Líder do bolsonarismo pede ajuda a Lula por reeleição ao Senado

O ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do PP e autoproclamado “o maior dos lideres bolsonaristas”, resolveu atravessar a ponte que jurou ter incendiado. Em busca de sobrevivência eleitoral, recorreu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para tentar viabilizar sua reeleição ao Senado pelo Piauí.
O encontro ocorreu em dezembro, na Granja do Torto, fora da agenda oficial do presidente, e contou com a presença do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). A iniciativa partiu do próprio Nogueira, que enfrenta um cenário adverso no estado e teme seriamente perder o mandato em outubro.
Do berço petista ao colo bolsonarista — e de volta
A trajetória de Ciro Nogueira é conhecida nos corredores de Brasília. Ele construiu sua ascensão política sob a sombra generosa de Lula e do PT, rompeu com o partido e, em seguida, aderiu com entusiasmo ao bolsonarismo, tornando-se um de seus principais operadores no Congresso.
Agora, com Bolsonaro fora do jogo presidencial e o bolsonarismo enfraquecido, o senador retorna ao Planalto em busca de um acordo pragmático. No Piauí, governado pelo PT, duas vagas ao Senado estarão em disputa. Nogueira propôs que Lula concentre o apoio petista em apenas um nome — o do senador Marcelo Castro (MDB) — abrindo espaço para sua própria reeleição.
Neutralidade em troca de sobrevivência
A moeda de troca oferecida por Nogueira é clara: o PP manteria neutralidade na eleição presidencial, sem formalizar apoio a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto. O gesto, ainda que informal, teria peso simbólico relevante, sobretudo diante da reorganização das forças políticas nacionais.
O movimento se conecta à federação em negociação entre PP e União Brasil — a chamada União Progressista — que pode resultar na maior bancada da Câmara dos Deputados, caso receba aval do TSE. Nogueira é um dos principais arquitetos dessa aliança.
Afeto, memória e recados sutis
Relatos de participantes descrevem a conversa como cordial, com direito a “trocas de afeto” ao final. Assessores próximos a Lula indicam que o presidente vê a proposta com simpatia e mantém apreço pessoal pelo senador. Durante o diálogo, Nogueira fez questão de destacar sua relação próxima com Hugo Motta, tratado quase como um herdeiro político, e lembrou ter sido um dos primeiros a reconhecer a vitória de Lula em 2022 — ainda que tenha permanecido fiel a Bolsonaro até o último suspiro do governo.
Negação pública, articulação privada
Temendo vazamentos e desgaste junto à base bolsonarista, Nogueira negou publicamente qualquer contato com Lula. Nos bastidores, porém, interlocutores confirmam que ele tem intensificado conversas e costurado apoios para fortalecer sua campanha no Piauí.
A reaproximação, contudo, não é consenso. Entre bolsonaristas, o gesto soa como traição. No PT piauiense, a resistência é ainda maior.
Resistência no PT e risco de racha local
O governador Rafael Fonteles e o ministro Wellington Dias (Desenvolvimento Social) não teriam sido informados oficialmente da conversa e tendem a se opor a qualquer acordo. A direção nacional do PT também resiste: o partido já tem Júlio César (PSD) como pré-candidato ao Senado no estado, e uma mudança de rota poderia gerar atrito com Gilberto Kassab, presidente do PSD e aliado estratégico de Lula.
No Piauí o apoio do Planalto é considerado decisivo. Em 2022, Lula obteve 76,8% dos votos válidos no segundo turno. Ainda assim, Nogueira mantém influência relevante entre prefeitos.
O passado que cobra seu preço
Em 2018, Ciro Nogueira foi eleito senador com apoio explícito de Lula e do PT, fazendo campanha ao lado de Fernando Haddad, que venceu Bolsonaro no estado com 77,1% dos votos no segundo turno. Nogueira foi o mais votado, com 29,8%, seguido por Marcelo Castro, com 27,1%.
Após a derrota petista, porém, virou a casaca: assumiu a Casa Civil em 2021 e conduziu o PP ao alinhamento radical com Bolsonaro e a extrema direita, mantendo-se fiel mesmo após a derrota do ex-presidente — rompendo com a tradicional lógica centrista de aderir ao poder vigente.
O bolsonarista órfão e o pragmatismo final
Sem Bolsonaro na disputa presidencial, Nogueira chegou a flertar com Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e até sonhou com uma vice-presidência. Com Tarcísio fora do páreo, o nome de Flávio Bolsonaro perdeu força, e o PP — que abriga uma ala lulista e mantém um ministro no atual governo — avalia liberar seus filiados na eleição nacional.