Gênese do Escândalo Banco Master;  Por Valter Nogueira

O escândalo envolvendo o Banco Master e seu principal acionista, Daniel Vorcaro, revela uma complexa rede de influência que conecta o mercado financeiro, órgãos reguladores e o núcleo político brasileiro. Conforme as investigações da Polícia Federal e os desdobramentos políticos apontam, os elos dessa engrenagem atravessam diferentes esferas de poder.

A base institucional do avanço do Banco Master remete ao governo de Jair Bolsonaro e ao Banco Central. Investigações apontam que a expansão e a posterior regularização de operações da instituição financeira ocorreram sob a gestão de Roberto Campos Neto na presidência do BC.

A homologação e o reconhecimento de atos ligados ao banco, assinados durante o período de transição regulatória, a partir de setembro de 2019, são apontados por investigadores como o marco inicial que permitiu ao Master atingir o patamar que culminou na posterior intervenção/liquidação.

O BC sob Campos Neto é citado como o órgão que deu a chancela necessária para o funcionamento e expansão da instituição, mesmo diante de alertas sobre a liquidez do Master.

Em seguida, aparece a operação e o trânsito pelo Governo do Rio de Janeiro, ainda na gestão de Pesão – apontado como boneco manipulado pelo clã Bolsonaro. Isto é, o esquema também fincou raízes em solo fluminense. Os tentáculos do banco passaram por aportes e movimentações junto ao Governo do Rio de Janeiro e suas estatais (como a Cedae).

O envolvimento da máquina pública fluminense envolve sindicâncias para apurar como recursos foram direcionados ou aportados no banco de Daniel Vorcaro, misturando interesses da cúpula do governo local com a liquidez da instituição financeira.

Em paralelo, surge o ‘operador político’. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e uma das principais lideranças do Centrão, emergiu nas investigações da PF (como a Operação Compliance Zero) como o “destinatário central” de repasses financeiros.

Neste contexto, mesadas e nenefícios. Diálogos obtidos no celular de Vorcaro apontam para suspeitas de uma mesada de R$ 500 mil mensais paga ao senador, além do usufruto de imóveis de luxo e viagens internacionais custeadas pelo banqueiro.

Moeda de troca

Banqueiro não é generoso por acaso. Entra em esquema em troca de benefícios. Nesse sentido, entra em cena o que é denominado ‘Articulação Política/Legislativa. Nesse campo, Ciro Nogueira atuou na defesa dos interesses do Master no Congresso Nacional, chegando a propor emendas (conhecidas nos bastidores como “Emenda Master”) para alterar regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Distrito Federal

A ramificação em Brasília envolve diretamente o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e as conexões políticas locais, incluindo o Banco de Brasília (BRB). A diretoria de fiscalização do Banco Central e as investigações cruzaram dados de episódios em que agentes ligados ao GDF e ao banco estatal do DF mantinham proximidade e trânsito com os operadores do Banco Master, unindo o poder executivo da capital federal aos interesses do grupo econômico de Vorcaro.

Núcleo familiar e projetos

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece no topo da pirâmide de conexões políticas do escândalo. A relação é tanto política quanto financeira. Primeiro, a aliança eleitoral em que Ciro Nogueira vinha sendo desenhado como o “vice dos sonhos” na chapa de Flávio Bolsonaro para as eleições de 2026. O avanço das investigações sobre Ciro abalou, calro, essa estratégia.

Reportagens e investigações, como as reveladas pelo The Intercept Brasi, apontaram áudios, mensagens e transferências que ligam Flávio Bolsonaro à cobrança de valores junto a Daniel Vorcaro. No áudio, Flávio fala do filme e, também, cita outras contas (“cheio de contas pra pagar”) – o áudio revela relação de proximidade financeira com o banqueiro.

O dinheiro teria como destino o financiamento de projetos de propaganda e de blindagem política, incluindo a produção do filme “Dark Horse”, inspirado em Jair Bolsonaro, além de repasses a marqueteiros e influenciadores digitais para atacar o Banco Central e desviar o foco das investigações.

Resumo

O caso do Banco Master ilustra um ecossistema onde a facilitação regulatória inicial no Banco Central (Campos Neto/Bolsonaro) abriu portas para a captação de recursos públicos em governos estaduais (Rio de Janeiro e DF/Ibaneis), sustentada pela forte articulação e lobby financeiro do Centrão (Ciro Nogueira) com o objetivo final de subsidiar e blindar o núcleo político da extrema-direita (Flávio Bolsonaro).

www.reporteriedoferreira.com.br/Por Valter Nogueira

RELACIONADOS
ÚLTIMAS