POR QUE O ÓDIO A LULA?: Rui Leitao 

POR QUE O ÓDIO A LULA?: Rui Leitao

É legítimo não gostar de Lula. É legítimo discordar de suas ideias, criticar seus governos, rejeitar o PT e até votar contra ele. A democracia existe justamente para garantir o direito à divergência. Mas há uma pergunta que merece ser feita: por que, para uma parcela da sociedade, a rejeição a Lula ultrapassou o campo da política e transformou-se em verdadeiro ódio pessoal?

Lula deixou de ser apenas um político. Para milhões de brasileiros, tornou-se um símbolo. Símbolo da ascensão social dos que nasceram pobres, da chegada de trabalhadores ao centro do poder, da inclusão de parcelas historicamente marginalizadas e de uma determinada visão sobre o papel do Estado e da sociedade.

É justamente aí que está uma parte da explicação.
Para alguns setores, a ascensão de Lula representou uma mudança incômoda na velha hierarquia social brasileira. O operário que chegou à Presidência tornou-se uma ruptura com a tradição de que o poder político deveria permanecer restrito às elites econômicas, intelectuais ou familiares.

Não se trata de afirmar que todo adversário de Lula tenha preconceito de classe. Seria injusto e simplificador. Existem críticas políticas legítimas, inclusive relacionadas à economia, às escolhas administrativas e às posições ideológicas de Lula.
Mas também seria ingenuidade ignorar que a história social brasileira deixou marcas profundas na maneira como determinadas pessoas enxergam quem pode ou não ocupar os espaços de poder.

Lula pode fazer algo que seus adversários defendiam durante anos e, ainda assim, haverá quem rejeite simplesmente porque foi Lula quem fez. A polarização brasileira tornou-se, em grande medida, afetiva: muitos não apenas discordam do outro; sentem necessidade de derrotá-lo moralmente. Talvez seja essa uma das maiores tragédias da política brasileira contemporânea.

E agora o ódio tem consequência eleitoral
A questão ganhou uma dimensão ainda mais concreta porque estamos a poucos dias do primeiro turno. A escolha presidencial não está sendo determinada apenas pela avaliação de propostas, governos e resultados. Está sendo atravessada por identidades políticas construídas durante anos, por memórias, ressentimentos, medos e pela rejeição ao adversário.

É justamente por isso que o eleitor precisa tomar cuidado para não transformar a eleição numa simples disputa de ódios. Lula não é um santo, nem precisa ser. Também não precisa ser amado por ninguém. Deve ser julgado por seus atos, suas propostas, seus erros, seus acertos e pelos resultados de seus governos. Mas o mesmo critério precisa valer para seus adversários.

No dia 4 de outubro, não estará em jogo apenas a preferência por um candidato. Estará também em jogo a capacidade do eleitor brasileiro de separar convicção política de ódio pessoal. Porque democracia não exige que gostemos uns dos outros. Exige que saibamos escolher sem ódio, discordar sem intolerância e, sobretudo, defender o direito de o outro pensar diferente.

E talvez essa seja a verdadeira pergunta desta eleição: quando a urna for aberta, estaremos votando por aquilo em que acreditamos ou apenas contra aquilo que aprendemos a odiar?

www.reporteriedoferreira.com.br/Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor

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