O MODISMO QUE EMPOBRECE O PORTUGUÊS; Rui Leitao

Rui Leitao Jornalista: O MODISMO QUE EMPOBRECE O PORTUGUÊS
É realmente impressionante, mas também preocupante, observar no cotidiano como o nosso vocabulário vem sendo substituído por palavras estrangeiras, sobretudo do inglês. A internet, as redes sociais, o mundo corporativo, o marketing, a comunicação midiática e até o entretenimento adotam expressões que rapidamente passam a fazer parte da nossa fala diária.
Já não se combina mais uma reunião: agenda-se um meeting. A opinião ou resposta agora é considerada um feedback. O prazo virou deadline. Trabalhar em casa ganhou o nome de home office. São apenas alguns exemplos de um fenômeno que cresce silenciosamente.
A língua portuguesa, tão rica em sonoridade, história e expressividade, vem sendo trocada por palavras que nada acre…
[06:37, 18/03/2026] Rui Leitao Jornalista: A classe média e o voto contra si
Uma das razões pelas quais a classe média se posiciona ideologicamente à direita é o desejo de manter seu grupo social em uma situação de superioridade em relação às classes populares. As manifestações reacionárias protagonizadas por segmentos dessa classe também revelam um traço saudosista de períodos autoritários, quando hierarquias sociais eram mais rígidas e menos contestadas. Somam-se a isso o conservadorismo e um moralismo seletivo.
Percebe-se, ainda, um temor recorrente diante de discursos progressistas voltados à promoção da inclusão social. Um exemplo emblemático foi a aprovação, em 2013, da chamada PEC das Domésticas, que estendeu às trabalhadoras domésticas direitos já assegurados a outros empregados formais. A …
[12:28, 19/03/2026] Rui Leitao Jornalista: Sem urnas, sem voto, sem democracia
A Constituição de 1934 previa a realização de eleições presidenciais três anos após sua promulgação. Entre os candidatos estava José Américo de Almeida, que enfrentaria Armando de Sales Oliveira e Plínio Salgado.
No dia 31 de julho de 1937, uma multidão reuniu-se na Esplanada do Catete para ouvir José Américo. Foi o ponto mais alto de sua campanha, articulada por Juracy Magalhães e coordenada por Benedito Valadares. Ex-ministro de Getúlio Vargas e integrante do Tribunal de Contas da União, ele surgia como um nome de peso na sucessão presidencial.
O país, porém, vivia sob tensão. Desde 1936, medidas de exceção haviam sido adotadas após as revoltas comunistas de 1935. O “perigo vermelho” era explorado como instrumento po…
[21:50, 19/03/2026] Rui Leitao Jornalista: LULA: ENTRE O AMOR E O ÓDIO
Inicio este texto evocando a canção “As Aparências Enganam”, de Sérgio Natureza e Tunai, imortalizada na voz de Elis Regina. Nos versos “As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam / Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões” encontra-se uma síntese precisa do Brasil contemporâneo. Poucas figuras expressam tão bem essa tensão quanto Luiz Inácio Lula da Silva.
O país segue prisioneiro de heranças profundas. Não superamos por completo o ranço colonial, escravocrata e excludente que moldou nossa formação social. Isso se revela na maneira como parcelas da sociedade reagem à presença de Lula no centro da vida política. De um lado, admiração, respeito e identificação. De outro, um ódio que, muitas vezes, presc…
[09:04, 21/03/2026] Rui Leitao Jornalista: O Belo de novo em transformação
A inauguração do Estádio Almeidão, em 1976, representou para João Pessoa um marco de expectativa e renovação. A cidade ganhava, enfim, uma praça esportiva à altura de suas ambições e junto com ela surgia a esperança de que seus clubes, sobretudo o Botafogo, pudessem se projetar para disputar certames regionais e nacionais.
Essa atmosfera de confiança remete ao clima que envolve o jogo de hoje, quando o “Belo” pode conquistar mais um título estadual diante de sua torcida. O Almeidão volta a pulsar com aquele mesmo sentimento de possibilidades abertas.
Foi exatamente em um momento semelhante, de crença e reconstrução, que, em meados dos anos 1970, João Pessoa recebeu o empresário paulista José Flávio Pinheiro Lima. Dono de u…
[07:19, 22/03/2026] Rui Leitao Jornalista: O VERGONHOSO POWERPOINT DA GLOBONEWS
Houve um tempo em que a credibilidade de um veículo jornalístico era construída com apuração rigorosa, sobriedade editorial e compromisso com o interesse público. Mas vivemos uma era em que, entre a pressa do “urgente” e a ânsia pelo espetáculo, até mesmo canais que se orgulhavam de sua seriedade transformaram o noticiário em show multimídia. Foi assim que a GloboNews protagonizou uma cena que ficará registrada como um marco de constrangimento televisivo: o vergonhoso PowerPoint exibido como se fosse a grande revelação da verdade, aquela verdade pronta, arrumadinha e artificial, que só existe na imaginação de quem pretende convencer antes de informar.
O episódio escancarou as fragilidades de um jornalismo que, ao tentar parecer didático, termina sendo pueril. Um festival de setas, círculos, caixas coloridas e conclusões apressadas foi apresentado como se sintetizasse uma complexa realidade política. Os apresentadores, convictos da “pedagogia” visual, pareciam não perceber que, na ânsia de conectar pontos, fabricaram uma narrativa que mais sugeria do que explicava. Faltou nuance, sobrou pretensão.
Não foi a primeira vez que o país assistiu a um PowerPoint constrangedor. Todos lembramos do espetáculo inquisitorial de outros tempos, quando autoridades confundiam convicção com prova. A GloboNews, ao reproduzir a estética e a lógica daquele velho show, pareceu esquecer as lições que a história recente ofereceu ao jornalismo: simplificar o que é complexo costuma deformar; tentar “ensinar” o público com esquemas prontos frequentemente o subestima.
O mais lamentável, porém, é perceber que o recurso ao sensacionalismo gráfico não foi acidente. Foi escolha. Uma aposta no impacto visual em detrimento da profundidade analítica. Um esforço para viralizar, e não para esclarecer. Porque, no fim, o PowerPoint da GloboNews revelou mais sobre a emissora do que sobre o tema que ela pretendia analisar: revelou pressa, superficialidade e uma inquietante dependência do espetáculo como linguagem.
Talvez a maior lição desse episódio seja lembrar que, quando o jornalismo abdica da precisão, a confiança do público evapora. Cada seta mal desenhada empurra um pouco mais o telespectador para longe. Cada conclusão montada em slide reforça a sensação de que a imprensa se preocupa mais em performar do que em informar. E, num país que já convive com tamanha polarização, fabricar ruídos é o oposto do que se espera de quem tem a missão de esclarecer.
O PowerPoint passou. A vergonha ficou. E o jornalismo, esse sim, merece algo mais do que setas coloridas apontando para lugar nenhum.
www.reporteriedoferreira.com.br/Rui Leitao- advogado, jornalista, poeta, esscritor