, a depender das necessidades e do poder aquisitivo do consumidor, você podia se restringir a um meio-quilo. Ou até a um pouco menos. Havia ainda o charque, a farinha, os condimentos. (As verduras e legumes, a dona de casa comprava mesmo na porta, com os verdureiros, outra figura diária da vida pessoense de épocas pretéritas, ou nas feiras livres). “Vou fazer a mercearia”, assim se expressava a dona de casa ou seu marido, mais especialmente aos sábados. Referia-se à feira da semana. Não era incomum que os donos fossem meio que irascíveis, brabos. “Seu” Raimundo, por exemplo, ficava “uma arara” com reclamações sobre mercadorias. Pior ainda com os pinguços, figuras inseparáveis das mercearias.
Eles viviam a basicamente e mendigar por uma dose de cachaça, para alimentar o vício. Em troca, prestavam alguns favores aos donos daqueles pequenos negócios. E, até, serviam de eventuais seguranças. Não é possível esquecer uma das maiores características das mercearias: a indefectível cadernetinha, que anotava o tão comum fiado. No interior do estado, por exemplo, existia o costume de políticos ajuntarem votos arrematando o fiado de clientes. Dizem que até hoje! É preciso assinalar, ainda, que nesse tipo de comércio acontecia um certo escambo. Você trocava mercadorias. Por exemplo: ferro velho, garrafa etc.
Qualquer coisa que fosse possível ao merceeiro comercializar depois. Devagar, elas foram cedendo espaço, sem muito ruído, apesar de ruínas particulares, à sofisticada ditadura do marketing largamente exercida pelos supermercados. Fruto, evidentemente, da evolução dos tempos, inaugurando uma nova fase do consumo, onde você entra no estabelecimento para adquirir mercadoria x ou y, e termina levando quase o alfabeto inteiro. Sobretudo, as velhas mercearias deixaram um legado cultural significativo, simbolizando uma época de simplicidade, proximidade comunitária e comércio local.
(A foto é ilustrativa, não é local)
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Árvores marcantes na vida pessoense Por Sérgio Botelho

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS:
Árvores marcantes na vida pessoense
Sérgio Botelho
– Quanto mais as árvores estiverem ligadas às vivências coletivas, mais peso histórico terão. Há, pelo menos, três exemplos, na paisagem sempre muito verde da cidade de João Pessoa, que mantiveram significativa ligação com a urbe pessoense, enquanto viveram, e que, por isso, permanecem na minha memória de criança e adolescente. De comum, possuíam elevado porte e se erguiam majestosas no cenário urbano da capital paraibana, derramando sombra generosa por vasta área onde fincaram suas enormes e portentosas raízes.
Uma delas existiu bem no caminho que muitas vezes percorri quando retornava do Pio XII ou, em outro tempo, do Lins de Vasconcelos, para a minha residência, ali mesmo no Centro da cidade. Falo num belo Pé de Ficus, na Praça Rio Branco, mais para a Duque de Caxias, bem em frente à antiga Rádio Patrulha e ao lado da Delegacia da Receita Federal. A outra, uma gameleira, também pertencente à família do Ficus, que havia no Roger, plantada no início da década de 1960, e que passou a ser referência a moradores e a quem quisesse melhor se achar naquele tão tradicional bairro de João Pessoa.
A gameleira do Roger, na avenida Dom Vital, foi uma dessas árvores que marcou a vida diária da cidade das Acácias, fazendo parte das lembranças, não apenas da população local, como de todos os que, um dia, passaram por baixo ou ao largo de sua sombra. Em sua existência, a gameleira do Roger acabou substituindo o próprio nome da rua, já que uma parte da Dom Vital passou a ser conhecida, durante o tempo de vida da árvore, como rua da Gameleira. Enfim, mais uma gameleira, plantada no início da praia de Manaíra, na altura do antigo Elite Bar, que fazia grande sucesso.
A gameleira de Manaíra servia de refúgio contra o sol a quem procurava a praia, em João Pessoa, vindo dos mais diversos municípios do estado, bem como, é claro, da própria capital paraibana. Existiu ali no final da Rui Carneiro, fazendo parte do cenário onde por muito tempo pontificou o nunca esquecido Elite Bar. De tão marcante, o local ainda é conhecido como Largo da Gameleira. O tempo, junto com o crescimento da malha urbana pessoense, aí incluídas, é claro, as calçadas e o asfaltamento das ruas, acelerando o envelhecimento das árvores, já incômodas por conta de suas proeminentes raízes, se encarregaram de matar esses espécimes da flora que, por algum tempo, embelezaram João Pessoa.
(A foto é do Largo da Gameleira, hoje)
Pode ser uma imagem de horizonte e oceano
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Churrascaria Bambu, pedaço memorável da boêmia pessoense Sérgio Botelho

