Letra Lúdica Hildeberto Barbosa Filho Chico no imaginário literário Diz Roland Barthes, em uma de suas lúcidas ponderações, que o bom texto tende a gerar, quase sempre, outros bons textos. De fato, uma coisa puxa a outra. Da literatura brota a literatura; da arte, a arte; da cultura, a cultura, num diálogo intertextual dinâmico e permanente. A criação do novo, portanto, tem muito a ver com a recriação do velho. Sem tradição, nada flui na renovação dos processos expressivos e na descoberta de novos caminhos.
Tais reflexões me vêm, ao considerar a presença forte das composições musicais de Chico Buarque de Holanda no imaginário literário e no esforço exegético que elas sugerem e estimulam, como comprovam, em âmbito local, duas obras que podem despertar o interesse de todos aqueles que admiram e amam as virtualidades estéticas do autor de “Carolina” e “Construção”. São elas: Um olhar interpretativo das canções de Chico, de autoria de Rui Leitão (João Pessoa: Ideia, 2018), e As mulheres de Chico: 20 crônicas, seleção, organização e notas de José Mota Victor; aquarelas de Vandeberg de Medeiros (João Pessoa: Dgiusepe Editorial: Confraria dos Bibliófilos da Paraíba, 2023). A primeira, tive o prazer de prefaciar. E me surpreendi com a quantidade de canções que o jornalista Rui Leitão seleciona para, sob a luz do olhar interpretativo, trazer à tona os motivos, temas e subtemas que elas sugerem ou propõem. Salvo engano, constam 98 composições, examinadas principalmente em seus aspectos semânticos e contextualizadas em função de seus apelos emotivos, artísticos e sociais.
Luigi Pareyson, num dos capítulos de Os problemas da estética, afirma que o percurso interpretativo é plural e infinito. É variado e inesgotável. Muda, portanto, com as épocas e com as posições do leitor. Não obstante, tais mudanças devem, decerto, estar em sintonia com as perspectivas e os apelos do objeto interpretado, para que possam valer em sua análise e em suas conclusões. A tal exigência não foge o esforço heurístico de Rui Leitão. A lucidez e a capacidade crítica, com que desenvolve seu articulismo político, também se cristaliza aqui, quando procura esmiuçar, a partir de sua sensibilidade e conhecimento musicais, o refinado repertório legado por Chico Buarque de Holanda na diversidade rítmica e melódica de suas canções.
A segunda se apresenta como obra coletiva, em que 20 vozes, entre autores e autoras, cada uma a seu modo, elaboram uma crônica a partir das personagens femininas existentes nas letras e canções de Chico. Não se trata, a rigor, de exercícios de interpretação ou de análise, porém, de criação, diria mesmo de co-criação, tomando-se como referencial esta ou aquela mulher que o compositor e cantor descreve, enaltece ou configura. É assim, por exemplo, que Geni, Bárbara, Januária, Iracema, Madalena e Teresinha, entre outras, voltam à cena, desta feita, deslocadas do eixo musical propriamente dito, para se transmutar em protagonistas de crônicas que com elas dialogam sob o ângulo de visão e do estilo de cada cronista. Ambos os livros prestam homenagem ao grande artista brasileiro e alargam, sem dúvida, o complexo quadro de suas ressonâncias no âmbito da pesquisa e da criação. E provam que Barthes tem razao.
(Publicado hoje, 23/08/26, em A União)


