“A situação melhorou muito de 2019 para cá, o futebol feminino passou por um boom com a transmissão de Campeonato Brasileiro na televisão aberta, patrocínios nas camisas, investimento em seleções de base e, claro, com a criação de uma camisa própria para a Seleção – já que antes elas jogavam com uma versão masculina, com cinco estrelas no escudo”, diz.
A CBF é responsável pelos custos relativos à comissão técnica, delegações, passagens, alimentação, hospedagens e demais itens necessários à operação e desenvolvimento das equipes, nas competições e amistosos de preparação, realizados ao longo do ano.
No entanto, em parte dos campeonatos, como a Copa do Mundo, os valores seguem bem diferentes: ao anunciar a igualdade de salários em 2020, a CBF informou que as premiações serão proporcionais ao repasse da Fifa para cada modalidade.
Marta é, inclusive, uma das maiores ativistas pela igualdade de salários e investimentos no futebol atualmente. Na última Copa, ela dispensou patrocínios e entrou em campo usando uma chuteira com o símbolo da igualdade nas cores azul e rosa, criado pela campanha ‘GoEqual’.
“A Marta atleta se sente realizada. Mas o maior sonho mesmo é sentir que a nossa modalidade está caminhando para frente”, afirmou a jogadora em uma entrevista à CBF em 2018.
“Que o futebol feminino não é só uma promessa. É uma realidade. Que as meninas possam mesmo sonhar em ser atletas, seguir uma carreira, viver do futebol. Sentar depois no futuro, na minha casa, no sofá e ver o futebol feminino na TV como algo normal, constante”, defendeu.
“Existe uma ideia muito forte de que as mulheres têm que se provar, tem que gerar renda para que os patrocínios e salários cresçam. Mas aí entramos em um ciclo sem fim, por que como as mulheres podem provar que geram renda se não tem patrocínio ou transmissão?”, questiona Pessanha.
Desenvolvimento de liga nacional
A especialista afirma ainda que a existência de ligas nacionais bem consolidadas, com times de base, é essencial para o desenvolvimento de um esporte. Mas no Brasil atualmente os progressos nesse setor ainda acontecem muito lentamente.
“Ter boas seleções de base e campeonatos estruturados são elementos essenciais para formar e revelar novas jogadoras, que no futuro vão renovar a atual Seleção”, diz.
“Fora que um campeonato bem estruturado ajuda a vender o esporte dentro do país. Quanto mais times competindo em alto rendimento, mais torcedores começam a acompanhar.”
Desde 2019, os clubes masculinos da Série A do Campeonato Brasileiro e da Libertadores são obrigados a ter elencos femininos. O Brasileirão feminino também conta com três séries desde 2022, e mais quatro campeonatos de futebol feminino foram lançados no ano passado.
“Progredimos muito nesse setor, mas ainda temos muito a avançar”, diz Pessanha.
Quando se trata do futebol nacional, outro parâmetro importante é o interesse dos patrocinadores pelas equipes, segundo a pesquisadora.
Quando estreou, em fevereiro de 2023, a atual edição do Campeonato Brasileiro feminino contava com um apoio externo de patrocinadores recorde, mas que não chega nem perto dos valores da mesma competição para homens.
No total, somando as 16 equipes, são 80 patrocínios presentes no campeonato de mulheres, contra 134 na série A do Brasileirão masculino.
Celebrar as conquistas
Mas segundo Nathalia Pessanha, é importante também celebrar as conquistas, apesar das adversidades.
“Se analisarmos o panorama de 10 anos atrás, vemos o quanto progredimos e o quanto a Seleção Feminina tem conquistado”, diz.
Além de ter ganhado seis vezes a Copa América de Futebol e três Pan-americanos, a brasileira é considerada uma das melhores seleções de futebol feminino do mundo e sempre está bem posicionada no ranking da FIFA.
Em 2011, o Brasil ainda encerrou a primeira fase da Copa do Mundo de Futebol Feminino na Alemanha com 100% de aproveitamento e a melhor campanha dentre as 8 seleções que se classificaram para a segunda fase: 3 vitórias em 3 jogos, 7 gols marcados e nenhum sofrido
“Se a sociedade entender que a igualdade é necessária, o desenvolvimento pode acontecer também por meio da pressão social, seja sobre as entidades esportivas ou sobre as empresas e campanhas de marketing.”
Antes do jogo desta quarta, em uma entrevista coletiva, Marta também ressaltou a importância do legado.
“Sabe o que é legal? Eu não tinha uma ídola no futebol feminino. Vocês (imprensa) não mostravam o futebol feminino. Como eu ia entender que eu poderia ser uma jogadora, chegar à seleção, sem ter uma referência? Hoje a gente sai na rua e os pais falam. ‘Minha filha quer ser igual a você’. Hoje temos nossas próprias referências. Não teria acontecido isso sem superar os obstáculos. É uma persistência contínua.”