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Churrascaria Bambu, pedaço memorável da boêmia pessoense
Sérgio Botelho
– Impossível falar da década de 1960 e início da de 1970 sem lembrar da Churrascaria Bambu. Local que acolhia a elite intelectual pessoense e paraibanos e artistas nacionais e estrangeiros e todas as tribos possíveis de noctívagos ao longo de muito tempo. Paulo Pontes, Ipojuca Pontes, Geraldo Vandré, Linduarte Noronha, Wladimir Carvalho, Virgínius da Gama e Melo, Marcos Tavares, Barreto Neto, Anco Márcio, Juarez Batista e Carlos Aranha, além de outras celebridades e subcelebridades da vida pessoense, passaram por suas mesas e saborearam da cerveja e do rom Montilla (uma das bebidas mais procuradas nos bares pessoenses na época), ali servidos.
Mas também da peça de resistência do lugar, comandado pelo seu proprietário, Domingos Sávio Monteiro, que era o galeto, servido com fartura e presteza, acompanhado de vinagrete e arroz, por garçons como José Paulo e Batista. Uma delícia para nenhum comensal botar defeito. Dois de seus mais fervorosos frequentadores eram Caixa d’Água e Mocidade, com destaque para o primeiro que, quando da sua derrubada, em 1973, passou dias a fio sentado num dos bancos da Lagoa acompanhando a queda de pedra por pedra, haste por haste de bambu.
A Bambu coincidia com o final da rua Desembargador Souto Maior – originalmente, rua São José – justamente embaixo do bambuzal que adorna o Parque Solon de Lucena. Para não se diferenciar do ambiente que lhe servia de moldura, foi erguida com a utilização do próprio bambu aliado à alvenaria. Dessa forma, nunca, absolutamente, nunca fez mal ao ambiente original do parque, nem muito menos ao seu visual. Quando se fala em Bambu e de seu arruinamento logo vem à baila, como motivo, um badalado assassinato que ali aconteceu patrocinado por filhos de pessoas influentes da época. Pessoalmente, não vejo isso como motivo, já que tal crime não foi patrocinado pelos proprietários do empreendimento nem fazia parte do modus operandi dos seus frequentadores.
Para compensar a perda do ponto, a prefeitura municipal cedeu um espaço no Parque Arruda Câmara para que os proprietários da Bambu explorassem um outro bar-restaurante de nome Paraibambu, sobre o qual até já falei por aqui. Mas que, apesar do brilho de músicos como Fernando Aranha e Ademir Sorrentino, ases da bossa-nova local, em meio a paradisíaco ambiente, nunca substituiu o que representou a Bambu durante sua existência. Infelizmente, a Bambu foi ao chão, e desapareceu do mapa, para nunca mais!
(A foto foi postada por Zé Marcos Mello no grupo Paraíba Fatos e Fotos Antigas, do Facebook)
Pode ser uma imagem de parquímetro, rua e texto que diz "1960 - Churrascaria Bambu no Parque Solon de Lucena."



PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Carboreto Sérgio Botelho

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. Carboreto
Sérgio Botelho
– Nunca soube de onde aquele campinense de estatura baixa que fez fama em João Pessoa principalmente durante a década de 1980, conhecido como Carboreto, tirou o seu apelido. Sei que carbureto, assim, com ‘u’, é um derivado do carbono, inflamável, explosivo, produtor do gás acetileno, costumeiramente utilizado para apressar o amadurecimento de certas frutas, especialmente banana e abacaxi.
Carboreto andava pelas ruas e bares e repartições e bancos de João Pessoa assim como faziam Mocidade, Vassoura e Caixa d’Água, guardadas as devidas aptidões de cada um deles. É dele a frase famosa “pra ser doido em João Pessoa é preciso ter muito juízo!” Está se vendo que ele não era doido! Metido quase sempre em um terno, todo o tempo foi de trabalhar. Não digo que ele não pedisse de vez em quando algum recurso aos amigos para a sua sobrevivência. Mas quando o fazia, era de forma discreta. Por necessidade, exatamente.
Era comum encontrá-lo com uma bolsa tipo 007 contendo bugigangas para vender. Vendia de tudo. Quando morreu, na primeira metade da década de 90, atropelado, no Bessa, Carboreto estava trabalhando. Portava um par de óculos com luz própria, certamente à venda. Carboreto estava sempre apressado. O mais cruel é que havia conseguido, pouco antes, um emprego de assessor parlamentar na Assembleia Legislativa. Segundo dizem, emprego concedido pelo então deputado estadual Domiciano Cabral.
Em João Pessoa, ele conhecia todo mundo, especialmente os boêmios, apesar de não ser um deles. Sem dúvida, a figura impressionava muito menos pelo porte e muito mais pela desenvoltura, pela força de vontade, uma espécie de caubói numa metrópole. Quando se sentia ameaçado, ou muito ironizado, Carboreto reagia. Ele não era assim tão manso, não! E nem devia ser! A luta pela sobrevivência numa capital com todas as suas humanas diferenças e necessidades e perigos e gente boa, mas também ruim, sugere que sejam evitados comportamentos excessivamente passivos. Mesmo residindo na capital, Carboreto nunca abandonou sua cidade natal, Campina Grande.
Fazia figura tanto ao nível do mar quanto no alto da Serra da Borborema, desse jeito, frequentando, nas duas cidades, as mesas mais importantes das noites locais. Sem qualquer exagero, nosso personagem era uma figura notável. (A foto que pesquei na Internet parece ser mesmo de Carboreto, contudo, não muito representativa do que foi, já que aparece como que empunhando um copo de whisky, o que não corresponde ao seu perfil mais conhecido).
Pode ser uma imagem de 1 pessoa
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Loja maçônica Grande Oriente da Paraíba Por Sergio Botelho

PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS.
Loja maçônica Grande Oriente da Paraíba, na Rua da Areia
Por Sérgio Botelho
– Andar pela rua da Areia é inevitavelmente um passeio emocionante. Afinal, trata-se de uma das vias públicas da capital paraibana abertas nos primeiros instantes da cidade, quando o aglomerado humano e físico foi subindo a partir do Varadouro.
Nessa condição, foi palco de muitas histórias. Houve um lapso de tempo em que foi chamada de Barão da Passagem em louvor a um militar brasileiro da Guerra do Paraguai. Mas não pegou. Ficou Rua da Areia, mesmo, até hoje, por conta justamente da quantidade de areia que escorria pela rua e se juntava na sua parte final, em seus primórdios.
Por tudo o que representa, será um capítulo especial desta série Parahyba e suas Histórias. Nesta quarta-feira, 19, fiz uma breve incursão àquela artéria com objetivo determinado, qual seja o de visitar dois prédios históricos em meio a inúmeros outros também a reivindicar antiguidade. Sobre um dos dois visitados escrevo hoje, justamente o que se encontra mais bem cuidado, porque funcional. É o da foto que ilustra a matéria.
Nele atualmente operam serviços próprios de mais que uma loja maçônica, embora seja reconhecido como sede da Loja Grande Oriente da Paraíba. O resultado da utilização é que o prédio está bem apresentável, como se diz. Encontrei, inclusive, um atencioso cidadão que bota sentido na vetusta obra. Tomo conhecimento que, embora sem uma data exata para sua origem, no final do Século XIX a edificação já existia. A informação é do Memória João Pessoa, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Paraíba, esclarecendo que a sua existência foi registrada pelo fotógrafo-historiador Walfredo Rodrigues como sendo, no final do XIX, a representação da França, cujo cônsul era à época Aron Cahn, alto negociante no comércio de exportação local.
Nos anos 1900, o prédio, que até ganhou mais um andar, ficando em três, e platibanda (opção arquitetônica que cobre o telhado), serviu como pensionato, Secretaria de Segurança Pública e Instituto Médico Legal. Segundo descrição técnica no Memória João Pessoa, o prédio tem estilo “neoclássico como a verga em arco pleno na porta principal e na do segundo pavimento, e as janelas superiores com a bandeira de vidro”, e está tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Paraíba (Iphaep) por meio do Decreto nº. 8.628, de 26 de agosto de 1980. Quando cruzarem por sua calçada, não deixem de lhe conceder atenção, pois tem história.
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