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Afrouxem as algemas

24/12/2018 11:56

A espera de uma prima, aguardava ociosamente a liberação de um atendimento em um salão de beleza. O tempo passava. Levantei, passeei pelo ambiente, tomei um café, um chá, uma água, me arrisquei até a experimentar uns biscoitos típicos da região. Folheei todas as páginas de revistas e jornais presentes na mesa central, e, quando me dou conta, findaram as opções legíveis. Corri para os fones de ouvido, redes sociais, e, por fim, o celular descarregou. Tentei a televisão. Falhei. Nada envolvente. Após muita resistência, resolvi por livre e espontânea falta de alternativa, atentar os ouvidos para os diálogos do local. Uma noiva. Processo de maquiagem. Elogios. Auto estima erguendo-se. Entre um retoque e outro, as companhias falavam repetida e incisivamente: “você está deslumbrante, realmente maravilhosa”. A noiva, radiante se desmanchava em gratidão e disse: “outro dia desse, mais nunca – risos -“, o que ninguém sabia é que ela não se referia apenas ao fato de que ela não pretendia casar-se novamente, já que casaria logo mais com a intenção de ser para todo o sempre. Entretanto, surpreendentemente, a noiva revela que a sua igreja não permite que seus fiéis e frequentadores assíduos utilizem “artefatos mundanos” sem que haja qualquer ocasião julgada especial por seus superiores. Boquiabertos ficaram todos os ouvintes. Cabelo macio. Sedoso. Babyliss. Um penteado. E uma noiva alienada. Refém de preceitos impostos. Depois da sensação de que se passaram séculos, retirei-me do recinto com o desejo de nunca ter escolhido atentar minha audição.