Foi golpe, sim Por Rui Leitao
Foi golpe, sim
A extrema-direita brasileira continua insistindo em querer reescrever a história conforme seus interesses, teimando em classificar o golpe de 64 como um ato revolucionário. O ex-presidente da República chegou a determinar aos censores do Enem, por ele nomeados, que assim fosse tratado nas questões das provas, porque precisavam ficar com a “cara do seu governo”.
Foi golpe, sim. Como ignorar os assassinatos, as prisões arbitrárias e as torturas praticadas pelo regime ditatorial que marcou uma página sombria da nossa história? Só na cabeça doentia de um apaixonado por ditaduras isso pode ser admitido. Trata-se de uma visão descolada da realidade para atender a anseios ideológicos. Não há como negar as evidências: foi uma articulação golpista civil-militar para a tomada do poder.
O golpe foi iniciado já em 1961, quando criaram vários obstáculos para a posse de Jango como presidente, implantando às pressas o parlamentarismo com o intuito de reduzir os poderes do Executivo. Sua posse incomodou não apenas os grupos conservadores de nosso país, mas também o governo dos Estados Unidos, que passou a financiar lideranças empresariais e políticas da direita nacional. A imprensa brasileira contribuiu para o processo de desestabilização do governo Jango.
Como se verifica atualmente, a sociedade brasileira estava rachada ideologicamente entre esquerda e direita. No final de 1963, os ultraconservadores se articularam com as Forças Armadas para a tomada do poder. O contexto histórico já demonstrava o enfraquecimento do governo Jango. A situação do Brasil mostrava-se extremamente instável. O comício de 13 de março, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, com a participação de mais de duzentas mil pessoas, quando o presidente assumiu seu compromisso com as reformas de base, precipitou os acontecimentos em direção ao golpe.
No dia 19 de março, aconteceu a reação conservadora com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, numa passeata que mobilizou mais de quinhentas mil pessoas. Foi o bastante para os golpistas se sentirem fortalecidos e iniciarem o ato final que determinou a intervenção dos militares na política brasileira.
Jango ficou isolado quando perdeu o apoio de seu aliado no Exército, Amaury Kruel, afastando as possibilidades de resistência interna nos quadros das Forças Armadas. O golpe então se consumou. Como chamar isso de revolução? Ainda que as coincidências se repitam, com os militares querendo assumir a tutela sobre o poder político, o contexto histórico é bem diferente do que se viu em 1964. Os tempos são outros. Ditadura nunca mais. Mas o que não pode jamais ser negado é que, em 1964, aconteceu um golpe civil-militar e não uma revolução, por mais que a extrema-direita queira mudar a verdade histórica.
Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor