A ABSURDA PROPOSTA DE CONGELAMENTO DO SALÁRIO MÍNIMO; Rui Leitao

A ABSURDA PROPOSTA DE CONGELAMENTO DO SALÁRIO MÍNIMO; Rui Leitao

É sempre assim que os economistas do neoliberalismo propõem soluções que penalizam os mais pobres. Foi o caso de Armínio Fraga, um dos homens mais ricos do Brasil, ao defender o congelamento do salário mínimo por seis anos, durante sua participação no evento Brazil Conference, em Harvard, nos EUA, como forma de conter os gastos públicos e promover um ajuste fiscal. Em outubro do ano passado, ele chegou a propor que o SUS ficasse restrito àqueles que não pudessem pagar, estabelecendo um corte de renda para selecionar quem teria acesso ao sistema público. Já a parcela da população que poderia arcar com seguros e planos de saúde seria absorvida pelo setor privado. Paulo Guedes, ex-ministro do governo Bolsonaro, também pensava assim.

À época em que Armínio Fraga era presidente do Banco Central, os juros foram elevados ao patamar de 45%, e o desemprego atingiu níveis recordes. Agora, voltamos a assistir a ataques ao poder de compra de trabalhadores, aposentados e pensionistas, atingindo diretamente a base da pirâmide social. Essa postura ideológica busca blindar os setores mais privilegiados de qualquer esforço redistributivo.

A elite econômica brasileira não demonstra preocupação com as questões sociais. As alternativas apresentadas tendem a sacrificar cada vez mais os assalariados, adotando políticas baseadas na contenção de direitos sociais e na manutenção da concentração de renda e dos privilégios de uma minoria que vive do rentismo. É bom lembrar que essa ideia de Armínio Fraga já foi posta em prática nos governos de Temer e Bolsonaro, deixando o salário mínimo sem aumento real por seis anos.

Essas maldades impostas pelo neoliberalismo não resolvem crises econômicas. Pelo contrário, são incompatíveis com a justiça social. É indiscutível que o ajuste das contas públicas é necessário, mas não à custa do estrangulamento de setores destinados aos brasileiros mais vulneráveis, nem aplicado de forma seletiva ao impor sacrifícios apenas aos mais pobres. Considerar o salário mínimo como o vilão do orçamento revela o sentimento de desprezo pelos assalariados de baixa renda, a partir da visão ideológica de quem faz essa defesa. Em um país com a desigualdade estrutural do Brasil, essa proposta só poderia partir de quem nunca experimentou qualquer dificuldade financeira, ignorando o papel histórico do salário mínimo como instrumento de distribuição de renda, valorização do trabalho e estímulo à atividade econômica.

A pergunta que poderia ser feita ao propositor bilionário desse absurdo seria: por que não buscar a adoção de medidas que alcancem os beneficiários de lucros financeiros, como a taxação das grandes fortunas? Ou, então, por que ele não sugere congelar o pagamento dos serviços da dívida pública por seis anos?

www.reporteriedoferreira.com.br /Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor

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