O último fogo da Inquisição: Ruyi Leitao
Na última quinta-feira, neste espaço, relembrei o assassinato do guerrilheiro Carlos Lamarca, durante os 21 anos em que o Brasil viveu sob uma ditadura militar. Hoje, rememoro a execução do padre jesuíta Gabriel Malagrida, ocorrida em 21 de setembro de 1761, em Lisboa, naquele que seria o último grande auto de fé da Inquisição portuguesa em que um condenado foi executado na fogueira.
Malagrida, italiano de nascimento, fez praticamente toda a sua trajetória missionária no Brasil, onde atuou em diferentes regiões do Norte e Nordeste. Já septuagenário e debilitado pelos anos de missões, Malagrida passou cerca de dois anos e meio encarcerado em condições extremamente severas. Acabou entregue à Inquisição, acusado de heresia, falsas profecias e outros delitos religiosos.
Tornou-se alvo da hostilidade do poderoso Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal. Visionário e místico, afirmava ter experiências e revelações divinas, dizendo manter contato com Deus e com a Virgem Maria. Pombal passou a tratá-lo como falso profeta e herege. O conflito entre os dois ganhou dimensão política, sobretudo porque o jesuíta possuía grande influência entre setores da aristocracia e mantinha vínculos com os círculos religiosos da Corte.
Em 1º de novembro de 1755, um violento terremoto destruiu grande parte de Lisboa, seguido por incêndios e por um tsunami que atingiu a costa portuguesa. A tragédia provocou milhares de mortes e deixou a cidade em ruínas. Nos dias que se seguiram, Malagrida passou a realizar missas e a proferir sermões nos quais interpretava a catástrofe como manifestação da vontade divina e castigo pelos pecados dos homens.
Em 1756, publicou o opúsculo Juízo da Verdadeira Causa do Terremoto, no qual atribuía o desastre à ira de Deus. A interpretação contrariava a orientação racional e pragmática de Pombal, empenhado na reconstrução da cidade e na afirmação da autoridade do Estado.
Pombal acabou determinando o desterro de Malagrida para Setúbal. Ali, o jesuíta continuou pregando e mantendo relações com setores da aristocracia portuguesa. A tensão entre ambos se agravou até que Malagrida fosse preso em 1758, no contexto das acusações decorrentes do atentado contra D. José I.
Depois de permanecer encarcerado por longo período, foi entregue à Inquisição. O tribunal acabou considerando heréticos alguns de seus escritos, entre eles textos relacionados a supostas revelações que afirmava ter recebido.
O desfecho foi uma das páginas mais sombrias da história portuguesa do século XVIII. A execução de Malagrida provocou forte repercussão na Europa e contribuiu para ampliar as críticas à Inquisição e à utilização política dos mecanismos de perseguição religiosa.
Sua morte tornou-se, assim, um símbolo do encontro entre fanatismo religioso, poder político e perseguição. Seu processo ocorreu num momento em que Pombal procurava reduzir a influência dos jesuítas e fortalecer a autoridade da Coroa. A execução não pode ser compreendida apenas como um episódio religioso: ela também se insere na disputa política e institucional que marcou Portugal naquele período. Sua morte, longe de representar a força de seus algozes, acabou contribuindo para expor ao mundo a brutalidade de um sistema que confundia fé, poder e punição.
Rui Leitão



