A Globo finalmente tirou a máscara?; Rui Leitao
A Globo cancelou o debate presidencial que estava previsto para esta noite depois que o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, decidiu não participar. O episódio, por si só, abre uma pergunta incômoda: por que a ausência de um candidato seria suficiente para desarmar todo o palco?
Até então, a emissora procurava transmitir a imagem de que estava apenas cumprindo seu papel jornalístico. Mas o cancelamento, diante da desistência de um dos participantes, alimenta a percepção de que aquele debate dependia muito mais de uma determinada composição do que se imaginava.
O cenário seria particularmente confortável para Flávio Bolsonaro. Os candidatos confirmados apresentavam posições políticas próximas em diversos temas, enquanto Renan Santos aparecia como uma voz crítica tanto ao candidato do PL quanto a Lula. Sua presença introduzia um elemento de imprevisibilidade que poderia alterar completamente a dinâmica do confronto.
Foi aí que apareceu a pedra no caminho, para lembrar a conhecida imagem de Carlos Drummond de Andrade.
Renan Santos, como um candidato que se apresenta fora do alinhamento tradicional dos dois polos que dominam a disputa, poderia fazer perguntas e ataques que dificilmente seriam ignorados. E Flávio Bolsonaro, que vem sendo cobrado publicamente sobre questões que envolvem sua candidatura, teria de responder diretamente diante das câmeras.
A recusa de Lula em participar do debate foi justificada por sua avaliação de que estaria em desvantagem num confronto com três adversários, com pouco tempo para responder aos ataques. É uma posição que pode ser politicamente contestada, mas é diferente do que ocorreu com Flávio: sua desistência veio às vésperas do debate e acabou provocando o cancelamento do programa.
E aqui está a questão que não pode ser ignorada:
Se um candidato pretende ocupar a Presidência da República, como poderá enfrentar os problemas gigantescos do Brasil se não estiver disposto a enfrentar perguntas difíceis de seus adversários?
Presidente não governa em ambiente protegido. Não escolhe as perguntas que receberá, nem os interlocutores que encontrará. Terá de enfrentar Congresso, imprensa, oposição, movimentos sociais, crises econômicas, conflitos internacionais e uma sociedade plural e muitas vezes crítica.
Debate eleitoral não pode ser uma encenação em que cada candidato sabe previamente de onde virão as perguntas e quais serão os adversários mais convenientes.
Quando um candidato desiste porque surgiu alguém disposto a confrontá-lo, o problema deixa de ser apenas o debate. Passa a ser o próprio debate sobre a capacidade de enfrentar o exercício da Presidência.
www.reporteriedoferreira.com.br/Rui Leitão, advogado, jornalista, poeta, escritor


